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Minha vida e minhas experiências com os cristãos 12 março, 2012

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Publicado originariamente em 05/04/2o10

Mohandas K. Gandhi em Autobiografia: minha vida e minhas experiências com a verdade

Está na hora de falar (…) da experiência com meus amigos cristãos. O Sr. Baker estava ficando ansioso a respeito do meu futuro. Levou-me à Convenção de Wellington. Os cristãos protestantes organizam esses encontros a intervalos de alguns anos, em busca da iluminação religiosa ou, em outras palavras, da autopurificação. Pode-se chamá-los de restauração, ou renovação religiosa (…) O Sr. Baker imaginara que a atmosfera de exaltação religiosa do encontro, bem como o entusiamo e fervor dos presentes, poderiam sem dúvida converter-me ao cristianismo.

Mas sua esperança maior concentrava-se na eficácia da oração, na qual tinha fé inabalável. Estava firmemente convencido de que Deus não deixaria de ouvir as preces que lhe fossem dirigidas com fervor. Costumava citar o exemplo de homens como George Muller, de Bristol, que se valia totalmente de preces, mesmo para suas necessidades temporais. Eu ouvia, atento, esse discurso sobre a eficácia da oração, e assegurava a ele que nada me faria deixar de abraçar o cristianismo, se sentisse a vocação. Não hesitava em dar-lhe essa certeza, porque há muito havia aprendido a seguir a voz interior. Para mim, era uma delícia submeter-me a ela. Contrariá-la seria difícil e doloroso.

E assim fomos para Wellington. Para o Sr. Baker foi penoso ter um “homem de cor” como companhia. Em muitas ocasiões, teve de passar por muitos constrangimentos por minha causa.

A Convenção era uma assembléia de cristãos convictos. Eu estava encantado com a fé das pessoas. Conheci o Reverendo Murray. Percebi que muitos dos presentes rezavam por mim. Gostei de alguns de seus hinos, eram muito suaves. A Convenção durou três dias e me fez entender e apreciar a devoção dos participantes. Mas não vi razões para mudar de crença – de religião. Para mim, era impossível acreditar que poderia ir para o céu, ou obter a salvação, somente por tornar-me cristão. Quando disse isso, com franqueza, a alguns bons amigos dessa religião, eles ficaram chocados. Mas não havia nada a fazer.

Minhas dificuldades eram mais profundas. Não podia admitir que Jesus fosse o único filho encarnado de Deus, nem que apenas os que acreditavam nele teriam a vida eterna. Se Deus tivesse filho, eles seriam todos nós. Se Jesus era como Deus, ou Ele próprio, todos os homens poderiam ter a mesma condição. Minha razão não estava preparada para acreditar literalmente, que por meio de sua morte Jesus redimira todos os pecados do mundo. Do ponto de vista metafórico, até que poderia haver alguma verdade nisto. Por outro lado, segundo o cristianismo, apenas os seres humanos tinham alma, que estaria ausente nos demais seres vivos; para estes, a morte significava a extinção; eu pensava de modo contrário. Poderia aceitar Jesus como mártir, uma encarnação do sacrifício e um mestre divino, mas não como o mais perfeito dos homens nascidos. Sua morte na cruz era um grande exemplo para o mundo, mas meu coração não podia aceitar que ela fosse uma virtude misteriosa ou miraculosa. As vidas piedosas dos cristãos não me proporcionavam nada que não pudesse ser encontrado na existência de homens de outras crenças. (…)

Partilhava essas inquietações mentais com meus amigos cristãos sempre que havia oportunidade, mas suas respostas não foram capazes de me satisfazer. Assim, se por um lado eu não poderia aceitar o cristianismo, seja como uma religião perfeita, seja como a maior de todas elas, de outra parte naquela época não estava convencido de que o hinduísmo tivesse essas mesmas qualidades. Os defeitos hindus eram chocantemente visíveis para mim. Se a intocabilidade de certas pessoas era uma parte dessa crença ela poderia ser vista como uma porção podre, uma excrescência. Eu não podia entender a razão de ser de uma multidão de castas e seitas. E qual era o significado de dizer que os Vedas eram inspirados na palavra de Deus? E por que Ele não teria inspirado também a Bíblia e o Corão? (…)

Embora eu houvesse tomado um caminho que meus amigos cristãos não desejavam para mim, sinto uma profunda gratidão pela inquietação religiosa que me despertaram. Acalentarei para sempre a lembrança de nossos contatos. Os anos que se seguiram, entretanto, me revelariam mais relações igualmente doces e sagradas.

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