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Sem ilusões 1 outubro, 2009

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Zygmunt Bauman, em Ética Pós Moderna

A verdade provável é que escolhas morais sejam de fato escolhas, e dilemas morais sejam de fato dilemas, e não os efeitos temporais e corrigíveis da fraqueza, ignorância ou estupidez humanas. Os temas não tem soluções predeterminadas nem as encruzilhadas direções intrinsecamente preferenciais. Não há princípios fixos que se possa aprender, memorizar e desenvolver para escapar de situações sem bom resultado e poupar-se do amargo gosto posterior (chame-o de escrúpulos, culpa ou pecado) que vêm sem pedir na esteira das decisões tomadas ou realizadas. A realidade humana é confusa e ambigua, e também as decisões morais, diversamente dos princípios éticos abstratos, são ambivalentes.

Saber que isso é verdade (ou apenas intuí-lo, ou continuar como se o soubesse) é ser pós-moderno. A pós-modernidade, pode-se dizer, é a modernidade sem ilusões (o oposto disto é que a modernidade é a pós-modernidade que recusa aceitar sua própria verdade). As ilusões em questão concentram-se na crença de que a “confusão” do mundo humano não passa de estado temporário e reparável, a ser substituído mais cedo ou mais tarde pelo domínio ordenado e sistemático da razão. A verdade em questão é que a “confusão” permanecerá, o que quer que façamos ou saibamos, que as pequenas ordens ou sistemas que cinzelamos no mundo são frágeis, temporários, e tão arbitrários e no fim tão contingentes como suas alternativas. (…) A aceitação da contingência e do respeito pela ambiguidade não são fáceis; não há razão para depreciar seus custos psicológicos.

***

Nenhum padrão universal, portanto. Nenhum olhar sobre os ombros das pessoas para ver o que fazem outras pessoas “como eu”. Nada de ouvir o que elas dizem que estão fazendo ou devem estar fazendo, seguindo depois seus exemplos, absolvendo-me por não fazer qualquer outra coisa, nada que os outros não fariam, e gozar de consciência limpa no fim do dia. De fato, olhamos e ouvimos, mas não adianta, pelo menos não adianta radicalmente. Apontando o dedo para fora de mim mesmo – “é isto que as pessoas fazem”, “é assim que as coisas são” – não me salva de noites indormidas e de dias cheios de autodepreciação. “Fiz me dever”, pode às vezes tirar os juízes de meu encalço, mas não põe em debandada o júri daquilo que eu, por não ter sido capaz de apontar meu dedo a ninguém, chamo de consciência. “O dever de todos nós”, que conheço, não parece ser a mesma coisa que “minha responsabilidade”, que sinto.

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Comentários»

1. rubens osorio - 1 outubro, 2009

Texto interessantíssimo; me deixou com água na boca para ler. Realmente, a era pós-moderna não é fácil: até sua definição é problemática! O que posso dizer é que pensávamos que seria um grande obstáculo à fé, mas não. É apenas diferente. E, creio eu, mais relevante.

2. Rondinelly - 4 outubro, 2009

O velhinho polonês acabou com a festa de quem vibrava em imaginar que o pós-moderno fim dos deveres seria o cômodo fim das responsabilidades. O grande dilema é realmente que a responsabilidade a que sou vocacionado não têm coincidido com o dever a que sou subjugado: o Outro agora se posiciona como interlocutor!

3. Janete Cardoso - 13 outubro, 2009

Acho que tenho muito chão pela frente, até assimilar o que seja um homem pós moderno.

Por enquanto baseio minha vida na experiência mesmo, observando que “o que o homem plantar, isso ceifará” (Bíblia), “toda ação traz reações”(física) “aqui se faz, aqui se paga” (povão), tem também a lei kármica do retorno (religiões orientais). Parece que nesse ponto, parecem dar as mãos. E no próprio dia a dia, é isso que testemunho.

Mas quem sabe? Enquanto há vida, a gente aprende.


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