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Encarnação 15 julho, 2009

Posted by Alysson Amorim in Cristianismo, Fragmentos, Teologia.
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Rasgar o mar com a adaga flamejante de um general; arrepender-se; fazer de uma mulher matéria-prima para um bloco salino – tais são operações impossíveis a um Ser eterno.

A mulher corre, olha para trás e é acorrentada ao solo, toda dura e toda branca como eram seus dentes. A operação, se ao final paralisa, tem um final e tem uma gênese – é uma operação realizada na delirante sucessão a que chamamos tempo. Do mesmo modo, o arrependimento implica a negação de um momento em outro e a mão que feriu o mar foi a mesma que fechou a ferida em um segundo momento.

A eternidade, conforme concebida pelos homens, não é em nenhuma de suas variações a mera agregação de passado, presente e futuro – é, na sentença de Borges, “algo mais simples e mais mágico: é a simultaneidade desses tempos.” Na eternidade a sucessão não existe.

Deus, enquanto Ser eterno, vê-se impedido de vestir a capa do general; sofre da terrível limitação que lhe impõe a eternidade. Criou os homens a sua imagem e semelhança e despediu-os para longe de suas mãos. Seu pesadelo é, sendo onipotente, nada poder fazer no fluxo do rio que ele próprio pariu.

Aquele Deus que queima cidades e empunha armas é filho da ânsia dos homens.

O tema do auto-esvaziamento divino sugere uma fascinante inversão: Deus faz-se à imagem e semelhança dos homens; despe-se da onipotência para poder lançar-se no fluxo alucinante da história; troca o poder absoluto pela lágrima frágil. Tudo o que temos do Deus esvaziado é a lágrima rastejando em um rosto solitário, é o sangue cobrindo um braço impotente.

Pedir o estancamento do sangue, do nosso sangue, é não compreender o sentido profundo da encarnação. Quando a divindade decide despojar-se da imobilidade e sentir no peito a correnteza inapelável dos anos, o amor é sua força motriz (Jo 3:16), e o espaço e o tempo os elementos que compõem o cenário de sua atuação (Jo 17:18).

O sentido profundo da encarnação está em que o Deus encarnado não pode mais que o samaritano, mas pode mais – muito mais – do que o Deus eterno.

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Comentários

1. Roger - 16 julho, 2009

Alysson,
nada como mais uma preciosidade de sua pena para nos consolar da trágica derrota de ontem. E trocando o tema tocamos a vida pra frente nesse fluxo.
Saudações belohorizontinas, meu brother,

2. Luiz Henrique (Lou) Mello - 16 julho, 2009

Algumas obras se eternizam porque são acertadas. É o caso do livro “O Deus que age”, um acirrador da discussão Deus faz ou não faz. Você precisou o lugar do sagrado na ação e mesmo o Deus que faz, não ousou ser como o Deus que não faz e tratou de resolver tudo ele próprio.

3. Janete Cardoso - 16 julho, 2009

Inevitavelmente, lembrei-me daquela enorme discussão, no seu adormecido blog sobre a Kenosis ter ou não aniquilado com a transcedência de Deus. Minha opinião coincide com a do João, mas dei boas risadas ontem, relendo. Pricipalmente o David convocando uma oração pela visão do senhor Amorim rsrsrrs não surtiu efeito.

4. rubens osorio - 16 julho, 2009

O Roger anda meditando sobre se Deus sabe o futuro, e Borges lhe trouxe, através do teu amarelo fosco, um pensamento a mais sobre o assunto: em Deus, tudo é simultâneo, e Ele só faz parte da história porque abriu mão da onipotência e onisciência e se fez Homem…
Belo texto, Alysson!

5. Donizete Aparecido Braga - 17 julho, 2009

que lindo comentário que bela visão a respeito do Deus que esvaziou-se de sua onipotencia; para se tornar um de nós, assumindo nossa umanidade, e vivenciando nossos sofrimentos

6. Bruno Siqueira Moreira - 17 julho, 2009

Uau, excelente texto. Achei seu blog pelo site do pr. Ricardo Gondim..
Fico feliz de ver pessoas que tentam compreender Deus (talvez compreender não seja a melhor palavra), contemplá-lo, de uma forma distinta daquela propagada (forçada?) pelo pensamento institucionalizado desde calvino.
Abraços

7. Marcio Uno - 17 julho, 2009

Lindo Alisson, poético e profético ao mesmo tempo. Grande abraço!!!!

8. Junior Mello - 17 julho, 2009

Bom final de semana a todos, que Deus sempre por misericórdia nos de força para caminhar nesse mundão…Deus abençoe todos vocêis

9. hernan - 17 julho, 2009

No momento estou incrédulo. Já não consigo ver o sentido dessas coisas com clareza. Estou confuso. Onde está Deus, se é que pode estar além da poesia?
Que pergunta descabida…
Já não sei se Jesus é Deus encarnado em outra medida além daquela em que nós também o somos. Também somos deuses.
Estou condenado à dúvida.

10. Angelo José - 19 julho, 2009

Bom, falamos muito sobre Deus mas, quase não se pergunta o que é Deus. Falamos muito sobre o amor mas, quase não se pergunta o que é o amor.
O tempo é uma intuição humana; só existe na alma e só se explica em relação à alma. Antes da criação não havia tempo; Deus, portanto, criou também o tempo. O tempo existe como intuição, é o presente do presente. Como memória, tempo é o presente do passado. Como expectativa o tempo é o presente do futuro. O tempo passado não é mais, o futuro não é ainda, e o presente é contínuo devir.

11. Rondinelly - 19 julho, 2009

Eita, acho que não consigo comentar, nem sei se me falta ou me sobra o que dizer (talvez uma mistura estranha das duas coisas). Um texto sobre Deus(es) é mais verdadeiro assim, quando sabe que só se aproxima do que possa ser a Verdade, poeticamente; e, por isso mesmo, provoca rubores, silêncios, espasmos, alucinações filosóficas em que o lê.

robson - 19 julho, 2009

vc disse tudo cara!

12. Frankvaldo - 19 julho, 2009

oo

13. Frankvaldo - 19 julho, 2009

Como um Deus incompreensível pode ser cognoscível, ou até mesmo imanente? Como entender esse um Deus que é Absconditus e notório ao mesmo tempo? Como entender um Deus monoteísta que se revela em três pessoas ao mesmo tempo? como entender o Ser de Deus? será que podemos falar com segurança de Deus, ou podemos apenas mergulhar da inata busca de um sentimento religioso que está intríseco no cerne da natureza humana. Dessa forma podemos mergulhar nas ondas do relativismo religioso e poder outorgar que Deus é relativo quando comparando-se os vários discursos existentes na complexa natureza humana, será mesmo que podemos falar em um Deus verdadeiro, ou podemos dizer que podemos encontrar Deus no cerne de toda natueza? em fim, ainda prefiro o método socrático, “sei que nada sei”

14. Angelo José - 20 julho, 2009

Frankvaldo, está se referindo aos métodos que Sócrates no confronto com os sofistas nas praças criou: a ironia: através da expressão “sei que nada sei”, ele (Sócrates) tentava desmontar as certezas dos seus interlocutores mostrar o desconhecimento, para libertar da ignorância. a maiêutica: método através do qual, mediante perguntas e respostas, pode-se tirar de si o conhecimento. O pressuposto da meiêutica é a eternidade e a imortalidade da alma, e o fato de que a alma, sendo eterna, já traz consigo todo conhecimento. A maiêutica trata do esforço de tirar de dentro de si todo saber. E se afirma como base da teoria da reminiscência, segundo a qual o conhecimento, que a alma traz consigo desde toda eternidade, é lembrança. “sei que nada sei” para Sócrates era: que ele sabe que sabe e sabe que os sofistas na sabiam.

O texto do Alysson se assim o referido autor me permite, é um mergulho no mundo perigoso da reflexão mas que vale a pensa.

Um abraço amigo.

15. Samuel Sobral - 24 julho, 2009

Olá! poeta te descobri através do site do também poeta Ricardo Gondim, parabéns pelo texto, penso que é isso não quero entender Deus, apenas senti-lo ja me alivia a alma, não seria esta a essência da união hipostática um Deus que se fez homem pra que o homem voltasse a sentí-lo, pois na “queda” este homem não deixou de sentí-lo? não sei, também não importa saber, eu o sinto, e, a cada meditação e dúvida eu creio mais nEle estranho paradoxo mas bela verdade.
Um abraço
Samuel Sobral

16. Fanuel Santos - 29 julho, 2009

Sublime… Estou encantando com tamanha sensibilidade e acuidade teologica…

17. Suênio - 5 agosto, 2009

Ótimo texto! ele me trouxe a memória uma frase de Simone Weil: “A criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retirada, de renúncia. Deus e todas as criaturas é menos que Deus sozinho. Deus aceitou essa diminuição. Esvaziou de si uma parte do ser. Esvaziou-se já nesse ato de sua divindade. É por isso que João diz que o Cordeiro foi degolado já na constituição do mundo.”

abrass

18. Solon Diniz Cavalcanti - 5 agosto, 2009

Querido(s) irmão(s), que Deus tenha piedade da nossa arrogância. Jesus chorou!

19. Paulo Cunha - 14 agosto, 2009

Engraçado.
Não está faltando nada na teologia-poética-filosófica do Alysson?
Jesus Cristo não transformou água em vinho, não curou leprosos, não abriu olhos aos cegos, não restaurou e endireitou paralíticos, não ressuscitou mortos, não deteu o vento e não aquietou o mar revolto, não expulsou demônios, etc, etc, etc?
Deus não estava em Cristo? Não é Jesus a plenitude do Deus invisível?
Onde, na Bíblia, se vê ou se entende que Deus após ter criado os seres humanos os despediu para longe de Suas mãos?
Rm. 3.23 diz que porque todos pecaram é que todos foram destituidos da glória de Deus.
E o que dizer do que fala o profeta Isaias: “Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça” – Is. 59.1-2?
Alysson, veja o que você escreveu: “Deus… sofre da terrível limitação que lhe impõe a eternidade. Seu pesadelo é, sendo onipotente, nada poder fazer no fluxo do rio que ele próprio pariu”.
Ô Alysson… Você tá de brincadeira ou está delirando?
Você até que escreve bem, mas o problema é que o que escreve não é verdadeiro.

20. Roger - 15 agosto, 2009

“Toda notoriedade é alvo de críticas, mais por inveja do que por conteúdo. ”
Remedo Rubinho no comentário que deixou em nosso Blog.
O que Alysson escreve (e não quero defendê-lo pois ele sabe fazer isso muito bem ou no silêncio ou com a sua argumentação sempre coerente) é bem verdadeiro.
O problema é que esse tipo de ignorância em um comentário nos atinge indiretamente.
Lembre-mos que a verdade não só é relativa, como deve ser relativizada. Uma para fazer-se entendida por aqueles que apreciamos outra para não ser entregue de bandeja para idiotas que usam a Bíblia como manual ciêntífico de fé – ou nas palavras infelizes que ficaram na tradição evangélica: compêndio de “regras de fé e prática”.
Com um pouco mais de lucidez o autor do comentário anterior veria que tanto o texto sagrado em seu todo aponta para um Deus que se humilha e se humaniza sem, contudo, negar-se a si mesmo ou deixar de ser Deus, assim como nosso prezado escritor destaca aquele aspecto sem negar este.
Por isso cabe-me somente um pensamento, as palavras Rubinho nunca foram tão verdadeiras: vemos a inveja como real motivação de Paulo Cunha.

21. Paulo Cunha - 15 agosto, 2009

Olá, Roger.
Percebo que você sabe julgar muito bem a alma humana (desculpe a minha ironia). Se você fosse um psicólogo (e espero que realmente não o seja), você morreia de fome.
Vejo que tem, também, bastante conhecimento de sentidos de palavras como: inveja e idiotas (inclusive passa a idéia – e só passa a idéia – de ser por experiência própria – talvez agregados à alguma decepção e/ou frustração).
Mas, como você disse, isso tanto é relativo como lhe peço que relativize tudo que escrevi aqui.
Que Deus o Reto Juiz julgue em Sua excelsa sabedoria e por Sua Toda-Ciência, tanto o meu como o seu coração.

22. Solon Diniz Cavalcanti - 15 agosto, 2009

Continua achando que o problema é de arrogância, Paulo avisou: “ninguém ultrapasse o que está escrito”.

23. Roger - 15 agosto, 2009

Minha pobre criança, naninanão, você não precisa se desculpar não. Não pelas ironias.
A experiência que tenho tido com a inveja e idiotices são as que tenho, de fato, encontrado diariamente em comentários de baixo teor intelectual como o seu.
Veja bem, já relativizei seus postulado à suas (des)faculdades.
Realmente, o seu tratamento psicológico, eu deixo a cargo de um especialista. Se nã tiver nenhum, peocure urgentemente.
A boa e velha escapatória: Que Deus… Seja homem, cara. Examine-se a se mesmo! Isso lhe manteria o suficientemente ocupado para não vir aqui escrever babozeiras.

24. Solon Diniz Cavalcanti - 15 agosto, 2009

Roger, se toda verdade é relativa, então vamos jogar a Bíblia na lata de lixo, ok? Disse Jesus: “EU Sou A (única) verdade”
Continuo achando que o problema é de arrogância, Paulo avisou…

25. Roger - 15 agosto, 2009

Cavalcanti,
você diz não se deve ultrapassar o que está escrito e depois vem e como num passe de mágica, entre parênteses, joga um “única”, entre “sou a” e “verdade”, ultrapassando, atropelando e deturpando as palavras de Jesus.
Que você seja assim tão incoerente não é de se espantar, mas que não tenha nenhum temor diante daquele que queres como mestre, isso me deixa perplexo.
No seu caso, o instrumento que usas para medir se volta instantaneamente contra você mesmo e aponta: o problema é de arrogância.
Também tenho uma pergunta: Se Jesus fosse a única verdade, como você diz, por que ainda não chogaste sua Bíblia na lixeira?

26. Paulo Cunha - 15 agosto, 2009

Roger…
Me reponda (se quiser): Você é realmente cristão? É realmente um discípulo de Cristo Jesus?
Por que você é tão áspero e tão insultante?
“Seja homem”, você me orienta.
Por acaso você sabe realmente o que é ser homem?
Se suas letras são tão insultantes e sujas, imagino que sua boca e coração também o devam ser.
Se ser intelectual e ter “faculdades” gera esse tipo de comportamento e expressividade, então prefiro andar com os simplices.
Mas, independente do que você me responda (ou me ataque), não vou mais me dirigir a você. Não vale a pena.

27. Solon Cavalcanti - 15 agosto, 2009

Roger, Jesus, a verdade, te ama! Porém não ama a sua aspereza. Quando conhecer a Verdade então verdadeiramente serás livre. Jesus tem uma vida nova pra você, de paz, felicidade, uma realização Divina ao dispor do homem. Não é maravilhoso, Roger?
Um dia, Roger, nós seremos irmãos em Cristo, e você poderá desfrutar de uma paz que excede a todo entendimento. Jesus, o Príncipe da Paz!

28. Roger - 15 agosto, 2009

A palavra mais amena que o Nazareno teria para vocês, Cunha e Cavalcanti, é que vocês são nécios, demônios ou filhos do diabo.
Nisto estou mesmo longe de ser chamado dicípulo daquele israelita, mas quem sabe ainda chego lá?
Que Alá o todo poderoso tenha misericórdia de vossas vidas!
E que a sabedoria de Buda vos ilumine!

29. Solon Cavalcanti - 15 agosto, 2009

Tá respondido, agora todos sabem quem você não é!!!! Viu, amado irmão Cunha, nada há encoberto que a luz não mostre.

30. Solon Cavalcanti - 15 agosto, 2009

Roger, o filho das trevas!


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