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Encarnação 15 julho, 2009

Posted by Alysson Amorim in Cristianismo, Fragmentos, Teologia.
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Rasgar o mar com a adaga flamejante de um general; arrepender-se; fazer de uma mulher matéria-prima para um bloco salino – tais são operações impossíveis a um Ser eterno.

A mulher corre, olha para trás e é acorrentada ao solo, toda dura e toda branca como eram seus dentes. A operação, se ao final paralisa, tem um final e tem uma gênese – é uma operação realizada na delirante sucessão a que chamamos tempo. Do mesmo modo, o arrependimento implica a negação de um momento em outro e a mão que feriu o mar foi a mesma que fechou a ferida em um segundo momento.

A eternidade, conforme concebida pelos homens, não é em nenhuma de suas variações a mera agregação de passado, presente e futuro – é, na sentença de Borges, “algo mais simples e mais mágico: é a simultaneidade desses tempos.” Na eternidade a sucessão não existe.

Deus, enquanto Ser eterno, vê-se impedido de vestir a capa do general; sofre da terrível limitação que lhe impõe a eternidade. Criou os homens a sua imagem e semelhança e despediu-os para longe de suas mãos. Seu pesadelo é, sendo onipotente, nada poder fazer no fluxo do rio que ele próprio pariu.

Aquele Deus que queima cidades e empunha armas é filho da ânsia dos homens.

O tema do auto-esvaziamento divino sugere uma fascinante inversão: Deus faz-se à imagem e semelhança dos homens; despe-se da onipotência para poder lançar-se no fluxo alucinante da história; troca o poder absoluto pela lágrima frágil. Tudo o que temos do Deus esvaziado é a lágrima rastejando em um rosto solitário, é o sangue cobrindo um braço impotente.

Pedir o estancamento do sangue, do nosso sangue, é não compreender o sentido profundo da encarnação. Quando a divindade decide despojar-se da imobilidade e sentir no peito a correnteza inapelável dos anos, o amor é sua força motriz (Jo 3:16), e o espaço e o tempo os elementos que compõem o cenário de sua atuação (Jo 17:18).

O sentido profundo da encarnação está em que o Deus encarnado não pode mais que o samaritano, mas pode mais – muito mais – do que o Deus eterno.

Bezerro de ouro 30 junho, 2009

Posted by Alysson Amorim in Citações, Filosofia, Teologia.
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Borges escreveu sobre William James que “certa vez tentou-o o suicídio; repetiu, como quase todos os homens, o monólogo de Hamlet. Dessas trevas seria salvo por um ato de fé. ‘Meu primeiro ato de livre-arbítrio’, escreveu, ‘foi crer no livre arbítrio’, livrou-se assim da fé opressora de seus pais, o calvinismo.”

O trecho transcrito é do inquieto William James em The Varieties of Religious Experience

Creio que o sentimento é a fonte mais profunda da religião e que as fórmulas teológicas e filosóficas são produtos secundários, como as traduções de um texto a outra língua. Quando sustento que as fórmulas teológicas são produtos secundários quero dizer que, em um mundo em que nunca  haja existido um sentimento religioso, não se pode formular nenhuma teologia filosófica (…) Estamos obrigados a permutar nossos sentimentos, e ao fazê-lo somos forçados a usar fórmulas verbais gerais e abstratas. As concepções e as construções são assim parte necessária de nossa religião e a filosofia terá que intervir como mediadora entre concepções opostas e como moderadora de choque entre hipóteses em conflito. Em outras palavras, a experiência religiosa espontânea e inevitavelmente engendra mitos, superstições, dogmas, credos e teologias metafísicas (…) Todas essas operações intelectuais, sejam construtivas, comparativas ou críticas, pressupõem experiências imediatas como tema (…) O intelectualismo religioso que intento desacreditar pretende ser algo completamente diferente. Atribuir a construção de objetos religiosos somente às fontes da razão pura; extrair com a razão inferências rigorosas a partir de atividades não subjetivas. Suas conclusões podem  ser chamadas de teologia dogmática ou filosofia do absoluto, conforme o caso.

Os sistemas verdadeiros  sempre foram os ídolos das almas ambiciosas. O sistema inclui tudo e, não obstante, é simples e nobre, límpido, claro, estável, rigoroso, verdadeiro. Que refúgio pode haver mais adequado que o que oferecia um sistema semelhante as almas ultrajadas pela turbulência e contingência do mundo das coisas sensíveis? Por estas razões é que encontramos nas escolas teológicas de hoje, quase tanto quanto nas de ontem um desprezo deliberado pela verdade meramente possível ou provável e pelos resultados que tão somente podem ser adquiridos individualmente. Escolásticos e idealistas coincidem abertamente neste desprezo.

Instituição e movimento 7 junho, 2009

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David J. Bosch, escrevendo em “Missão transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão”

Há diferenças essenciais entre uma instituição e um movimento, diz H.R. Niebuhr (seguindo Bergson): aquela é conservadora, este é progressista; aquela é mais ou menos passiva, sucumbindo a influências externas, este é ativo, influenciando ao invés de ser influenciado; aquela olha para o passado, este olha para o futuro. Além disso, poderíamos acrescentar que  aquela é ansiosa, ao passo que este está disposto a assumir riscos; aquela resguarda fronteiras, este as cruza.

Percebemos algo dessa diferença entre uma instituição e um movimento se compararmos a comunidade cristã de Jerusalém com a de Antioquia na década de 40 do século 1 d.C. O espírito pioneiro da igreja de Antioquia ocasionou uma inspeção por parte de Jerusalém. Estava claro que a preocupação do partido de Jerusalém não era a missão, e sim a consolidação; não era a graça, e sim a lei; não cruzar fronteiras, e sim fixá-las; não a vida, e sim a doutrina; não o movimento, mas a instituição (…)

Num estágio incipiente havia indicações de que dois tipos separados de ministério estavam se desenvolvendo: o ministério estabelecido de bispos (ou anciãos) e diáconos, e o ministério móvel de apóstolos, profetas e evangelistas. O primeiro tendia a impelir o cristianismo primitivo a tornar-se uma instituição, e o segundo retinha a dinâmica de um movimento. Nos primeiros anos, em Antioquia ainda havia uma tensão criativa entre estes dois tipos de ministério. Paulo e Barnabé eram, ao mesmo tempo, líderes da igreja local e missionários itinerantes, e aparentemente retomavam seus deveres congregacionais com naturalidade quando voltavam a Antioquia. Alhures, todavia (e certamente num estágio posterior também em Antioquia), as igrejas ficavam cada vez mais institucionalizadas e menos preocupadas com o mundo fora de seus muros. Em breve tiveram de esboçar regras para garantir o decoro de suas reuniões cultuais (cf. 1 Co 11:2-33; 1 Tm 2.1-15) para estabelecer critérios para o clérigo ideal e sua esposa (1 Tm 2:1-13) e para lidar com casos de falta de hospitalidade para com emissários da igreja e de sede de poder (3 João). Com o passar do tempo assuntos intra-eclesiais e a luta pela sobrevivência como grupo religioso separado consumiam cada vez mais a energia dos cristãos.

Pedra fria 9 maio, 2009

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Nenhum ponto final é mais definitivo que o anúncio da felicidade eterna. A vida só pode permanecer enquanto a felicidade for uma promessa distante ou uma arca perdida ou ainda uma assumida impossibilidade, como no poeta argentino Almafuerte, para quem “a felicidade humana não entrou nos desígnios de Deus”.

O suicídio da narrativa ocorre quando ela presenteia seus personagens com uma felicidade inalterável. Deus, ao talhar a pedra fria e soprar-lhe as narinas, fez a lança cair irresistível no peito de Abel.

As múltiplas variações do Éden, espiritualistas e materialistas, devem existir apenas como projetos ainda distantes ou objetos perdidos ou mentiras deslavadas. Se o projeto é definitivamente alcançado ou o objeto encontrado ou a mentira desbancada como um erro de interpretação, então o homem volta a ser uma eternamente feliz pedra fria.

Ainda que Deus não existisse 20 abril, 2009

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Etsi deus non daretur [Ainda que Deus não existisse]. Com a fórmula, Hugo Grotius procura legitimar seu direito natural sem recorrer a ente fundador que não seja a própria razão humana. Mas não é tudo: emana da sentença aquela pujante aspiração moderna por autonomia. Ainda que Deus não exista ou ainda que ele permaneça em sepulcral silêncio a vida deve ser afirmada.

Mais uma vez, não é tudo. A hipótese de Grotius e da modernidade pode ser anterior ao tempo: a narrativa bíblica surpreende o próprio Deus brincando com ela. O Deus cumulado de potências pela linguagem, entronizado pelo temor da carne ante o mysterium tremendum, enfim, o Ser Supremo abandona as alturas metafísicas e decide pousar os pés na poeira de Hamlet e Adão. A brincadeira consiste no fato da divindade entrar no cenário com a carne impermanente de um ator comum: quem pisa no palco não é o Ser revestido de éter, não é um Deus ex machina. A primeira fala de Deus na comédia humana é o choro de um corpinho vulnerável.

Não para aniquilar o sofrimento, senão para tomar parte nele; não para interromper com um definitivo milagre a via crucis humana, senão para nela ingressar com dentes, unhas e nervos. O Deus que anda conosco e nos oferece ajuda é lastimável – e não poderia ser melhor. Sua fraqueza sussurra-nos continuamente a fórmula de Grotius e convoca-nos a maioridade, um tempo em que a dor será amenizada pela carícia da fina mão de uma moça, não por mirabolantes operações celestiais, em que ela se tornará suportável depois do abraço suado e ordinário de um camarada, ao invés de desvanecer ao toque fantasmagórico de pululantes milagres. Um tempo em que não precisaremos alienar por preço vil nossa vontade a um Ser que compete com o homem sugando irresistivelmente suas forças.

Ainda que Deus não existisse, restar-nos-ia o calor consolador e inextinguível do sopro que um dia se fez carne.

Reconstruindo o trono 22 março, 2009

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A lei instaura o reino dos homens ao vaciná-los ainda que precariamente contra as animosidades, mas não pode instaurar o Reino de Deus. O trono é a um só tempo pressuposto e consequência da lei: ela invariavelmente nascerá de um e a ele retornará dando-lhe novo ânimo.

O que Deus faz ao instaurar seu Reino é esfacelar o próprio trono; esvaziá-lo em um ato de impensável ruptura, em uma derrota que entrará retumbante para as páginas da eternidade. Deus, o único invencível, derrota a si próprio e libera os homens para a liberdade.

Como a lei, a graça emana do trono, mas de um trono vazio e sem cetro, de um trono estranhamente convertido em Espírito. Se procuramos reconstruir o trono esfacelado e se aceitamos de bom grado que sacerdotes de todo gênero edifiquem essa monstruosa obra, devemos isso ao pecado, uma monumental ferida ontológica, uma síndrome de Estocolmo que romantiza nossos grilhões e interpreta como ameaça todo esforço libertário.

Ouçamos S. Paulo: “Cristo nos libertou, porém foi para que fôssemos livres que nos libertou” (Gl. 5:1).

Não há vaga para os que choram 28 fevereiro, 2009

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Daquele irresistível conservador, Gustavo Corção

Dedicado a Carlos Drummond de Andrade.

O moço que se matou, dizendo por escrito que era um “desajustado social”, na verdade matou-se porque se deixou convencer de que não existe na vida e no mundo lugar para a dor. Matou-se porque lhe disseram, com aquele vocábulo, e com a filosofia maldita que por trás dele se esconde, que o mundo não concede matrícula aos que choram. Insinuaram-lhe que tudo se reajusta, e acrescentaram que só depois dessa reajustagem pode uma alma se inserir. Ora, o moço viu que a primeira parte da história era falsa, porque nem tudo se reajusta, mas continuou a crer na segunda; e então, suicidou-se. Suicidou-se porque era um desajustado. Suicidou-se porque era uma excrescência na criação. Uma verruga no universo.

Ah! como eu quereria gritar aos ouvidos dos moços que há no mundo e na vida lugar para a dor!

É claro que existe o problema da inserção. Ninguém nega que o dinamismo iníquo da sociedade tende a deixar à margem os fracos, os tímidos, os perturbados. Ninguém nega que o homem deva aprender a se inserir na efervescente convivência e deva lutar pela defesa de seu lugar. Tudo isso existe, e já é bastante trágico para que ainda venham dilatar o campo do problema com essa idéia infernal de que só os felizes estão inseridos e que todas as mágoas, todas as feridas, todas as tristezas são sinais de excomunhão.

Moços! há na vida e no mundo um lugar, um enorme lugar para a dor. Há lugar para o pobre; para o doente; para o obscuro; para o aleijado; para o perseguido.

Eu li o comovente artigo de Carlos Drummond sobre o outro menino, apaixonado que um dia, que teve pressa de matar-se. Li, e creio ter compreendido a pungente aflição daquela enorme alma de poeta quando lhe passa pela mente que o menino poderia salvar-se se alguém, naquelas poucas horas de um prelúdio de dor, o tomasse pela mão, o levasse à praia, e risse com ele nas espumas do mar. Raramente senti tamanha afinidade, tamanha simpatia, como nesse artigo escrito ele todo com um nó na garganta; e lido, ele todo, no outro lado da cidade, em outra situação, em outros sentimentos, mas com o mesmo fundamental nó na garganta.

Mas discordo do poeta no remédio. Talvez desse bom resultado o mergulho na onda fria que lhe desatasse no peito as molas da infância. Mas cá fora, ali mesmo na praia, esta a Teoria à espera do menino. A teoria de que não há no mundo e na vida lugar para a dor. Muito mais do que a mocinha do bloco, sem culpa maior do que alguma faceirice, quem deseja imolar os moços de vinte anos é essa Teoria de implacável otimismo que exige para a vida, para o ingresso na vida, condições higiênicas e psicotécnicas mais rigorosas do que as que se exigem para os aviadores. A Teoria diz ao moço que vá tratar-se e volte depois se quer emprego no mundo. A Teoria dá um prazo para que o candidato se torne decentemente feliz. Feliz no padrão, de G para cima. Feliz no sexo. Feliz nos nervos. Feliz em tudo. Decentemente feliz.

Bem sei que há os desesperos precoces que ignoram as coisas boas de que a vida é farta. Será bom dizer-lhes que existem muitos amores, que haverá muitos outros blocos e muitas, muitíssimas outras mocinhas amáveis. Que o céu é azul, que há prados cheios de flores, e que é bom mergulhar na onda fria, com os olhos abertos, para ver um mundo novo fundido em esmeralda. Que é bom deitar na grama, que é bom meter o pé no estribo, em manhãzinha brumosa, manhã de roça, sentindo o cheiro do couro e o cheiro forte do cavalo; que é bom andar de mãos dadas em rua de bairro antigo ao cair da noite confidencial e casamenteira; que é bom pisar um tombadilho molhado e sonhar com cidades de lenda; e que é bom ficar à toa, numa varanda domingueira, seguindo os passos de um inseto de rubis e safiras, que passeia num velho muro a sua microscópica riqueza; que é bom respirar; que é bom viver.

Mas não basta, ó poeta, mostrar às almas aflitas a doçura das relvas, a frescura das ondas, e a ternura dos regaços de amor. Porque isto não é toda a verdade da vida. E é preciso ser verdadeiro. É preciso, sempre, ser verdadeiro. Em toda a extensão. Em toda a profundidade. Nos dois hemisférios de luz e sombras da verdade.

O que é preciso dizer, a esses moços que por tão pouco desesperam, é que existe uma dignidade no centro mesmo da dor; que a dor não excomunga; que a dor já foi santificada para que possa santificar. O que é preciso, ó poeta de alma grande, é abrir velas ao mar, e descobrir a verdadeira extensão do mundo e da vida.

Ah! essa história maravilhosa, que a mim me contaram, como eu gostaria de lhe contar, longamente! longamente!

A fera de olhos inexistentes 15 fevereiro, 2009

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Com treinamento certo e instrumento adequado posso apunhalar um tigre rajado e anular a ameaça de seus dentes. Mas não é toda criatura selvagem que exibe a mandíbula tenaz de um felino ou o marfim plácido de um elefante; e nem toda fera selvática passou pela caneta de Adão. Quando o adversário tem um nome e uma mandíbula, confiar na destreza do nosso braço nem sempre implica em imprudência.

É perfeitamente possível vencer o medo com uma flecha, como faz o pequeno índio que dá os primeiros passos na imemorial arte da caça. Mas nem o maior dos índios, nem o mais colorido e experiente é capaz de desafiar e vencer o trovão que ruge. É que na aldeia o trovão é uma ameaça sem rosto, e quando a fera nos fita com olhos inexistentes então nenhum metal e nenhum cavalo pode nos salvar. Estamos nus.

Moisés com seus olhos de carne não pôde encarar a sarça ardente; e depois, quando moeu o bezerro de ouro, o fez em respeito à sarça que não fitou. O bezerro podia ser encarado e até estilhaçado: era um ídolo. O homem forja ídolos para costurar um rosto na sarça ardente, para expulsar dela a ardência e torná-la um objeto ao alcance de sua espada e de seus lábios. O ídolo anula o assombro e garante a manipulação; é a perfeita proteção contra a ameaça do não-ser.

Nos encastelamos em ídolos monumentais, erguidos com verbo e concreto e bytes, o que – seja dito! – não nos protege completamente contra o bote daquela terrível fera que Adão não nominou.

A terceira filiação 20 janeiro, 2009

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Mateus inaugura seu Evangelho com um curioso paradoxo. O princípio é que um homem ou mulher tenha dupla filiação; o protagonista de Mateus tem tripla. Quando Ezequiel nasce sabe-se que é filho de Capitu e de mais alguém. A filiação é dupla, malgrado uma delas seja duvidosa: furo que a pena de Machado deliberadamente não fechou. Na origem de Ezequiel pode existir uma incógnita literária mas não existe nenhum elemento fantástico.

O primeiro evangelista coloca seu protagonista na linhagem de um homem e no ventre de uma mulher, para em seguida, e tudo na mais desavergonhada naturalidade, atribuí-lo uma terceira filiação.

A formulação de Calcedônia, que concebe Cristo em termos puramente fantásticos (aquele que é “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”) decorre descaradamente dessa tripla filiação. A teologia moderna procurará ora explicar em termos racionais e ora rejeitar por inadequação lógica a fórmula calcedonense. Mas cá está ela a nos espreitar com todo seu mistério, não em Calcedônia, senão nas linhas inaugurais da narrativa de Mateus.

O erro é querer interpretar o fantástico como real, é parir o mito e não assumi-lo. O nascimento virginal – a terceira filiação – é um elemento fantástico da narrativa e deve permanecer como tal. O contrário implica em violar seriamente a linguagem mitológica e sua magnífica capacidade de sugestão.

O que logo será narrado exige dos ouvintes a ingenuidade sagaz de um primitivo.

[Continua]

A ternura louca do Evangelho 14 janeiro, 2009

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Rondinelly Gomes Medeiros, em comentário depositado neste blogue que superou em incontáveis milhas a postagem a que se referiu

Entre o judaísmo de Jesus e o cristianismo de Paulo há um intervalo considerável o bastante para modificar historicamente a configuração do modelo de organização dos futuros seguidores do Evangelho. Intervalo tanto no sentido espaço-temporal quanto no sentido semântico.

A boa notícia é baseada na descoberta e no anúncio de que há um Deus que nos ama antes de mais nada, nos ama de forma despudorada e alegre, e nos ama de graça, por sua graça

O jovem artesão da Galiléia viveu profundamente enraizado em seu mundo, encharcado por sua cultura, no bojo de sua época. Jesus não se esquivou da religião de seu povo nem tentou destruí-la: a maneira como escolheu vivenciá-la é que provocou uma ruptura irremediável para os que com ele mantinham contato. A boa notícia que Jesus anuncia refere-se à vivência da religião como a forma mais profunda de liberdade e de amor, experimentados para além dos parâmetros de um rito, de uma lei ou de uma história. A boa notícia é baseada na descoberta e no anúncio de que há um Deus que nos ama antes de mais nada, nos ama de forma despudorada e alegre, e nos ama de graça, por sua graça, sem que haja para ele alteração no seu amor em razão do que quer que tentemos fazer para ganhá-lo; um Deus que é como um Pai. (Por conta do revestimento viciado dessa terminologia durante dois milênios parece não nos causar tanto impacto que alguém se relacione com um deus chamando-o de papai, que é mais ou menos a tradução de Abba. Diríamos então que o anúncio do Deus Paizinho de Jesus soaria para nós como se um ex-presidiário saísse nas cidades do país anunciando que há uma Deusa, Mãe Paciente, que nos ama graciosamente; ela quer que espalhemos esse amor gratuito sendo todos como crianças de orfanato, ansiosas pelo amor da Mãe, e que seremos mais apaixonados pela Vida que ela nos dá quando tivermos a alegria de um travesti, a esperteza de um bêbado e a espontaneidade de um malandro.)

O Reino de Deus é este tempo em que se descobre que a vida é uma graça, que a presença ausente de Deus envolve tudo em todo tempo e lugar e que, por isso mesmo, toda vida deve ser preservada, promovida, amada e vivida de modo pleno. A boa notícia de Jesus é que chegara a hora em que todos poderiam saber disso e viver conforme essa novidade. O Reino estava inaugurado. “Viver conforme residentes do Reino” era toda a pregação de Jesus: converter-se. Viver conforme a descoberta do amor sem condicionamentos, do amor do Divino por nós e do nosso amor pela vida, com todas as fragilidades, com todos os defeitos, com todas as ambigüidades.

A pregação de Jesus pressupõe a disposição de assumir a religião como uma ética e não como um código jurídico, assumir uma forma de vida e não um tratado dogmático.

A pregação de Jesus pressupõe a disposição de assumir a religião como uma ética e não como um código jurídico, assumir uma forma de vida e não um tratado dogmático. A salvação de quem aceita a realidade do Reino não é uma decisão jurídica baseada numa troca entre iguais: é um presente que se manifesta numa maneira de estar no mundo. E Jesus não impõe nenhum critério para que alguém acesse o Reino, senão o da aceitação total. A crise que essa mensagem provoca se instala justamente nos centros de poder que necessitam, para manterem-se e se reproduzirem, da criteriosa separação, da concessão de privilégios, da barganha de considerações. Esses centros de poder estão encravados nas relações inter-pessoais e, portanto, estão na própria tessitura da linguagem e da sociedade. Por isso que é provocante e assustadora, para qualquer um que a escute, a ternura louca do Evangelho que Jesus anuncia. Assumir aquele estilo de vida supõe a negação espontânea de todos os aparatos de poder a que o indivíduo é educado a desejar. Esses aparatos de poder e o desejo de possuir o poder como uma mercadoria carregam consigo a destruição da vida e das possibilidades infinitas de viver a vida e de desejar vivê-la, sendo, portanto, o desejo de poder o cerne da infidelidade à graça da vida.

O poder, sendo uma categoria das relações da linguagem, passa a ser o alvo da crise que o Evangelho anunciado provoca, sem que pra isso haja deliberações e montagem de estratégias por parte de Jesus e de seu grupo de amigos. Jesus, pelo simples fato de viver o instante de modo pleno e por demonstrar serena e fortemente o gozo da vida e da aceitação do Amor Incondicional, instala o rasgão na forma de ver e de estar no mundo daqueles que com ele mantém o mínimo contato.

Os viciados, os corrompidos, os desesperados, os abobalhados, os de quem todos esperam mancadas (…) Esses entendem que o caminho para salvar a alma, segundo a Boa Notícia, começa por não pensar em salvar a alma.

A vitalidade da pregação e da vivência de Jesus queima a alma de quem o escuta como um chamado forte de retorno à vocação da vida que é a liberdade e a gratuidade. Assumir essa forma simples e livre de viver, para o entendimento de Jesus, era uma tarefa que só poderia ser levada a cabo por aqueles que se desembaraçassem de suas regras pesadas, do emaranhado das leis que regem cada centímetro do corpo e da vida; uma tarefa para os pequeninos, os analfabetos, os que não esperam mais nada da vida, os que perderam a oportunidade de vencer na vida, os que não gozam da reputação outorgada pelos outros, os viciados, os corrompidos, os desesperados, os abobalhados, os de quem todos esperam mancadas.

Esses, por nada terem que resguardar, podem abrir-se escancaradamente, com seus erros e com suas feridas, ao amor incondicional da Vida e esses podem descobrir a abundante vida que surge de dentro da opressão. Esses entendem que o caminho para salvar a alma, segundo a Boa Notícia, começa por não pensar em salvar a alma.

Paulo consegue, sem dúvida, manter a vitalidade da mensagem do Evangelho ainda diante da nascente institucionalização, mas não conseguiu garantir que assim fosse na posteridade.

Paulo, rasgado de paixão por essas novidades, arma-se de cuidados para que a mensagem seja levada ao máximo de pessoas no menor tempo possível e que a mensagem chegue carregada de testemunho a qualquer recanto de qualquer povo e qualquer religião. Paulo não admite barreiras para o anúncio da Boa Notícia do Reino. Por isso, toda a sua pregação baseia-se na universalidade do Cristo. A categoria Cristo para Paulo invoca a pessoa de carne e osso que foi Jesus de Nazaré e, para além, invoca o espírito da atuação de Jesus, que deve presentificar-se em quem quer que assuma a vivência do Reino. Cristo é Jesus em nós. Paulo preocupa-se com a eficiência da pregação do Evangelho e da vivência do Reino, por isso pressupõe que devam ser criadas comunidades estáveis, que se reúnam periodicamente e, para avivar a mensagem da salvação, celebrem, isto é, ritualizem. A preocupação de Paulo, óbvio, é válida e muito pertinente, mas não se pode deixar de ver que aqui se desenha a diferença entre a vivência da religião segundo Jesus e segundo Paulo.

Os elementos da vida em comunidade – reuniões e rituais – são a célula do surgimento de uma institucionalização da mensagem, especialmente quando começa a se debater sobre a escolha de critérios para a admissão de pessoas. As pessoas para terem acesso à vida daquela comunidade precisam moldar-se ao seu estilo de vida, que, paulatinamente, vai se homogeneizando. O problema aqui não é o da pureza ou impureza das pessoas que fazem a instituição que está surgindo; este problema da separação entre puro e impuro já fora abolido por Jesus, vide a parábola do trigo e joio. O problema reside na formatação criteriosa para a admissão do postulante, que responde a um código de poder instalado no miolo da linguagem e que vai se consolidando de modo unívoco. Paulo consegue, sem dúvida, manter a vitalidade da mensagem do Evangelho ainda diante da nascente institucionalização, mas não conseguiu garantir que assim fosse na posteridade.

As comunidades posteriores, especialmente depois do terceiro século, no período de decadência do Império Romano, deslumbradas com a possibilidade de tornarem a Boa Notícia hegemônica urbi et orbi, inflaram a prudência sensata de Paulo e minimizaram a escandalosa insensatez de Jesus, achando melhor para os seus fins adotar um modo mais organizado e estruturado de resguardar a mensagem; a isso corresponde a escolha criteriosa dos textos a serem outorgados o sobrenome de Sagrados e o esforço em criar uma história de unificação triangular, ou melhor, piramidal, de códigos, costumes e, principalmente, de organismos. Mas, segundo uma leitura menos aparelhada dos escritos sobre o Evangelho de Jesus, pode-se perceber uma certa dose de voluntarismo dos escritores quando pretendem basear em Jesus a fundação de uma instituição que deveria tomar conta de sua mensagem. Os textos em que Jesus funda sua igreja apostólica estão dissonantes dos acontecimentos precedentes e da trajetória da pregação da Boa Notícia. Ainda assim estes textos não conseguem conter a voracidade com que o comportamento e as palavras de Jesus incendeiam tudo.

“Aprendam! Quem assumiu o tempo do Reino como seu tempo, e o anuncia, e vive conforme isso, não precisa estar babando de sentimentalismo aos meus pés, não precisa confinar-se entre as colunas de um templo majestoso, não precisa demonstrar que é meu amigo com palavras arrogantes e fartas de adjetivos laudatórios, não precisa participar de rituais que em nada lhe sublima o espírito, não precisa defender leis anacrônicas criadas em meu nome […]”

A vivência de Jesus da religião não prescreve a estrita necessidade de uma instituição para resguardar a sua Boa Notícia. Pelo contrário, o estritamente necessário era a abolição de qualquer estrutura de poder que tomasse para si a posse do Divino e estabelecesse o mínimo de critério que fosse para o acesso à Liberdade e ao Amor. Nesse sentido, a Igreja de Jesus estava presente em qualquer mínima comunidade que mais se empenhasse em fazer como ele, em qualquer tempo e lugar, do que em preservar um possível mito. A Igreja de Jesus – ou seja, as pessoas e as comunidades que se empenhariam em propagar a Boa Notícia de que o Reino chegara – adota um método parecido com a fissão nuclear em que a explosão de um átomo é a causa da explosão dos dois átomos vizinhos e assim sucessivamente. Ou ainda, como uma sala repleta de ratoeiras armadas, se uma ratoeira desarma e cai em cima de outra, todas as ratoeiras da sala tendem a ser atingidas pela síndrome do desarmamento. Isto é, a Boa Notícia do Reino baseia-se em dois meios: o anúncio e a vivência. Viver conforme o Reino e anunciar a sua presença, sem mais. Quem ouvisse o anúncio e para si assumisse a residência no tempo do Reino, deveria viver conforme um residente do Reino e anunciá-lo a outros e assim por diante… É isso que dá sentido ao koan que Jesus aplica nos seus amigos quando eles reclamam que há pessoas fora do grupo originário que estão atuando em seu nome, isto é, estão anunciando e vivendo conforme o Reino. Jesus responde: “Aquietem-se! Quem não espalha o que ajunto, está ajuntando comigo.” Digamos que para nós soe assim: “Aprendam! Quem assumiu o tempo do Reino como seu tempo, e o anuncia, e vive conforme isso, não precisa estar babando de sentimentalismo aos meus pés, não precisa confinar-se entre as colunas de um templo majestoso, não precisa demonstrar que é meu amigo com palavras arrogantes e fartas de adjetivos laudatórios, não precisa participar de rituais que em nada lhe sublima o espírito, não precisa defender leis anacrônicas criadas em meu nome. Olhem para eles e vejam vocês o quanto é preciso livrar-se de um peso do qual eu lhes ajudei a se safar, e que vocês, por medo da liberdade, colocaram de novo em suas costas.”