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Abismo – uma redenção 12 março, 2012

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Publicado originariamente em 01/05/2011

Há em Dante e no trovadorismo do Medievo uma concepção de amor que confunde e encanta como um jogo paradoxal: os cavalos, as mesuras, os sonetos, as vestes iluminadas – um universo docemente acorrentado ao destino de ser vassalo e trovador do amor. A condição, todavia, é a de que o jogo da trova permaneça indefinidamente, e o temor, o incofessado temor, é o de que o amor celebrado se realize, o de que o objeto amado faça-se presente e disponível.

O desaparecimento do objeto amado – sua morte ou seu afastamento, que o amante canta e lamenta como a suprema tragédia, é sentido positivamente como a condição de sobrevivência e elevação do amor (um motivo oculto, artifício a que toda mitologia recorre). Basta pensar na estrutura da Vida Nova de Dante. A morte de Beatriz, a amada, que só seria desafogada com “palavras dolorosas”, altera radicalmente a estrutura do livro – até então, em cada capítulo, os sonetos ou cantos que o compunham eram divididos e explicados posteriormente por um trecho em prosa; com o passamento de Beatriz, Dante anuncia uma inversão: “e, para que essa canção pareça mais viúva ao finalizar, dividi-la-ei antes de escrevê-la e tal critério manterei aqui por diante.” Desaparecido o objeto amado, a poesia finalmente triunfa; o mundo do poeta acha-se esmagado e desfigurado pela ausência da amada, e apesar disto, e em razão disto, sua poesia ressoa como nunca em direção à eternidade.

Abraçar positivamente a ausência, o vazio, eis a cruz e eis a única possibilidade de redenção do amante e de seu amor. Talvez não seja o vazio de um niilismo desesperado, algo como a dissolução definitiva de todo o significado – mas, quem o saberá, o vazio seja ele próprio o significado último (sim, um abismo, aquela negra ausência com a qual teceremos com responsabilidade nosso destino individual e coletivo).

Traços desse amor cujo pleno desenvolvimento carece da ausência do objeto amado talvez possam ser achados na relação amorosa de Deus com o homem, conforme a concebe a narrativa cristã. Se o corpo de Jesus desaparece e nos condena, seus amantes, à orfandade dolorosa, é para que o Espírito – o seu, silencioso e inapreensível como um abismo, possa triunfar entre os homens – liberados, constrangidos a escrever com sangue e carne uma poesia genuinamente sua. Beatriz elevada aos círculos angélicos – o poeta que invente com dor e glória e beleza um universo, e o habite.

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