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Prodigalizar o amor 12 março, 2012

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Publicado originariamente em 06/09/2010

Os primeiros movimentos do ministério de Jesus já dão consistentes indícios do eixo heterodoxo que orientará seu messianismo e já começam por embaralhar as ideias e expectativas mesmo daquele cuja missão era a de preparar “o caminho do Senhor e tornar retas suas veredas.” (1)

Jesus achega-se a João Batista com um pedido inusual: quer ser batizado no rio Jordão, quer experimentar as águas inapeláveis do arrependimento. Aquele a quem foi dado batizar com o Espírito, deixa-se batizar nas águas, mediado por perplexas mãos que se achavam indignas até de desatar-lhe o cordão das sandálias.

O eixo que orienta o ministério de Jesus e que dinamita inclusive a tradição em que este se insere, abrindo terreno para o desenvolvimento de novas extraordinárias, é sua identificação radical e resoluta com os pecadores, e o batismo nas águas do Jordão deve ser lido fundamentalmente como o parto de uma nova era, possibilitado por aquela identificação.

Não é o jovem de Nazaré quem se batiza no Jordão, mas a humanidade tragicamente cindida entre poucos que são dignos do amor de Deus (por sua atitude em conformidade com a lei e com os rituais religiosos) e muitos que não merecem mais que a visita regular do chicote divino. E se o Espírito pousou na forma de uma pomba sobre Jesus, era claramente sobre os infelizes e os doentes que ele pousava. Nascia das águas do Jordão uma era em que o amor já não se identificava com a justiça. Era mais severo que ela.

Pouco mais tarde, naquilo que se convencionou chamar de o Sermão da Montanha, Jesus deixaria claro que apenas uma justiça que ultrapassasse a dos escribas e dos fariseus poderia inaugurar o Reino dos Céus – e a chave estava dada: apenas o amor, conduzido pela leveza do Espírito até as últimas fronteiras do orbe, reuniria condições suficientes para destronar a justiça farisaica – demasiado tribalista e obcecada com a ideia de dar a cada um o que é seu.

Urgia libertar o amor de restrições, alargá-lo para além de todos os conceitos e fronteiras. Ante a estupefação de seu antecessor e do mundo, a missão de Jesus começava a tomar forma: tratava-se de prodigalizar o amor.


CONTINUA…


(1) É um fato prenhe de implicações o de que a cabeça de João Batista servida em uma travessa não era a de um herói triunfante descansada na ideia de ter cumprido com êxito sua missão, mas uma cabeça completamente transtornada pelos fantasmas da perplexidade. Em seus derradeiros dias, encarcerado, Batista perguntava se aquele seu primo insubmisso era mesmo o Messias ou se deveriam esperar outro.

 

Após um compulsório período sabático (em que descanso não houve senão para vós, leitor) volto a publicar, e com a promessa quiçá leviana de manter alguma regularidade.

***

Os primeiros movimentos do ministério de Jesus já dão consistentes indícios do eixo heterodoxo que orientará seu messianismo e já começam por embaralhar as ideias e expectativas mesmo daquele cuja missão era a de preparar “o caminho do Senhor e tornar retas suas veredas.” (1)

Jesus achega-se a João Batista com um pedido inusual: quer ser batizado no rio Jordão, quer experimentar as águas inapeláveis do arrependimento. Aquele a quem foi dado batizar com o Espírito, deixa-se batizar nas águas, mediado por perplexas mãos que se achavam indignas até de desatar-lhe o cordão das sandálias.

O eixo que orienta o ministério de Jesus e que dinamita inclusive a tradição em que este se insere, abrindo terreno para o desenvolvimento de novas extraordinárias, é sua identificação radical e resoluta com os pecadores, e o batismo nas águas do Jordão deve ser lido fundamentalmente como o parto de uma nova era, possibilitado por aquela identificação.

Não é o jovem de Nazaré quem se batiza no Jordão, mas a humanidade tragicamente cindida entre poucos que são dignos do amor de Deus (por sua atitude em conformidade com a lei e com os rituais religiosos) e muitos que não merecem mais que a visita regular do chicote divino. E se o Espírito pousou na forma de uma pomba sobre Jesus, era claramente sobre os infelizes e os doentes que ele pousava. Nascia das águas do Jordão uma era em que o amor já não se identificava com a justiça. Era mais severo que ela.

Pouco mais tarde, naquilo que se convencionou chamar de o Sermão da Montanha, Jesus deixaria claro que apenas uma justiça que ultrapassasse a dos escribas e dos fariseus poderia inaugurar o Reino dos Céus – e a chave estava dada: apenas o amor, conduzido pela leveza do Espírito até as últimas fronteiras do orbe, reuniria condições suficientes para destronar a justiça farisaica – demasiado tribalista e obcecada com a ideia de dar a cada um o que é seu.

Urgia libertar o amor de restrições, alargá-lo para além de todos os conceitos e fronteiras. Ante a estupefação de seu antecessor e do mundo, a missão de Jesus começava a tomar forma: tratava-se de prodigalizar o amor.

CONTINUA…

(1) É um fato prenhe de implicações o de que a cabeça de João Batista servida em uma travessa não era a de um herói triunfante descansada na ideia de ter cumprido com êxito sua missão, mas uma cabeça completamente transtornada pelos fantasmas da perplexidade. Em seus derradeiros dias, encarcerado, Batista perguntava se aquele seu primo insubmisso era mesmo o Messias ou se deveriam esperar outro.

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