jump to navigation

O transtorno em três curtas histórias 12 março, 2012

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
trackback

Publicado originariamente em  25/05/2010

Tomás de Aquino, após se fatigar com os intermináveis manuscritos de sua Summa Theologica, permitiu-se um suspiro, imagino que costurado com angústia e alívio: “somente conhecemos verdadeiramente a Deus quando acreditamos que Ele se acha além de tudo que o homem possivelmente seja capaz de pensar de Deus.” Mais tarde, com a pena pendendo tolamente na mão, e talvez com os olhos pendendo no vazio, sentiu queimar-lhe as veias a dimensão monstruosa da ignorância humana, a matéria fátua com que são tecidos os discursos, a asquerosa vaidade que ergue sistemas e os adora. Suspirou uma segunda vez: “Eu já não posso escrever. Vi coisas que tornam todos os meus escritos inúteis.”

O que podemos afirmar com certeza é que o santo escolástico não foi o único jogador a sofrer nas mãos o baralhar vertiginoso das cartas. Quando o trabalho árduo parece finalmente subjugar o caos, cresce sorrateira, no centro do quebra-cabeça, certa peça estranha ao conjunto: uma serpente nos seios da mulher, uma espada no pescoço do tigre. Retornamos ao “bocejante Caos”, de cuja goela nasceu o mundo, conforme a cosmologia de Hesíodo; sentimos-nos cambaleando em uma terra vaga e vazia, submersa nas trevas primais.

O raio com que Zeus degola as infindas cabeças de Tifão, com que silencia os silvos e latidos e rugidos do filho da deusa Gaia, aniquilando o poder da hybris (arrogância) e anulando os excessos, demarcando limites e identificando o justo com o belo – é um raio que não penetrou níveis suficientemente abissais para esmagar a semente do caos.

No frontão ocidental do templo de Delfos figura Apolo, o deus marmóreo, distante, guardião da harmonia e do equilíbrio. Mas se nos voltamos ao frontão oriental do mesmo templo toparemos com a figura de Dionísio, o deus do vinho, da intoxicação e do caos. É assim nos revelada a semente da discórdia, desde sempre lançada no céu imaculadamente azul da tradição clássica. Umberto Eco atribui a Nietzsche a tematização desta “coabitação de duas divindades antitéticas” no helenismo, que “exprime a possibilidade, sempre presente e verificando-se periodicamente, da irrupção do caos na beleza da harmonia.”

No século XII, na pequena cidade italiana de Assis, o mesmo punhal da desordem escavou a alma de um jovem poeta local, indicando-lhe as veredas da santidade. Narrar a vida de um santo é uma inconseqüência; cantá-la nem tanto, e se pudermos perdoar Chesterton por biografar Francisco de Assis será pelo fato de Chesterton ser um poeta. A conversão do santo é cantada pelo poeta como jamais poderia ser narrada por um prosador.

Francisco era um poeta itinerante da cidade de Assis, na região italiana da Úmbria. Admirava-o a poesia trovadoresca praticada no sul da França. Os poetas trovadores eram geralmente acompanhados em seus números artísticos pelos jongleurs, espécie de comediantes, acrobatas ou bobos da corte, que tinham seguramente um papel secundário em relação aos trovadores. Francisco chamava seus companheiros de jongleurs de Dieu, e claro, considerava-se um jongleur.

Francisco foi também um militar. Quando se lançou em uma campanha que lhe dava grandes esperanças de glória foi acometido por uma enfermidade; regressou à sua cidade natal humilhado e envergonhado, e após outros episódios vexatórios fugiu rastejando, praticamente nu, até as entranhas frias de uma caverna escura. Ao sair da caverna, relata Chesterton, “Francisco estava usando a palavra bobo como uma honraria, como ou louros da vitória ou mesmo como uma coroa. Ele continuaria a ser bobo, iria se tornar cada vez mais bobo, seria o bobo da corte do Rei do Paraíso.”

O jongleur Francisco de Assis experimentou a salvação, e ela foi experimentada na forma de uma acrobacia, conforme a metáfora empregada por Chesterton: “Francisco passou por algum tipo de reversão psicológica, equivalente à de um salto mortal completo, uma vez que, ao fazer o círculo completo, voltou, ou aparentemente voltou, ao ponto de partida, à mesma posição normal.” O jovem jongleur, por assim dizer, viu o mundo de cabeça para baixo, viu Assis com suas torres e muralhas pendendo e perigando estilhaçar-se nas estrelas: “enquanto para o olho normal a imensa alvenaria de suas muralhas ou as maciças fundações de suas torres de vigia e de sua elevada cidadela a fariam parecer mais segura e mais permanente, no momento em que ela foi virada de cabeça para baixo, esse mesmo peso a faria parecer mais vulnerável e mais em perigo.”

Foi assim com Tomás de Aquino e com a Grécia; foi assim com São Francisco de Assis e não nos foi dada garantia alguma de que não será assim conosco. O que era nossa torre e nossa muralha se voltará subitamente contra nós, e quiçá possamos achar a salvação neste estado de coisas em que nossas certezas são milagrosamente transtornadas, em que quedamos absolutamente nus e sem leito mais confortável que as pedras brutas que ornamentam uma gruta fria.

Anúncios

Comentários»

No comments yet — be the first.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: