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Dardejante verbo 12 março, 2012

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Publicado originariamente em  26/01/2011

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Nos primórdios do tempo concederam ao barro (e não aos anjos, como então se esperava) a mais cobiçada das armas celestes: o Dardejante Verbo. Tramaram, fibra por fibra, um sumamente corrediço e purpúreo tecido – algo como as asas de uma borboleta, com a diferença de estarem graciosamente projetadas para dentro. Ao bípede, a língua – o verbo – a arma latejante da transgressão.

Foi feito o homem.

O judaísmo insiste com uma obsessão bastante particular no estatuto de speech-act da criação; cria-se por intermédio do discurso. Deus é o que fala, e a fala exige um ouvinte, de modo que o próprio discurso divino encarrega-se de produzir um. Entretanto, a fala tem ainda outra exigência, sensivelmente mais radical. Um ouvinte sim, mas um ouvinte que responda. A ética judaica, Lévinas não nos deixa esquecer, está fundada no diálogo. A criação de um ouvinte capaz de responder é a criação de um rosto. E o rosto, argumenta Lévinas, é “o modo como o outro se apresenta, ultrapassando a ideia de outro em mim.” Ao criar o homem – e esse talvez seja o elemento mais fascinante da mitologia judaica da criação – Deus cria um rosto que absolutamente não é o seu, uma voz que absolutamente não é a sua. A única certeza que resta, inclusive ao Criador, é a de que o sol faiscará sobre um mundo polifônico.

Um exemplo extraído da literatura (e devo desculpá-los pela pobreza de meus exemplos!) talvez seja generoso e conceda um facho de luz à minha argumentação. Mikhail Bakhtin, estudando a obra do romancista Fiódor Dostoiévski, encontrará nela uma poética da polifonia (Problemas da Poética de Dostoiévski, Forense Universitária, 2005). O universo arquitetado pelo romancista russo, conforme o concebe Bakhtin, é caracterizado por uma “multiplicidade de vozes e consciências independentes”.

Há uma longa tradição na crítica literária ocidental que argumenta que a arte é concorrente de Deus, e que o romance, em particular, é uma forma de “deicídio sutil” (Vargas Llosa). Numa primeira exploração dessa ideia talvez convenha uma ligeira provocação: o poder de fogo do Verbo é tal que basta para o cometimento do ato de suprema transgressão em uma cultura teística: o deicídio. E levando a provocação adiante, o relato da criação do Gênesis, enquanto relato literário que é, já constitui ele próprio um ato transgressor – um deicídio sutilíssimo – uma primeira e desesperada tentativa humana de ordenar discursivamente o caos, o vazio. Mas voltemos a Dostoiévski.

Se o romance é uma espécie de deicídio, os deicídios de Dostoiévski são como atos de louvor – suplantações de Deus que são a um só tempo desesperada imitatio dei. O romancista russo, como o Javé do relato do Gênesis, não nega aos seus heróis o Dardejante Verbo – estratégia, naturalmente, que o fragiliza enquanto criador, ao obstar-lhe o controle absoluto sobre o destino de suas criações. Bakhtin acende sua flama:

Dostoiévski não cria escravos mudos (como Zeus) mas pessoas livres, capazes de colocar-se lado a lado com seu criador, de discordar dele e até rebelar-se contra ele. A multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoiévski (…) suas personagens principais são, em realidade, não apenas objetos do discurso do autor mas os próprios sujeitos desse discurso diretamente significante (…) A consciência do herói é dada como a outra, a consciência do outro, mas ao mesmo tempo não se objetifica, não se fecha, não se torna mero objeto da consciência do autor.

A poética de Dostoiévski é uma poética do despojamento, que faz da criação um ato de plena liberdade do criador, que se cria, é por amor à criatura – e não um ato movido pela necessidade de encontrar instrumentos que façam ressoar em variados timbres a voz única do criador. Como o ouvinte ativo do judaísmo, o herói dostoievskiano é dotado de um rosto e de uma voz – está liberado para responder.

A língua é a centelha subversiva que faz irromper no homo o sapiens – no barro bruto, a dança inebriante da liberdade (ou ainda, na linguagem bíblica, é o sopro divino insulflado nas narinas do barro). Esse papel humanizador da língua é descrito de forma comovente por Oliver Sacks em sua viagem ao mundo dos surdos (Vendo Vozes: uma viagem ao mundo dos surdos, Cia das Letras, 2010). Sacks, um médico que não se esqueceu de ser homem, acompanha a dramática trajetória de pessoas com surdez pré-linguística (adquirida antes do aprendizado de uma língua) e que não foram em nenhum momento instrumentalizadas com a língua de sinais. A incapacidade de proposicionar interna e externamente, própria daqueles em quem a centelha da língua não irrompeu, condena o raciocínio a incoerência e à paralisia. A surdez pré-linguística, afirma Sacks, “é potencialmente muito mais devastadora que a cegueira, pois ela pode predispor a pessoa, a menos que isso seja prevenido, à condição de ficar praticamente sem língua – e de ser incapaz de proposicionar (…) os surdos sem língua podem de fato ser como imbecis – e de um modo particularmente cruel, pois a inteligência, embora presente e talvez abundante, fica trancada pelo tempo que durar a ausência de uma língua.” A língua, aprendemos muito dramaticamente, é a arma que nos libera para explorarmos os mares e os continentes da aventura humana (1).

É evidente que ninguém adquire por si uma língua – ela é transmitida culturalmente. Emergirá, quase sempre, na relação entre o filho e a mãe – e enreda a prole e sua genitora já não mais na consistência bruta de um cordão umbilical, senão em uma espécie de jogo ardiloso e precário, capaz de uní-los e de separá-los (2). Se a língua é o que estabelece laços, ela é ainda o que os afrouxa e os desata – e portanto, o elemento que fertiliza as relações, impedindo que caiam vítimas de uma auto-estrangulação trágica.

Desse jogo linguístico, que une e separa, que confronta e louva, que lamenta e se apaixona, foram tecidos uma considerável parcela dos escritos poéticos que compõem a Bíblia judaica. Mesmo sob a vigência da lei, ao homem não é negada a palavra, o lamento, o desafio, a declamação apaixonada.

Jó (e se seu exemplo não bastar, nada bastará) é o homem que penetra até as profundezas úmidas do vazio a fim de desafiá-lo – ele está absolutamente nu, e seu punhal, como o de Hamlet, é a língua. Seu punhal, como o de todos nós, é o Dardejante Verbo.

Notas:

(1) Obviamente, ninguém aqui está sustentando que a ausência de desenvolvimento linguístico nos surdos pré-linguísticos e nos afásicos lhes retira a qualidade de humanos. A ausência da língua é apenas um óbice (transponível, aliás) para o desenvolvimento pleno de sua humanidade.

(2)A lembrança de Hamlet é inevitável. É hora de confrontar sua mãe, a Rainha, e em semelhante embate o único punhal que merece uso é a língua: “À minha mãe irei agora. Coração, sê forte; que a alma de Nero não me invada o peito, que eu seja cruel, não desumano. Falarei de punhais, mas sem usá-los.” e a reação da Rainha, no clímax do embate: “Não me fales mais. Essas palavras entram como espadas nos meus ouvidos. Para, doce Hamlet.”

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