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Livro jorrante 27 novembro, 2009

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Não há olho humano que tenha penetrado toda a insondável vastidão do livro jorrante, e inexiste coração pulsante que não o tenha desejado. Quem pode produzir um ponto final que dê conta de estancar a paixão com que Werther se entregou a Charlotte e quem achará uma quarta capa que demarque um limite aos sonhos alucinados de Quixote?

É vastamente conhecida a tentação de ignorar a vertigem do livro jorrante, encontrando-lhe um suposto ponto final e encaixotando-lhe entre os farpados arames de um dado sistema. Tudo em nome da segurança, do poder, e quiçá do orgulho.

Por olímpica ironia, as assim chamadas religiões do livro prodigalizam parte considerável de suas forças represando o livro. O primeiro passo é considerar inspirado e digno da sagrada reverência um único livro ou um único conjunto de livros, negando a sacralidade ou inspiração de qualquer palavra, dita ou escrita, que se ache fora deste cânon. Eis o livro que, por aval humano, concentra tudo o que Deus tem a dizer.

Não é o bastante. Impostas as prudentes limitações, o livro insiste em jorrar. Isso faz com que os olhos de um sem-terra descubram neste livro, assistidos pelo titubeante facho de uma lamparina, a urgência e a beleza da justiça, e faz com que um sisudo advogado passe a admirar os lírios do campo.

O segundo passo, dirigido aos leitores, consiste em convencê-los dos perigos que assombram as leituras desgarradas, perpetradas na solidão do quarto, entre os uivos do vento e da memória.

É certo que todo esforço inglório em represar o livro só obtêm vitórias bastante pontuais, embora profundamente destrutivas. Os sonhos de Quixote não cessam de contagiar; a paixão de Werther por Charlotte teima em comover. Caim encontra detratores e patronos.

O livro, caudaloso e eterno, jorra.

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Comentários»

1. Janete Cardoso - 28 novembro, 2009

“Não é o bastante. Impostas as prudentes limitações, o livro insiste em jorrar. Isso faz com que os olhos de um sem-terra descubram neste livro, assistidos pelo titubeante facho de uma lamparina, a urgência e a beleza da justiça, e faz com que um sisudo advogado passe a admirar os lírios do campo.”

Me emociona ler isso! Que coisa mais linda, Alysson!
O Livro jorra Vida, quando o Espírito dele encontra nosso espírito! É do interior que as águas vivas fluem! Sem esse relacionamento, o Livro é apenas livro.

“O segundo passo, dirigido aos leitores, consiste em convencê-los dos perigos que assombram as leituras desgarradas, perpetradas na solidão do quarto, entre os uivos do vento e da memória.”

Não foi nessa solidão que Jesus sugeriu que orássemos? E saborear e digerir essa Palavra, não é dialogar com Deus? 🙂
Adestram nossas mentes, represam o Livro para nos represar.
Mas a Vida do Livro se torna parte de nós, quando vivemos Cristo e não quando decoramos a letra, que por sinal, mata.

2. Lou Mello - 28 novembro, 2009

Tenho um amigo que costuma dizer que tem enorme dificuldade em achar a quarta capa dos livros. Gostei muito do texto, se fosse um livro, teria chegado à quarta capa sem perceber. Fiquei pensando que não gostaria de escrever um livro se não pudesse atender a essa esperança. Obrigado.

3. André Egg - 28 novembro, 2009

A coisa é muito pior do que imagina a Janete.

Afinal, ler “em oração” ou “inspirados pelo Espírito”, são eufemismos para seguir a leitura oficial.

Quando Lutero propugnou o livre exame, estava rompendo com a madre igreja, catpultando a modernidade das leituras caóticas. Interessante que os calvinistas e seus descendentes (evangélicos) tentaram aprisionar a leitura novamente. E os luteranos insistem em não fechar o cânon até hoje.

Daí vêm a crítica filológica (livre exame levado às últimas consqüências), o liberalismo teológico, a neo-ortodoxia, a teologia da libertação, a teologia feminista.

E o livro não pode ser fechado.

Amén.

4. Janete Cardoso - 28 novembro, 2009

Me refiro à um relacionamento pessoal, que só pode acontecer indivudualmente entre Criador e criatura. Não precisamos de novas teologias.


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