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Você não produz o suficiente 12 março, 2012

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Publicado originariamente em 27/09/2011

“Você não produz o suficiente” é a frase mágica que deve ser proferida se sua pretensão é massacrar o adversário. Não há ofensa maior e não há golpe mais certeiro.

Foi com uma acusação assim que a burguesia fez ruir aquelas catedrais milenares, a nobreza e o clero. Foi com o mesmo argumento que o Estado proletário se levantou depois contra a burguesia. E é talvez por temermos o estigma e a cruz desse tipo de acusação que não nos cansamos de ceder, manhã após manhã, aos caprichos histéricos do despertador.

Não surpreende que a preguiça tenha se tornado um pecado bastante condenável. O preguiçoso, o ocioso, o vadio, o malandro, o desocupado, o vagabundo, o parasita, o meliante, são a gente que vagaria nas últimas esquinas do inferno se esse fosse projetado pelo ministro das finanças de um Estado capitalista qualquer (e há boas razões para crer que as plantas do inferno foram mesmo traçadas por esses homens de bem). O primeiro mandamento é rigorosamente esse: não deixais vossos corpos vagarem por aí, erráticos como cães, alheios às amarras sensatas da santa produção e do bendito consumo.

É que a preguiça, essa condenável passividade, vai minando com o silêncio da traça e com o riso cáustico da ironia o que seja catedrais e muros e torres e arranha-céus – e vai martelando e esfarelando o orbe sagrado dos homens de ação. Para conter o avanço letal das tropas do ócio, os homens de bem erguem mais prisões, tribunais, igrejas, fábricas, escolas. E fazem propaganda. O pecado mortal do ocioso, acusam, é o de que ele não produz ou o de que não produz o suficiente.

Não consideram – não querem considerar – a possibilidade do ocioso viver produtivamente o seu ócio, esgueirando-se de tudo o que seja ofício, especialização, definição, papel – abandonando tudo o que seja espada, paramento, status, hierarquia. E ao produzir seu pão, o ocioso não deixará de gozar longamente a textura da massa; ao estudar astronomia, demorará em assombros e vertigens.

Nessa altura talvez já possamos indicar a inversão, a óbvia inversão: o único que realmente produz é o ocioso – o mais é (re)produção cega e alienada.

“Você não produz o suficiente” é a acusação que o capitalismo merece.

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Abismo – uma redenção 12 março, 2012

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Publicado originariamente em 01/05/2011

Há em Dante e no trovadorismo do Medievo uma concepção de amor que confunde e encanta como um jogo paradoxal: os cavalos, as mesuras, os sonetos, as vestes iluminadas – um universo docemente acorrentado ao destino de ser vassalo e trovador do amor. A condição, todavia, é a de que o jogo da trova permaneça indefinidamente, e o temor, o incofessado temor, é o de que o amor celebrado se realize, o de que o objeto amado faça-se presente e disponível.

O desaparecimento do objeto amado – sua morte ou seu afastamento, que o amante canta e lamenta como a suprema tragédia, é sentido positivamente como a condição de sobrevivência e elevação do amor (um motivo oculto, artifício a que toda mitologia recorre). Basta pensar na estrutura da Vida Nova de Dante. A morte de Beatriz, a amada, que só seria desafogada com “palavras dolorosas”, altera radicalmente a estrutura do livro – até então, em cada capítulo, os sonetos ou cantos que o compunham eram divididos e explicados posteriormente por um trecho em prosa; com o passamento de Beatriz, Dante anuncia uma inversão: “e, para que essa canção pareça mais viúva ao finalizar, dividi-la-ei antes de escrevê-la e tal critério manterei aqui por diante.” Desaparecido o objeto amado, a poesia finalmente triunfa; o mundo do poeta acha-se esmagado e desfigurado pela ausência da amada, e apesar disto, e em razão disto, sua poesia ressoa como nunca em direção à eternidade.

Abraçar positivamente a ausência, o vazio, eis a cruz e eis a única possibilidade de redenção do amante e de seu amor. Talvez não seja o vazio de um niilismo desesperado, algo como a dissolução definitiva de todo o significado – mas, quem o saberá, o vazio seja ele próprio o significado último (sim, um abismo, aquela negra ausência com a qual teceremos com responsabilidade nosso destino individual e coletivo).

Traços desse amor cujo pleno desenvolvimento carece da ausência do objeto amado talvez possam ser achados na relação amorosa de Deus com o homem, conforme a concebe a narrativa cristã. Se o corpo de Jesus desaparece e nos condena, seus amantes, à orfandade dolorosa, é para que o Espírito – o seu, silencioso e inapreensível como um abismo, possa triunfar entre os homens – liberados, constrangidos a escrever com sangue e carne uma poesia genuinamente sua. Beatriz elevada aos círculos angélicos – o poeta que invente com dor e glória e beleza um universo, e o habite.

O reino da leveza 12 março, 2012

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Publicado originariamente em  28/03/2011

Oferecendo concreção a um nosso sonho antiquíssimo, a ciência conduziu-nos à lua – ao signo milenar da leveza e da suspensão, e desde que foi ferido por pés humanos o astro persiste em sua intransigência de não derramar sobre nós uma gota sequer de seu néctar suave – em que se prova que só aparentemente nossos sonhos se realizaram (é dizer, que só se realizaram no campo da retórica política e da propaganda). Nossa primeira viagem à lua, nosso longamente aguardado encontro com o reino da leveza, revelou-se um tiro de pistola em uma guerra fria, ícone trágico de nossa época – essa que persegue leveza e velocidade e só encontra peso e opacidade e inércia.

O mundo da eletricidade e dos bits, belíssima ironia, não foi agraciado com movimentos mais delicados que os de uma montanha. Profusão de rodas que obstam mutuamente o fluxo; deuses de olhos incontáveis que tudo flagram e tudo gravam; leis e burocratas ditando secretamente nossos passos e infortúnios. Redes de intrincadas constrições públicas e privadas – e tudo, sentimos e ressentimos, nos esmaga.

O sítio que nos cabe é esse: a dura arquitetura dos castelos de pedra, que se elevam grotescamente tendo por alicerces a lei e a chibata. Em um tal universo, os que ousam manejar as adagas da leveza condenam-se ao exílio – os poetas, os arautos da graça. Platão os tinha por perigosos e indesejáveis. Florença não pôde tolerar seu filho mais nobre e o expurgou. O que insistiu demasiado na beleza dos lírios e na insustentável leveza de Deus foi levado a experimentar o peso inclemente da cruz.

Se há algo de ruidosamente libertador na graça é que ela destece o peso do mundo; desfaz sem recato os nós mais admiráveis que supostamente sustentam e vivificam a trama humana: méritos e privilégios, posses e hierarquias; classes, castas, pátrias, ideias, deuses. Tudo em farrapos. E o homem reconduzido a sua nua humanidade, já sem o peso e sem o abrigo dos milenares castelos de pedra.

O paradoxo e o escândalo já foram mencionados: ao destramar o peso do mundo o arauto da graça será por ele esmagado de um modo particularmente atroz; por desatar os nós da inclemência sua face nua conhecerá o ultraje. Moído pelo peso iníquo do mundo o poeta se verte ele próprio em poesia, ele próprio na agulha avessa e vertiginosa que sangrará as torres desse século – e concederá a todos um novo sopro, e com ele a esperança de um reino de leveza e suspensão.

Dardejante verbo 12 março, 2012

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Publicado originariamente em  26/01/2011

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Nos primórdios do tempo concederam ao barro (e não aos anjos, como então se esperava) a mais cobiçada das armas celestes: o Dardejante Verbo. Tramaram, fibra por fibra, um sumamente corrediço e purpúreo tecido – algo como as asas de uma borboleta, com a diferença de estarem graciosamente projetadas para dentro. Ao bípede, a língua – o verbo – a arma latejante da transgressão.

Foi feito o homem.

O judaísmo insiste com uma obsessão bastante particular no estatuto de speech-act da criação; cria-se por intermédio do discurso. Deus é o que fala, e a fala exige um ouvinte, de modo que o próprio discurso divino encarrega-se de produzir um. Entretanto, a fala tem ainda outra exigência, sensivelmente mais radical. Um ouvinte sim, mas um ouvinte que responda. A ética judaica, Lévinas não nos deixa esquecer, está fundada no diálogo. A criação de um ouvinte capaz de responder é a criação de um rosto. E o rosto, argumenta Lévinas, é “o modo como o outro se apresenta, ultrapassando a ideia de outro em mim.” Ao criar o homem – e esse talvez seja o elemento mais fascinante da mitologia judaica da criação – Deus cria um rosto que absolutamente não é o seu, uma voz que absolutamente não é a sua. A única certeza que resta, inclusive ao Criador, é a de que o sol faiscará sobre um mundo polifônico.

Um exemplo extraído da literatura (e devo desculpá-los pela pobreza de meus exemplos!) talvez seja generoso e conceda um facho de luz à minha argumentação. Mikhail Bakhtin, estudando a obra do romancista Fiódor Dostoiévski, encontrará nela uma poética da polifonia (Problemas da Poética de Dostoiévski, Forense Universitária, 2005). O universo arquitetado pelo romancista russo, conforme o concebe Bakhtin, é caracterizado por uma “multiplicidade de vozes e consciências independentes”.

Há uma longa tradição na crítica literária ocidental que argumenta que a arte é concorrente de Deus, e que o romance, em particular, é uma forma de “deicídio sutil” (Vargas Llosa). Numa primeira exploração dessa ideia talvez convenha uma ligeira provocação: o poder de fogo do Verbo é tal que basta para o cometimento do ato de suprema transgressão em uma cultura teística: o deicídio. E levando a provocação adiante, o relato da criação do Gênesis, enquanto relato literário que é, já constitui ele próprio um ato transgressor – um deicídio sutilíssimo – uma primeira e desesperada tentativa humana de ordenar discursivamente o caos, o vazio. Mas voltemos a Dostoiévski.

Se o romance é uma espécie de deicídio, os deicídios de Dostoiévski são como atos de louvor – suplantações de Deus que são a um só tempo desesperada imitatio dei. O romancista russo, como o Javé do relato do Gênesis, não nega aos seus heróis o Dardejante Verbo – estratégia, naturalmente, que o fragiliza enquanto criador, ao obstar-lhe o controle absoluto sobre o destino de suas criações. Bakhtin acende sua flama:

Dostoiévski não cria escravos mudos (como Zeus) mas pessoas livres, capazes de colocar-se lado a lado com seu criador, de discordar dele e até rebelar-se contra ele. A multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoiévski (…) suas personagens principais são, em realidade, não apenas objetos do discurso do autor mas os próprios sujeitos desse discurso diretamente significante (…) A consciência do herói é dada como a outra, a consciência do outro, mas ao mesmo tempo não se objetifica, não se fecha, não se torna mero objeto da consciência do autor.

A poética de Dostoiévski é uma poética do despojamento, que faz da criação um ato de plena liberdade do criador, que se cria, é por amor à criatura – e não um ato movido pela necessidade de encontrar instrumentos que façam ressoar em variados timbres a voz única do criador. Como o ouvinte ativo do judaísmo, o herói dostoievskiano é dotado de um rosto e de uma voz – está liberado para responder.

A língua é a centelha subversiva que faz irromper no homo o sapiens – no barro bruto, a dança inebriante da liberdade (ou ainda, na linguagem bíblica, é o sopro divino insulflado nas narinas do barro). Esse papel humanizador da língua é descrito de forma comovente por Oliver Sacks em sua viagem ao mundo dos surdos (Vendo Vozes: uma viagem ao mundo dos surdos, Cia das Letras, 2010). Sacks, um médico que não se esqueceu de ser homem, acompanha a dramática trajetória de pessoas com surdez pré-linguística (adquirida antes do aprendizado de uma língua) e que não foram em nenhum momento instrumentalizadas com a língua de sinais. A incapacidade de proposicionar interna e externamente, própria daqueles em quem a centelha da língua não irrompeu, condena o raciocínio a incoerência e à paralisia. A surdez pré-linguística, afirma Sacks, “é potencialmente muito mais devastadora que a cegueira, pois ela pode predispor a pessoa, a menos que isso seja prevenido, à condição de ficar praticamente sem língua – e de ser incapaz de proposicionar (…) os surdos sem língua podem de fato ser como imbecis – e de um modo particularmente cruel, pois a inteligência, embora presente e talvez abundante, fica trancada pelo tempo que durar a ausência de uma língua.” A língua, aprendemos muito dramaticamente, é a arma que nos libera para explorarmos os mares e os continentes da aventura humana (1).

É evidente que ninguém adquire por si uma língua – ela é transmitida culturalmente. Emergirá, quase sempre, na relação entre o filho e a mãe – e enreda a prole e sua genitora já não mais na consistência bruta de um cordão umbilical, senão em uma espécie de jogo ardiloso e precário, capaz de uní-los e de separá-los (2). Se a língua é o que estabelece laços, ela é ainda o que os afrouxa e os desata – e portanto, o elemento que fertiliza as relações, impedindo que caiam vítimas de uma auto-estrangulação trágica.

Desse jogo linguístico, que une e separa, que confronta e louva, que lamenta e se apaixona, foram tecidos uma considerável parcela dos escritos poéticos que compõem a Bíblia judaica. Mesmo sob a vigência da lei, ao homem não é negada a palavra, o lamento, o desafio, a declamação apaixonada.

Jó (e se seu exemplo não bastar, nada bastará) é o homem que penetra até as profundezas úmidas do vazio a fim de desafiá-lo – ele está absolutamente nu, e seu punhal, como o de Hamlet, é a língua. Seu punhal, como o de todos nós, é o Dardejante Verbo.

Notas:

(1) Obviamente, ninguém aqui está sustentando que a ausência de desenvolvimento linguístico nos surdos pré-linguísticos e nos afásicos lhes retira a qualidade de humanos. A ausência da língua é apenas um óbice (transponível, aliás) para o desenvolvimento pleno de sua humanidade.

(2)A lembrança de Hamlet é inevitável. É hora de confrontar sua mãe, a Rainha, e em semelhante embate o único punhal que merece uso é a língua: “À minha mãe irei agora. Coração, sê forte; que a alma de Nero não me invada o peito, que eu seja cruel, não desumano. Falarei de punhais, mas sem usá-los.” e a reação da Rainha, no clímax do embate: “Não me fales mais. Essas palavras entram como espadas nos meus ouvidos. Para, doce Hamlet.”

A era da impossibilidade 12 março, 2012

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Publicado originariamente em 23/01/2011

Eric Hobsbawm em “Era dos Extremos: o breve século XX”, nos aterrorizando com a lembrança do horror impessoal das duas Guerras Mundiais

A impessoalidade da guerra tornava o matar e estropiar uma consequência remota de apertar um botão ou virar uma alavanca. A tecnologia tornava suas vítimas invisíveis, como não podia fazer as pessoas evisceradas por baionetas ou vistas pelas miras de armas de fogo. Diante dos canhões permanentemente fixos da Frente Ocidental estavam não homens, mas estatísticas – nem mesmo estatísticas reais, mas hipotéticas, como mostraram as “contagens de corpos” de baixas inimigas durante a guerra americana no Vietnã. Lá embaixo dos bombardeios aéreos estavam não as pessoas que iam ser queimadas e evisceradas, mas somente alvos. Rapazes delicados, que certamente não teriam desejado enfiar uma baioneta na barriga de uma jovem aldeã grávida, podiam com muito mais facilidade jogar altos explosivos sobre Londres ou Berlim, ou bombas nucleares em Nagasaki. Diligentes burocratas alemães, que certamente teriam achado repugnante tanger eles próprios judeus mortos de fome para abatedouros, podiam organizar os horários de trem para o abastecimento regular de comboios da morte para os campos de extermínio poloneses, com menos senso de envolvimento pessoal. As crueldades de nosso século foram as crueldades impessoais decididas à distância, de sistema e rotina, sobretudo quando podiam ser justificadas como lamentáveis necessidades operacionais.

Leia ainda: “Estamos longe de ter enterrado Hitler” Exposição convida Alemanha a se confrontar com sua responsabilidade coletiva.

Na democrática liturgia da vida 12 março, 2012

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Publicado originariamente em 09/01/2011

Nenhuma aridez – salvo as que se aleitavam muito naturalmente no solo palestino. Nenhuma palavra escrita – salvo as que se danaram na ingovernável dança das areias. Aos olhos do Carpinteiro – e creio não ser demasiado lembrar – Deus não se explicava em sistemas ou teologias, em abstrações refinadas e conceitos áridos. Não era um objeto oculto cujo desvendamento exigia muito esforço e algum privilégio – qual queriam os fariseus, e qual ansiaram os gnósticos. E se ao sol não é dado desvelar novidades, como ainda querem os paladinos das ideias corretas.

Se Deus se deixar ver na aridez, será na aridez bastante concreta do deserto. Se conceder encontros consigo nas palavras, serão naquelas infectadas por essa doença do verbo a que chamam poesia – essa doença do Verbo a que chamam Encarnação. Em Jesus, Deus se revela na hora miraculosa da mesa – quando o pão se parte; se exibe desvestido no coito do arado com a terra. Bebendo nas águas da poesia judaica, Jesus fornece-nos a vívida imagem de um Deus cavalheiro, que isca os mais rudes corações com seus engenhos trovadorescos. Um noivo – um prodigioso amante – e o que é mais inconcebível: um amante de todos; mas só por ser, antes, um amante de cada um.

No universo do crente o ouro é o credo. Soada a trombeta, restará como moeda única (aqueles para quem tudo se resume aos mandamentos e ao seu estrito cumprimento, na economia da lei, são os bem-aventurados que herdarão o Reino). O Filho do Homem solicita a palavra e nos previne, não sem gentileza, com uma ressalva que é a suma de sua boa notícia: no universo dos amantes o ouro é outro – e aquele, o ouro dos crentes, é ruidosa palha, é som e fúria.

O Verbo se faz Carne. A prosa acata dolorosamente as setas da poesia. Em ato dramático, o amante abandona tronos e coroas e privilégios a fim de abraçar a condição plebeia da amada – e assim fitá-la nos olhos. Em ato de suprema mesura, o amante torna-se fabricante de móveis, admirador de lírios, e promete a instauração de seu Reino Eterno na terra onde rasteja a relha e onde o corpo lampeja – na terra dos mil e um desejos.

A eternamente mal compreendida cortesia da graça é também essa: a de não exigir da camponesa que escape de sua condição e se adapte aos modos severos da corte; a de não estabelecer, entre a camponesa e as delícias do Reino, obstáculos cuja transposição exigiriam da pobre jovem uma fuga de si mesma.

A cortesia da graça veio liberar os homens de serem deuses; liberá-los para um encontro com Deus na democrática liturgia da vida, onde as hierarquias não imperam e onde os paramentos revelam-se obsoletos. O Verbo se fez Carne a fim de que a carne não sangrasse e fizesse sangrar no disparatado intento de se fazer Verbo.

A quintessência da ironia divina 12 março, 2012

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Publicado originariamente em 26/12/2010

AULETE [Ironia] 3. Acontecimento ou desfecho contrário ao que se esperaria das circunstâncias

Borges, rejeitando compaixão e amargura, louvou a “magnífica ironia de Deus”, que deu-lhe “a um só tempo os livros e a noite”. Ao mais generoso dos leitores foi concedida licença divina para fatigar sem rumo pelos confins de uma “alta e funda biblioteca cega”.

Era 1708, e em carta dirigida ao Conselho Municipal de Manchausen um homem acusa a falta de recursos materiais, segundo ele obstáculo para realização do “verdadeiro fim” de sua vida: “regularizar os serviços musicais da Igreja”. Ao homem que lamentava órgãos quebrados e posava como modesto reformador da música eclesiástica luterana, fora atribuído o nome de Johann Sebastian Bach. Documentos subscritos por membros da comunidade eclesiástica acusavam-no “de intervir no órgão com sons estranhos e acordes feios, de modo que os fiéis perdem a melodia, não podendo mais acompanhar pelo canto o serviço sacro.” O zeloso reformador da música sacra alargou suas fronteiras ao ponto dramático de aniquilá-la: e entregá-la a instrumentos e sons profanos, e fazê-la ressoar em definitivo nos templos da música secular. Por magnífica ironia divina, Bach estava ligeiramente enganado quanto a sua vocação.

Deus, o inenarrável e o que opera nos salões da eternidade, quando narrado, e portanto quando por subversão conduzido ao tempo, revela-se sempre deliciosamente irônico. Ou tragicamente, se a pena e o gênero assim o exigir.

Ironia maior foi sua encarnação –  foi conduzir-se ao tempo, e não mais em palavras. Em carne. Foi encerrar-se na vertigem do labirinto.

A quintessência da ironia de Deus foi não ter poupado nem a si.

O trovador 12 março, 2012

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Publicado originariamente em 10/11/2010

G.K. Chesterton, em São Francisco de Assis: a espiritualidade da paz

O que salta aos olhos na vida de São Francisco está presente já no começo de sua história: ao se considerar, desde o início, um trovador, acrescentando mais tarde que era o trovador de um romance mais novo e mais nobre, ele não estava usando uma metáfora, mas compreendia a si mesmo bem melhor do que os eruditos o compreendem. Francisco foi, até as últimas raias do ascetismo, um trovador. Foi um apaixonado. Apaixonado por Deus, e verdadeiramente apaixonado pelos homens, talvez uma vocação mística bem mais rara. Um apaixonado pelos homens é quase o oposto de um filantropo. Na verdade, o pedantismo da palavra grega tem praticamente o efeito de uma sátira de si mesma. Pode-se dizer que um filantropo ama antropóides. Contudo, do mesmo modo que não amava a humanidade, mas os homens, São Francisco não amava o cristianismo, mas a Cristo. Alguém poderá dizer que ele foi um louco que amava um ser imaginário; mas era um ser imaginário, e não uma idéia imaginária. O leitor moderno tem mais condições de encontrar a chave do ascetismo e de tudo o mais na história de amantes que são um pouco loucos. Se você contar a história como a narrativa de um dos trovadores e de todas as loucuras que ele faria por sua dama, todo o enigma moderno desaparece. Num romance desses, não haveria contradição entre o poeta que colhe flores ao sol e suporta uma gelada vigília na neve, entre seu louvor de toda a beleza da terra e do corpo e sua recusa em comer, entre sua glorificação do ouro e da púrpura e seu uso decidido de andrajos, entre sua pungente demonstração de fome de uma vida feliz e a sede de uma morte heróica. Todos esses paradoxos se resolveriam facilmente na simplicidade de todo amor nobre. A diferença é que esse era um amor tão nobre que nove entre dez homens nem sequer chegaram a ouvir falar dele.

Agora vemos por espelhos [II] 12 março, 2012

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Publicado originariamente em  05/11/2010

Há cinco anos visitei uma exposição de cartas cartográficas e a única alusão feita à cartografia medieval era uma máxima consignando a sua inexistência. Mapa algum; é dizer, concessão alguma às crendices que semeavam monstros nas distâncias oceânicas; espaço nenhum ao obscurantismo de quem desenhava cartas sem o rigor do método. A cartografia moderna varrerá literalmente do mapa todo monstro e toda invencionice artística. É uma limpeza, por óbvio, que não se restringirá ao domínio da confecção de mapas.

No processo de desencantamento do universo iniciado pela ciência moderna o estatuto especular das coisas será reduzido a estilhaços. Gradualmente vai perdendo espaço as concepções que sustentam que as coisas remetem. Talvez mais adequado seja falar não em estilhaçamento do espelho (esse objeto que não se cansa de nos assombrar), mas em seu deslocamento da estrutura das coisas para a estrutura dos instrumentos que dissecarão metodicamente as coisas (o telescópio de Galileu é um acabado ícone da modernidade).

Por confessa inaptidão, evitarei transitar aqui pelos terrenos ardilosos dos juízos de valor, e ficarei apenas com uma nota que temo pecar por sua obviedade: toda época histórica é um corpo crivado por ambiguidades, e todo juízo de uma época por outra está condenado aos rasgos das afiadas paixões. Não é diferente com a Idade Media, uma época de negruras e cores vivas, de analfabetismo generalizado e livros que tudo abordam; não é diferente com o juízo que a Idade Moderna fará dos medievais, que dá a ideia de um Sol onipotente julgando e condenando todas as trevas, sem descuidar de afirmar sua auto-suficiência e completude (há, claro, os outsiders pessimistas, como o Cândido, de Voltaire, que transitam por aí apenas para nos confirmar a regra).

Se a Idade Moderna rompeu, entre outras, com a já mencionada lógica agostiniana de que também os monstros (também as rígidas estruturas sociais e as atrocidades delas decorrentes) são parte da ordem providencial da natureza, ela tampouco deixou de forjar suas particularíssimas opressões. Uma delas (a que nos interessa aqui) é a conjuração do que há de insidioso e terrível nos espelhos. Para levar adiante a urgente tarefa de domar a natureza já não era dado aos homens ver “como por espelhos”. Isso implicava, no plano epistemológico, a exigência de uma separação radical entre sujeito e objeto. Ao sujeito cumpre fisgar e domesticar o objeto, e portanto esvaziar o mistério e o terror nele aninhados; esvaziá-lo, em uma palavra, de sua sacralidade.

O processo de esvaziamento da sacralidade dos objetos, vale mencionar, não escapou ele mesmo de profundas ambivalências: se foi decisivo para o desenvolvimento da ciência e para a melhoria das condições gerais de vida do homem, não foi menos fatal no desencadeamento da atual crise ecológica e no esgotamento da racionalidade científica, tragicamente entrincheirada entre as muralhas alienadoras da especialização.

Não é de ignorar a grande ironia do antropocentrismo moderno: ele tencionava levar o homem ao centro, ao espaço amplo da liberdade e da possibilidade de diferenciação (e sua carta de princípios exibia gente de engenhosidade escandalosa como Leonardo da Vinci), mas atabalhoadamente precipitou-o na senzala da uniformidade (no escritório árido do especialista). Vale aqui, talvez, a máxima desconcertante de Riobaldo: “querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar.”

A racionalidade científica moderna nos conduziu, na sugestão de Edgar Morin, a um neo-obscurantismo, provocado pela radical especialização dos saberes, cenário em que os especialistas estão condenados a pensar a partir e nos limites de seus guetos, e os não-especialistas recusam-se à reflexão, amparados na alegação de que semelhante tarefa é incumbência dos especialistas. O que norteia toda a obra de Morin é o esforço de reintroduzir a auto-reflexão e a auto-crítica na relação do sujeito com os objetos. É restaurar nos objetos alguma superfície especular, é encontrar uma prática científica que não se restrinja a meros enunciados e experiências, que não mantenha a cisão radical entre sujeito e objeto levada à cabo pela modernidade (cisão que, no fundo, expressa outra, ainda mais trágica: a separação no destino das ciências naturais e das ciências humanas).

*****

Ao sugerir que nossa compreensão do universo e das verdades divinas está sujeita aos ardis especulares, Paulo recorre a uma metáfora comumente utilizada pela tradição judaica. David H. Stern cita em seu Comentário Judaico do Novo Testamento uma passagem do Talmud que teria influenciado o apóstolo:

“Abaye disse que o mundo contém 36 homens justos, mas Raba disse 18.000. Não há contradição – os 36 vêem o Santo, bendito seja ele, em um espelho polido, enquanto os 18.000 o contemplam em um turvo. (Sanhendrin 97b, condensado)”

O apóstolo está seguro de que somos vítimas fáceis das ilusões que os espelhos animam – e assim, a primeira ilusão que nos cabe esconjurar é a de que é possível ver as coisas com absoluta clareza, ver o mundo com impoluta objetividade. Paulo retornará obsessivamente a variações desse tema: “em tudo somos (…) perplexos, mas não desanimados”, “ninguém se iluda (…) a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus”, “quando estou fraco, então sou forte.” Não é bastante lembrar que essa intuição pré-moderna do judaísmo, que esteve viva em suas formas particulares durante todo o medievo, será denunciada como obscurantista pelos modernos, e as razões de semelhante querela já devem estar suficientemente elucidadas. O avanço da ciência moderna exigia trânsito em terreno menos movediço.

Com o advento da ciência moderna e de sua nova epistemologia, a compreensão pré-moderna das verdades divinas, e em particular a leitura alegórica das Escrituras, cairão vítimas de uma rotura significativa. Como esclarece com lucidez Peter Harrison, a modernidade converterá a leitura dos textos sagrados em prática científica, submetida aos enunciados da pesquisa histórica e ao encalço do sentido literal dos textos, e restrita – como sempre – aos especialistas. É assim que emerge do mar aquela grande e irônica besta: a leitura reformada de Paulo esforça-se por exorcizar, antes de qualquer coisa, a insidiosa epistemologia especular proposta pelo próprio Paulo. A lógica adstrita a essa leitura é a de que nenhuma autoridade (e para os reformados, uma suposta interpretação correta das Escrituras é a suprema autoridade) pode subsistir lançando seus fundamentos na areia. E é uma lógica acertada.

Para além desta abordagem mais imediata do videmus nunc per speculum (a de que ver por espelhos é ver com pouca clareza) outras, mais ousadas, foram catalogadas por Borges em um pequeno ensaio sobre Léon Bloy, El espejo de los enigmas. Léon Bloy era, para a surpresa de Borges, a um só tempo católico rigoroso e heresiarca.

Bloy fala ali do universo como uma claraboia que nos faz submergir ao verdadeiro abismo – a alma do homem; fala de “invertir nuestros ojos y ejercer una astronomia sublime en el infinito de nuestros corazones”. Aposta que se a Via Láctea existe, é porque ela existe primeiro em nossa alma. Esse impulso pré-moderno de inverter nossos olhos, de exercer uma astronomia interna (enfim, de enxergar o universo não apenas como um objeto a ser conhecido e manipulado) mas também como uma realidade que remete para além de si – e é por isso mesmo sagrada, renascerá no século 20, seja através da psicologia profunda, da consciência ecológica ou das mais variadas reações no sentido de recuperar “a humanidade da humanidade” (que inclui, na proposta de um Morin e de um Jung, clarificar a existência do obscuro em nós, do demens no sapiens). Quando ousarmos olhar “como por espelhos” descobriremos que o tumultuoso universo, na provocação de Morin, criou-nos à sua imagem.

Não apenas não enxergamos com clareza as verdades divinas, como estamos radicalmente incapacitados para ir muito além na compreensão mesmo de nossa própria natureza (e talvez não haja grande diferença entre uma coisa e outra).

Em outro momento de felicidade, León Bloy fala da vertigem que os espelhos provocam. Ver por espelhos é ver tudo ao contrário. “Cuando creemos dar, recibimos, etc. Entonces (me dice una querida alma angustiada) nosotros estamos en el cielo y Dios sufre en la tierra.” Talvez o apóstolo pensasse exatamente nisto ao falar de amor e logo depois de espelhos.

Agora vemos por espelhos – ou neste mundo, como sugeriria ainda Riobaldo, tudo é e não é.

A praga das fezes 12 março, 2012

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Publicado originariamente 10/10/2010

Mário Vargas Llosa, via Revista Piauí

Há três anos, durante uma viagem de Lima a Ayacucho por terra, fizemos uma escala no meio de uma chapada na cordilheira, numa aldeia onde havia um pequeno posto policial. Pedi licença ao chefe para usar o banheiro. “À vontade, doutor”, disse ele gentilmente. “O senhor quer urinar ou defecar?”. Respondi que a primeira alternativa. Sua curiosidade era acadêmica, porque o “banheiro” do posto era um cercado exposto à intempérie onde urina e fezes se confundiam em meio a nuvens de moscas e um fedor estonteante.

A lembrança dessa cena me perseguiu sem trégua enquanto, às vezes tapando o nariz, eu folheava as 422 páginas de um relatório, recentemente publicado pelas Nações Unidas, intitulado A água para além da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água. A prudência do título e a frieza e neutralidade de sua redação burocrática não impedem que esse extraordinário estudo, sem dúvida inspirado na sábia concepção de economia e progresso de Amartya Sen – um economista que não acredita que o progresso se resuma a estatísticas -, estremeça o leitor, ao confrontá-lo com rigor cruel à realidade da pobreza e seus horrores no mundo em que vivemos. A pesquisa realizada por Kevin Watkins e sua equipe deveria ser consulta obrigatória para todos os que queiram saber o que significa – na prática – o subdesenvolvimento econômico, a marginalização social e o fosso que separa as sociedades que os padecem daquelas que já atingiram um nível de vida alto ou médio.

A primeira conclusão dessa leitura é que o objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica, e sim a privada. Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a progredir. As conseqüências desse fato simples e transcendental na vida das pessoas são vertiginosas. No mínimo um terço da população do planeta – uns 2,6 bilhões de pessoas – não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que são jogados no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar a roupa e fazer a higiene pessoal. Isso faz com que pelo menos 2 milhões de crianças morram, a cada ano, vítimas de diarréia. E que doenças infecciosas como cólera, tifo e parasitoses, causadas pelo que o relatório chama eufemisticamente de “falta de acesso ao saneamento”, provoquem enormes devastações na África, na Ásia e na América Latina, constituindo a segunda causa de mortalidade infantil no mundo.

Num importante bairro de Nairóbi, no Quênia, chamado Kibera, é generalizado o sistema das chamadas “privadas voadoras”, sacolas de plástico em que as pessoas fazem suas necessidades para em seguida atirá-las na rua (daí o nome). A prática eleva as doenças infecciosas no bairro a níveis altíssimos. E os principais atingidos são as crianças e as mulheres. Por quê? Porque cabe a elas cuidar da limpeza doméstica e do transporte da água, e com isso se expõem mais ao contágio do que os homens.

Em Dharavi, uma zona populosa de Mumbai, na Índia, há um único banheiro para cada 1.440 pessoas, e na estação das chuvas as enxurradas transformam as ruas da cidade em rios de excrementos. A fartura de água é, nesse caso, como no de muitas outras cidades do terceiro mundo, uma tragédia: as condições de existência fazem com que a água, em vez de vida, seja muitas vezes instrumento de doença e morte.

Paradoxalmente, a questão da água, indissociável da do saneamento, é talvez o principal problema que mantém homens e mulheres prisioneiros do subdesenvolvimento. Os dados do relatório são concludentes. Quando os pobres têm acesso à água, trata-se em geral de águas com todo tipo de bactérias, de males que os contaminam e matam. Mas, na maioria dos casos, a pobreza condena as pessoas a uma seca ainda mais catastrófica para a saúde e para as possibilidades de melhorar as condições de vida. Uma das conclusões mais chocantes da pesquisa é de que os pobres pagam muito mais caro pela água do que os ricos, justamente porque os povoados e bairros onde eles vivem carecem de instalações de abastecimento e descarga, o que os obriga a comprá-la de fornecedores comerciais, a preços exorbitantes.

Assim, os habitantes dos bairros pobres de Jacarta (Indonésia), Manila (Filipinas) e Nairóbi (Quênia) “pagam 5 a 10 vezes mais por unidade de água do que as pessoas que vivem nas zonas de elevado rendimento das suas próprias cidades – e mais do que pagam os consumidores em Londres ou Nova York”. Esse preço desigual faz com que os 20% de famílias mais pobres de El Salvador, Jamaica e Nicarágua invistam um quinto de seus rendimentos em água, ao passo que no Reino Unido o gasto médio dos cidadãos com a água representa apenas 3% de sua renda.

Não resisto a citar essa estatística do relatório: “Quando um europeu puxa uma descarga, ou quando um americano toma banho, utiliza mais água do que a disponível para centenas de milhões de indivíduos que vivem em bairros degradados ou zonas áridas do mundo em desenvolvimento”. E também a estimativa de que, com a água poupada caso os “civilizados” fechássemos a torneira enquanto escovamos os dentes, um continente inteiro de “bárbaros” poderia tomar banho.

À primeira vista, não parece haver muita relação entre a falta de água e a educação das meninas. E, no entanto, ela existe e é estreita. O relatório calcula que 443 milhões de dias letivos são perdidos a cada ano por causa de doenças ligadas à água, e que milhões de meninas faltam à escola e recebem uma educação deficiente ou nula, e em todo caso inferior à dos meninos, por terem que buscar água diariamente em açudes, rios e poços que, muitas vezes, ficam a horas de caminhada.

Em “Os miseráveis”, Victor Hugo escreveu que “os esgotos são a consciência da cidade”. Numa dessas digressões do narrador que pontuam o romance, enquanto Jean Valjean chapinhava na merda com o desmaiado Marius às costas, arriscou uma curiosa interpretação da história a partir do excremento humano. O formidável estudo da ONU faz coisa parecida, sem a poesia nem a eloqüência do grande romântico francês, mas com muito mais conhecimento científico. Propondo-se a apenas descrever as circunstâncias e conseqüências de um problema concreto que atinge um terço da humanidade, o relatório radiografa com dramática precisão o extraordinário privilégio de que os outros dois terços desfrutamos toda vez que, quase sem perceber, abrimos uma torneira para lavar as mãos ou o chuveiro para receber esse jato de água fresca que nos limpa e revigora, ou quando, impelidos por uma dor de barriga, sentamos na intimidade do banheiro, aliviamos as entranhas e, distraídos, limpamos com um pedaço de papel higiênico todos os rastros dessa cerimônia, para em seguida puxar a descarga e sentir, no turbilhão do vaso, nossa sujeira recôndita sumir nas entranhas dos esgotos, longe, longe de nossa vida e nosso olfato, para o bem da própria saúde e bom gosto.

Como é infinitamente diversa a experiência desses bilhões de seres humanos que nascem, vivem e morrem literalmente sufocados pela própria imundície, sem conseguir arrancá-la de suas vidas, pois, visível ou invisível, a sujeira fecal que expulsam volta para eles como uma maldição divina, na comida que comem, na água em que se lavam e até no ar que respiram, causando-lhes doenças e mantendo-os no limite da subsistência, sem chance de escapar dessa prisão na qual mal sobrevivem.

Um dos aspectos mais sombrios da questão é que, em grande parte por causa do nojo e da repulsa que os seres humanos sentimos por tudo o que tem a ver com a merda, os governos e organismos internacionais de promoção do desenvolvimento não costumam dar a ela a devida prioridade. Geralmente a subestimam, e dedicam recursos insignificantes a projetos de saneamento. A verdade é que viver em meio à sujeira é nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva a esperança, motor de todo progresso. “Nascemos entre fezes e urina”, escreveu Santo Agostinho. Um calafrio deveria subir por nossas costas como uma cobra de gelo ao pensarmos que um terço de nossos contemporâneos nunca acaba de sair da imundície em que veio a este vale de lágrimas.