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O reino de Deus: esse improvável narcótico 3 março, 2012

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Publicado originariamente em  18/03/2010

O bigode mais famoso da Alemanha – para omitirmos que seja o mais temido – reduziu a dois os caminhos em que os homens se embrenham para superar um infortúnio.

O primeiro e o mais largo é o que se propõe a narcotizar nossa sensibilidade com a fumaça alucinante dos mistérios impenetráveis. Para os conselheiros que abundam neste caminho o infortúnio deve ser refutado como uma casca ilusória: tremores e pestes, cânceres e fomes e degolações constituem a realidade vista ao avesso, pela miopia de nossas janelas temporais. Cabe-nos sentar na arquibancada e contemplar o tear eterno do Tapeceiro, no governo soberano das agulhas, no domínio encantador da arte de espetá-las conforme seus objetivos eternos.

O discurso é de que o homem é absolutamente impotente e absolutamente condicionado e o infortúnio é qual uma árvore nociva em cujas raízes os machados humanos não penetram; uma árvore cinza que distribuirá, no fechamento do caixa da história, como por milagre, flores e frutos benfazejos. Aqui está a religião atuando como ópio, narcotizando as consciências, eliminando a responsabilidade histórica, infantilizando a humanidade. Aqui estão os sacerdotes que vivem da “anestesia dos males humanos.”

A segunda é a via dos que rejeitam o consolo fácil dos narcóticos e desafiam sobriamente as causas do infortúnio. A floresta de chumbo há de ser encarada como ameaça real; as graníticas raízes hão de ser hostilizadas por braços, mãos e suas extensões férricas.

Nesta segunda senda encontramos os rastros de gente como Martin Luther King. De sua prisão em Birmingham, em carta dirigida aos brancos moderados do sul dos Estados Unidos, o reverendo Luther King esclarecia aos seus colegas clérigos os perigos implicados no erro de se fiar em um “conceito mítico do tempo”, segundo o qual “há algo no [seu] próprio curso que inevitavelmente curará todos os males.”

Essa crença irracional, narcotizante (e, portanto, religiosa) do tempo como um deus redentor é que nos fará abusar do uso de metáforas como “reino de Deus” ou “sociedade sem classes”, sempre aparando suas indesejáveis arestas.

A instauração efetiva do reino de Deus ou, como queiram, de uma sociedade sem classes, exige um comportamento radical, isto é, uma postura em tudo inclemente contras as raízes de sistemas sociais e econômicos excludentes.

O mais é abuso; é sublimar o reino de Deus e é consumi-lo como um entorpecente.

Supomos estar entre os que rejeitam a narcose até que nos surpreendemos empunhando e bradando nossas cimitarras de éter contra os dentes insaciáveis do capitalismo[i], e evidentemente, não tencionamos com isso escorraçá-lo e enviá-lo de volta ao inferno; a ambição é mais branda: basta-nos a prudente incineração dos fardos acumulados em nossa consciência (e nesta altura, mesmo o leitor mais distraído já notou que este artigo é testemunho vivo de prática tão ignóbil). Em outras palavras, não queremos meter as mãos no trabalho sujo e árduo de rebentar com as raízes da árvore cinza; é-nos suficiente que seus galhos mais constrangedores sejam carinhosamente podados.

Não demoramos em encontrar um paliativo que nos salve das exigências radicais, da dura tarefa de desinstalar raízes; e com os materiais mais improváveis inventemos o nosso narcótico.


[i] Comparo imprecisamente o capitalismo com aquela loba que surge no Canto I do Inferno de Dante: “uma loba, de cobiça ansiosa / em sua torpe magreza, carregada, / que a muita gente a vida fez penosa.”; e mais tarde, ainda sobre a mesma fera: “seus impulsos perversos e aberrantes / fazem que nada poderia saciá-la; / do pasto é mais faminta após que antes.”

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