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Instituição e movimento 7 junho, 2009

Posted by Alysson Amorim in Citações, Cristianismo, Teologia.
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David J. Bosch, escrevendo em “Missão transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão”

Há diferenças essenciais entre uma instituição e um movimento, diz H.R. Niebuhr (seguindo Bergson): aquela é conservadora, este é progressista; aquela é mais ou menos passiva, sucumbindo a influências externas, este é ativo, influenciando ao invés de ser influenciado; aquela olha para o passado, este olha para o futuro. Além disso, poderíamos acrescentar que  aquela é ansiosa, ao passo que este está disposto a assumir riscos; aquela resguarda fronteiras, este as cruza.

Percebemos algo dessa diferença entre uma instituição e um movimento se compararmos a comunidade cristã de Jerusalém com a de Antioquia na década de 40 do século 1 d.C. O espírito pioneiro da igreja de Antioquia ocasionou uma inspeção por parte de Jerusalém. Estava claro que a preocupação do partido de Jerusalém não era a missão, e sim a consolidação; não era a graça, e sim a lei; não cruzar fronteiras, e sim fixá-las; não a vida, e sim a doutrina; não o movimento, mas a instituição (…)

Num estágio incipiente havia indicações de que dois tipos separados de ministério estavam se desenvolvendo: o ministério estabelecido de bispos (ou anciãos) e diáconos, e o ministério móvel de apóstolos, profetas e evangelistas. O primeiro tendia a impelir o cristianismo primitivo a tornar-se uma instituição, e o segundo retinha a dinâmica de um movimento. Nos primeiros anos, em Antioquia ainda havia uma tensão criativa entre estes dois tipos de ministério. Paulo e Barnabé eram, ao mesmo tempo, líderes da igreja local e missionários itinerantes, e aparentemente retomavam seus deveres congregacionais com naturalidade quando voltavam a Antioquia. Alhures, todavia (e certamente num estágio posterior também em Antioquia), as igrejas ficavam cada vez mais institucionalizadas e menos preocupadas com o mundo fora de seus muros. Em breve tiveram de esboçar regras para garantir o decoro de suas reuniões cultuais (cf. 1 Co 11:2-33; 1 Tm 2.1-15) para estabelecer critérios para o clérigo ideal e sua esposa (1 Tm 2:1-13) e para lidar com casos de falta de hospitalidade para com emissários da igreja e de sede de poder (3 João). Com o passar do tempo assuntos intra-eclesiais e a luta pela sobrevivência como grupo religioso separado consumiam cada vez mais a energia dos cristãos.

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Comentários»

1. Felipe Fanuel - 7 junho, 2009

Missão transformadora está entre os melhores livros que li em minha breve vida.

2. Janete Cardoso - 7 junho, 2009

E o “Ide e pregai o Evangelho” foi substituido pelo “vinde e ouvi qualquer coisa, menos Evangelho”.

3. Rondinelly - 7 junho, 2009

Sempre tive uma queda pelo evangelho escrito, polido e de cabelo arrumado da Instituição; mas um dia se me apresentou o Evangelho vivido bufão, de chinelos e comendo espetinho na esquina. Troquei, não sem medo, o esmero pela simplicidade, embora a avaliação diária não sejá lá muito satisfatória. Preciso esquecer docemente o que está escrito, pra ver como é que fica se for vivido. Voltei, mineiro. Falante, do mesmo jeito…

4. tuco - 8 junho, 2009

Perfeito.

5. André Egg - 31 julho, 2009

Em resposta ao Rondinelly, digo que não sei quem teve a idéia de Gerico de “escrever O Evangelho”. Ele não pode ser escrito. No tempo de Cristo ele era apenas vivido. Tentaram transformá-lo em norma escrita, o que foi sempre um problema, especialmente depois do século XVI, quando este evangelho escrito deixou de ser uma raridade obscura e passou a receber milhões de cópias pelo método da imprensa. Deu no que deu.

Acho que foi com o Robson Cavalcanti que li que todo movimento tende a se institucionalizar – é o que se percebe na história do cristianismo.

Sobre Antioquia, primeiro foram perseguidos pelos de Jerusalém, conforme narra o texto. Séculos depois, foram perseguidos pelos de Alexandria que defendiam um cristo mais pra divino que para humano. Os bravos antioquienses (será assim que se diz?) defenderam até as últimas o cristo-homem – o único de existência mais ou menos comprovável, e cujo impacto foi muitas vezes convenientemente submerso pelas cristologias divinizantes – posteriormente hegemônicas e hoje totalmente desacreditadas nos meios teológicos e historiográficos sérios.


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