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O quanto dura a tristeza 19 agosto, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos.
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Uma noite é o quanto dura a tristeza, mas com qual fita métrica mediremos essa noite carente de alicerce e de cerca?

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Encarnação 15 julho, 2009

Posted by Alysson Amorim in Cristianismo, Fragmentos, Teologia.
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Rasgar o mar com a adaga flamejante de um general; arrepender-se; fazer de uma mulher matéria-prima para um bloco salino – tais são operações impossíveis a um Ser eterno.

A mulher corre, olha para trás e é acorrentada ao solo, toda dura e toda branca como eram seus dentes. A operação, se ao final paralisa, tem um final e tem uma gênese – é uma operação realizada na delirante sucessão a que chamamos tempo. Do mesmo modo, o arrependimento implica a negação de um momento em outro e a mão que feriu o mar foi a mesma que fechou a ferida em um segundo momento.

A eternidade, conforme concebida pelos homens, não é em nenhuma de suas variações a mera agregação de passado, presente e futuro – é, na sentença de Borges, “algo mais simples e mais mágico: é a simultaneidade desses tempos.” Na eternidade a sucessão não existe.

Deus, enquanto Ser eterno, vê-se impedido de vestir a capa do general; sofre da terrível limitação que lhe impõe a eternidade. Criou os homens a sua imagem e semelhança e despediu-os para longe de suas mãos. Seu pesadelo é, sendo onipotente, nada poder fazer no fluxo do rio que ele próprio pariu.

Aquele Deus que queima cidades e empunha armas é filho da ânsia dos homens.

O tema do auto-esvaziamento divino sugere uma fascinante inversão: Deus faz-se à imagem e semelhança dos homens; despe-se da onipotência para poder lançar-se no fluxo alucinante da história; troca o poder absoluto pela lágrima frágil. Tudo o que temos do Deus esvaziado é a lágrima rastejando em um rosto solitário, é o sangue cobrindo um braço impotente.

Pedir o estancamento do sangue, do nosso sangue, é não compreender o sentido profundo da encarnação. Quando a divindade decide despojar-se da imobilidade e sentir no peito a correnteza inapelável dos anos, o amor é sua força motriz (Jo 3:16), e o espaço e o tempo os elementos que compõem o cenário de sua atuação (Jo 17:18).

O sentido profundo da encarnação está em que o Deus encarnado não pode mais que o samaritano, mas pode mais – muito mais – do que o Deus eterno.

Pedra fria 9 maio, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos, Teologia.
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Nenhum ponto final é mais definitivo que o anúncio da felicidade eterna. A vida só pode permanecer enquanto a felicidade for uma promessa distante ou uma arca perdida ou ainda uma assumida impossibilidade, como no poeta argentino Almafuerte, para quem “a felicidade humana não entrou nos desígnios de Deus”.

O suicídio da narrativa ocorre quando ela presenteia seus personagens com uma felicidade inalterável. Deus, ao talhar a pedra fria e soprar-lhe as narinas, fez a lança cair irresistível no peito de Abel.

As múltiplas variações do Éden, espiritualistas e materialistas, devem existir apenas como projetos ainda distantes ou objetos perdidos ou mentiras deslavadas. Se o projeto é definitivamente alcançado ou o objeto encontrado ou a mentira desbancada como um erro de interpretação, então o homem volta a ser uma eternamente feliz pedra fria.

Relato da memória 1 maio, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos.
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A camisa foi branca um dia; os dedos puxando as cordas do instrumento davam a impressão de estarem eternamente programados. Ele, que outrora vibrou com o som do vento no pano das bandeiras que jurou encontrar em cada curva um prazer novo e inominado, não saberia dizer agora onde sua esperança diferia da de um primata que guincha ao divisar o ovo no píncaro do verde. Dedilhava acompanhando com os olhos o espetáculo mimético dos dedos. Estava visivelmente constrangido com minha presença fantasmagórica, como estaria um rio fenecendo que retornasse na pena do pássaro para assistir o regurgitar de suas águas primevas.

Ainda que Deus não existisse 20 abril, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos, Teologia.
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Etsi deus non daretur [Ainda que Deus não existisse]. Com a fórmula, Hugo Grotius procura legitimar seu direito natural sem recorrer a ente fundador que não seja a própria razão humana. Mas não é tudo: emana da sentença aquela pujante aspiração moderna por autonomia. Ainda que Deus não exista ou ainda que ele permaneça em sepulcral silêncio a vida deve ser afirmada.

Mais uma vez, não é tudo. A hipótese de Grotius e da modernidade pode ser anterior ao tempo: a narrativa bíblica surpreende o próprio Deus brincando com ela. O Deus cumulado de potências pela linguagem, entronizado pelo temor da carne ante o mysterium tremendum, enfim, o Ser Supremo abandona as alturas metafísicas e decide pousar os pés na poeira de Hamlet e Adão. A brincadeira consiste no fato da divindade entrar no cenário com a carne impermanente de um ator comum: quem pisa no palco não é o Ser revestido de éter, não é um Deus ex machina. A primeira fala de Deus na comédia humana é o choro de um corpinho vulnerável.

Não para aniquilar o sofrimento, senão para tomar parte nele; não para interromper com um definitivo milagre a via crucis humana, senão para nela ingressar com dentes, unhas e nervos. O Deus que anda conosco e nos oferece ajuda é lastimável – e não poderia ser melhor. Sua fraqueza sussurra-nos continuamente a fórmula de Grotius e convoca-nos a maioridade, um tempo em que a dor será amenizada pela carícia da fina mão de uma moça, não por mirabolantes operações celestiais, em que ela se tornará suportável depois do abraço suado e ordinário de um camarada, ao invés de desvanecer ao toque fantasmagórico de pululantes milagres. Um tempo em que não precisaremos alienar por preço vil nossa vontade a um Ser que compete com o homem sugando irresistivelmente suas forças.

Ainda que Deus não existisse, restar-nos-ia o calor consolador e inextinguível do sopro que um dia se fez carne.

Reconstruindo o trono 22 março, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos, Teologia.
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A lei instaura o reino dos homens ao vaciná-los ainda que precariamente contra as animosidades, mas não pode instaurar o Reino de Deus. O trono é a um só tempo pressuposto e consequência da lei: ela invariavelmente nascerá de um e a ele retornará dando-lhe novo ânimo.

O que Deus faz ao instaurar seu Reino é esfacelar o próprio trono; esvaziá-lo em um ato de impensável ruptura, em uma derrota que entrará retumbante para as páginas da eternidade. Deus, o único invencível, derrota a si próprio e libera os homens para a liberdade.

Como a lei, a graça emana do trono, mas de um trono vazio e sem cetro, de um trono estranhamente convertido em Espírito. Se procuramos reconstruir o trono esfacelado e se aceitamos de bom grado que sacerdotes de todo gênero edifiquem essa monstruosa obra, devemos isso ao pecado, uma monumental ferida ontológica, uma síndrome de Estocolmo que romantiza nossos grilhões e interpreta como ameaça todo esforço libertário.

Ouçamos S. Paulo: “Cristo nos libertou, porém foi para que fôssemos livres que nos libertou” (Gl. 5:1).

Não para sempre 14 março, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos, Poesia.
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Um das formas do egoísmo está em olhar para si de modo distorcido, se contemplar aprisionado no espelho da água e ali permanecer paralisado qual Narciso. Nosso reflexo deve ser bebido na concha das mãos; a água deve nos levar adiante, não nos paralisar.

Ninguém deve sacrificar a contemplação e a vida interior e ninguém deve sacrificar ninguém por nenhuma dessas coisas. Quando o poeta verte sua intuição em metáfora ele bebe da água e avança alguns passos, ele grava sua mitologia na pedra e liberta seus monstros em praça pública. Narciso não pode escrever poemas.

É uma figura inarredavelmente pública, o poeta. Drummond é um homem mais público que Vargas. Em um poema de Carlos é possível divisar uma sua lágrima e quiçá um pedaço de sua orelha: ele está todo ali, público como uma lua cheia.

Só depois de constatar que seu coração era “maior que o mundo”, depois de se ver trepidando na água do rio, o poeta pôde dar um passo adiante e desdizer-se: “Não, meu coração não é maior que o mundo / É muito menor. / Nele não cabem nem as minhas dores. / Por isso gosto tanto de me contar. / Por isso me dispo. / Por isso me grito. / Por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias. / Preciso de todos.”

Olhando pra si o poeta acaba por descobrir o outro, o rosto que não é dele e que o afronta: “Sim, meu coração é muito pequeno. / Só agora vejo que nele não cabem os homens. / Os homens estão cá fora, estão na rua.”

Quando morre Clarice Lispector nasce um poema de Ferreira Gullar: “Enquanto te enterravam no cemitério judeu do Caju (e o clarão do seu olhar soterrado resistindo ainda) / o táxi corria comigo à borda da Lagoa na direção de Botafogo / e as pedras, e as nuvens, e as árvores / no vento / mostravam alegremente / que não dependem de nós.”

A morte, ao contrário do sonho interrompido, não extingue o universo. O poeta, acostumado à vida interior, estranha esse fato aparentemente comezinho – e o transforma em poesia. No sonho, tudo existe como extensão quase mística do nosso ser. O fim de um sonho é o fim de um universo. Mas quando Clarice morre, as pedras permanecem tão duras quanto sempre foram, e o poeta encontra aí seu próprio destino. Não é a mera presença em um velório que nos dará a consciência do “ter de morrer”; é preciso antes ter estado presente em si mesmo.

Se quero ver no outro um rosto, preciso primeiro contemplar o meu – mas não para sempre.

A fera de olhos inexistentes 15 fevereiro, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos, Teologia.
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Com treinamento certo e instrumento adequado posso apunhalar um tigre rajado e anular a ameaça de seus dentes. Mas não é toda criatura selvagem que exibe a mandíbula tenaz de um felino ou o marfim plácido de um elefante; e nem toda fera selvática passou pela caneta de Adão. Quando o adversário tem um nome e uma mandíbula, confiar na destreza do nosso braço nem sempre implica em imprudência.

É perfeitamente possível vencer o medo com uma flecha, como faz o pequeno índio que dá os primeiros passos na imemorial arte da caça. Mas nem o maior dos índios, nem o mais colorido e experiente é capaz de desafiar e vencer o trovão que ruge. É que na aldeia o trovão é uma ameaça sem rosto, e quando a fera nos fita com olhos inexistentes então nenhum metal e nenhum cavalo pode nos salvar. Estamos nus.

Moisés com seus olhos de carne não pôde encarar a sarça ardente; e depois, quando moeu o bezerro de ouro, o fez em respeito à sarça que não fitou. O bezerro podia ser encarado e até estilhaçado: era um ídolo. O homem forja ídolos para costurar um rosto na sarça ardente, para expulsar dela a ardência e torná-la um objeto ao alcance de sua espada e de seus lábios. O ídolo anula o assombro e garante a manipulação; é a perfeita proteção contra a ameaça do não-ser.

Nos encastelamos em ídolos monumentais, erguidos com verbo e concreto e bytes, o que – seja dito! – não nos protege completamente contra o bote daquela terrível fera que Adão não nominou.

A última utopia 29 janeiro, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos.
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Deixando atônitas as barbas da tradição, um imperador derrete sinos para forjar espadas. O metal que badalava com zelo e piedade é o mesmo que agora tilinta colericamente no campo de batalha.

Entre os padres reunidos na saleta um se destaca pela estatura mitológica e pela ausência do olho esquerdo. Com os dois braços estendidos na mesa, Aragão de batina e em tempos de guerra é percebido mesmo pelos companheiros como um desperdício de testosterona.

Os religiosos dividem-se em dois grupos e um homem. O primeiro grupo é enérgico na defesa do imperador e sustenta entre argumentos e gestos que os sinos não existem sem as espadas. “A paz é um fruto de sensível pele cuja semente é a guerra. Os sinos só podem dobrar ao meio-dia de hoje se ao meio-dia de ontem as espadas se chocaram”, sustentava Laio envolto pela fumaça de seu cachimbo.

Guido, que compunha o segundo grupo, discordava com veemência, embora sua voz serena tornasse difícil a identificação desse ardor: “Os sinos devem permanecer sinos; se o metal algum dia serviu ao fabrico de espadas é porque um mau coração lhe imprimiu esse uso nefasto; e não será repetindo esse gesto que curaremos o mundo.”

Alguém do primeiro grupo observou que se o sinos e mesmo as cruzes não se convertessem já em espadas cristãs, amanhã tomariam inexoravelmente a forma de espadas estrangeiras e bezerros de metal. Essa alerta foi o gatilho de uma vigorosa migração para o grupo de Laio.

Aragão permanecia calado em sua pose de herói desperdiçado. Havia participado de demasiadas guerras para aderir ao primeiro grupo e de demasiadas discussões para aderir a algum. O que ele teria para dizer e não disse é que na guerra os sinos não deveriam colaborar com a matança, mas tampouco deveriam badalar.

Nas antigas batalhas qualquer soldado ligeiramente prudente temia a espada e o furor de Aragão: um de seus olhos foi comido pelo homem que logo depois perdeu os dois para os dentes impossivelmente brancos do guerreiro. Não trouxe consigo das guerras culpa ou medalha; trouxe desalento. Tornou-se padre não para expiar seus pecados, mas por acreditar que poderia achar na batina o que não achou na espada. Estava errado, e isso era o que mais o perturbava.

Em algum momento caloroso da discussão o homem mitológico se ergueu. Todos se calaram. Era indubitavelmente um guerreiro não fosse pelo olho remanescente, um assombroso depósito de ceticismo.

Marchou para a guerra e ali deixou-se morrer com as unhas tingidas pelo carmesim da chaga que abraçou deliberadamente como sua última utopia.

A terceira filiação 20 janeiro, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos, Teologia.
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Mateus inaugura seu Evangelho com um curioso paradoxo. O princípio é que um homem ou mulher tenha dupla filiação; o protagonista de Mateus tem tripla. Quando Ezequiel nasce sabe-se que é filho de Capitu e de mais alguém. A filiação é dupla, malgrado uma delas seja duvidosa: furo que a pena de Machado deliberadamente não fechou. Na origem de Ezequiel pode existir uma incógnita literária mas não existe nenhum elemento fantástico.

O primeiro evangelista coloca seu protagonista na linhagem de um homem e no ventre de uma mulher, para em seguida, e tudo na mais desavergonhada naturalidade, atribuí-lo uma terceira filiação.

A formulação de Calcedônia, que concebe Cristo em termos puramente fantásticos (aquele que é “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”) decorre descaradamente dessa tripla filiação. A teologia moderna procurará ora explicar em termos racionais e ora rejeitar por inadequação lógica a fórmula calcedonense. Mas cá está ela a nos espreitar com todo seu mistério, não em Calcedônia, senão nas linhas inaugurais da narrativa de Mateus.

O erro é querer interpretar o fantástico como real, é parir o mito e não assumi-lo. O nascimento virginal – a terceira filiação – é um elemento fantástico da narrativa e deve permanecer como tal. O contrário implica em violar seriamente a linguagem mitológica e sua magnífica capacidade de sugestão.

O que logo será narrado exige dos ouvintes a ingenuidade sagaz de um primitivo.

[Continua]