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O homem e o rio 12 março, 2012

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Publicado originariamente em  11/04/2010

Considerações desordenadas sobre minha visita ao Monastério de São Brabo e suas fabulosas adjacências.

O rosto banhado pelas línguas do calor denunciava em sua carne a mesma volatilidade do Nhundiaquara, o buraco de peixe aberto atrás de si. Por um momento (e esse momento persiste) o rio e o homem eram a mesma coisa – seres condenados ao círculo incessante da reformulação, seres abertos a acolher em suas águas mesmo o mais mentecapto dos homens.

Aquele que me legou desde o primeiro instante um abraço sólido foi o mesmo que insistiu comigo (sem insistir em momento algum), que o único plano válido está em viver – e viver é coisa para quem se rende com líquida vulnerabilidade até mesmo ao golpe estraçalhador da pedra.

Por um tempo fluido e circular, e portanto não submetido ao encoleiramento das fitas métricas, estivemos – eu, o homem e o rio – compartilhando (no sentido mais placentário desta palavra) a mesma jangada, inteiramente desarmados por um fluxo indulgente e gracioso, o mesmo usufruído pelo jovem Huck e seu companheiro Jim no clássico As aventuras de Huckleberry Finn.

Visitamos os vestígios que o último papa deixou em Curitiba; foi-nos dado lugar na mesa de gente generosa como Tato, Sil e suas crianças, que ali nos ofereceram histórias e manjares e espetáculos circenses. Fui arrebatado ao coração da Floresta Atlântica para maravilhar-me com o jogo sensual do mar, despindo-se para depois cobrir-se com o véu enganadoramente imaculado da neblina. Percorremos estradas que pareciam não levar a lugar algum; embrenhamo-nos em aldeias cobertas de arrozais e frugais casinhas de madeira; fui encarado por fileiras de árvores que julgava só existir em mundos mais mágicos que este. Recebi a visita do tempero materno de Dona Edite e não sabia como reagir ante a cortante inteligência verbal do Seo Purim, só menor que sua acolhida. Ouvi com espanto e prazer histórias onde a bondade e a beleza rompiam nos lugares mais improváveis. Partilhamos uma soberba cerveja alemã.

O homem e o rio: ambos em vertiginoso fluxo diante de mim. E ainda não me é dado distinguir o início deste e o fim de algum.

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