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A criação 3 março, 2012

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Publicado originariamente em  05/03/2010

“Mais feliz é aquele que ainda não nasceu.” (Ec. 4:3)

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Là non è chi si guardi
o stia di sè in ascolto.
Quivi sei alle origini
e decidere è stolto:
ripartirai più tardi
per assumere un volto
Eugenio Montale, em Ossi di seppia[i]

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Voi, mie parole, tradite invano il morso
secreto, il vento che nel cuore soffia.
La più vera ragione è di chi tace.
Il canto che singhiozza è un canto di pace.
Eugenio Montale, em Ossi di seppia[ii]

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É para negar a terrível intuição do isolamento que o artista cria (ou, no dizer de Hegel, para negar a negação). É para trair “o aguilhão secreto” que os versos são tecidos, e é contra a gelidez dos ventos soprando nos claustros interiores que o pintor comanda suas cores. Toda criação pressupõe o desespero de seu criador. Nietzsche, não sem malícia e imprecisão, cita a convicção de Lutero de que o mundo foi criado em um momento de inadvertência e distração da divindade.

Na tradição judaico-cristã não é recente a sugestão de que a criação do universo foi um erro. Ainda em seus primeiros desenvolvimentos, a narrativa do Gênesis surpreende o Artífice arrependido de ter criado (Gn. 6:6). Só após a obra talhada é que o artista atentará para o tenebroso fato de que “a verdadeira razão está em calar-se.” E será tarde.

Toda criação pressupõe ainda o silêncio do Barro. Para o Barro “decidir é irrelevante”, e a ele cumpre abraçar sem reservas seu destino, traçado em letras irrevogáveis: “mais tarde partirás / para assumir um semblante”. Ao semblante imposto se imporá agora a desfiguração, que o levará a cantar com o outro poeta: “mais feliz é aquele que não nasceu”, e dar assim boa razão ao arrependimento do Criador.


[i] Lá não há quem se olhe / ou esteja de si à escuta / Aí está nas origens / e decidir é irrelevante: / mais tarde partirás / para assumir um semblante. [Tradução: Renato Xavier]

[ii] Vós, minhas palavras, em vão traís o aguilhão / secreto, o vento que sopra no coração. / A verdadeira razão está em calar-se. / O canto que soluça é um canto de paz. [Tradução: Renato Xavier]

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