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Ainda que Deus não existisse 20 abril, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos, Teologia.
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Etsi deus non daretur [Ainda que Deus não existisse]. Com a fórmula, Hugo Grotius procura legitimar seu direito natural sem recorrer a ente fundador que não seja a própria razão humana. Mas não é tudo: emana da sentença aquela pujante aspiração moderna por autonomia. Ainda que Deus não exista ou ainda que ele permaneça em sepulcral silêncio a vida deve ser afirmada.

Mais uma vez, não é tudo. A hipótese de Grotius e da modernidade pode ser anterior ao tempo: a narrativa bíblica surpreende o próprio Deus brincando com ela. O Deus cumulado de potências pela linguagem, entronizado pelo temor da carne ante o mysterium tremendum, enfim, o Ser Supremo abandona as alturas metafísicas e decide pousar os pés na poeira de Hamlet e Adão. A brincadeira consiste no fato da divindade entrar no cenário com a carne impermanente de um ator comum: quem pisa no palco não é o Ser revestido de éter, não é um Deus ex machina. A primeira fala de Deus na comédia humana é o choro de um corpinho vulnerável.

Não para aniquilar o sofrimento, senão para tomar parte nele; não para interromper com um definitivo milagre a via crucis humana, senão para nela ingressar com dentes, unhas e nervos. O Deus que anda conosco e nos oferece ajuda é lastimável – e não poderia ser melhor. Sua fraqueza sussurra-nos continuamente a fórmula de Grotius e convoca-nos a maioridade, um tempo em que a dor será amenizada pela carícia da fina mão de uma moça, não por mirabolantes operações celestiais, em que ela se tornará suportável depois do abraço suado e ordinário de um camarada, ao invés de desvanecer ao toque fantasmagórico de pululantes milagres. Um tempo em que não precisaremos alienar por preço vil nossa vontade a um Ser que compete com o homem sugando irresistivelmente suas forças.

Ainda que Deus não existisse, restar-nos-ia o calor consolador e inextinguível do sopro que um dia se fez carne.

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Comentários»

1. tuco - 20 abril, 2009

“O Deus que anda conosco e nos oferece ajuda é lastimável – e não poderia ser melhor.”

Perfeito.

2. Lou Mello - 21 abril, 2009

Sempre que tento sucumbir à idéia do “Deus não existe” começo vê-lo em toda parte e percebo essa tarefa como impossível.

3. Janete Cardoso - 21 abril, 2009

“Não para aniquilar o sofrimento, senão para tomar parte nele”
Essa é a maior verdade que já li. Mas Ele disponibiliza o amor, como ferramenta para amenizar a dor. 🙂

“Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe. ”

Guimarães Rosa em
Grande Sertão: Veredas

4. André Egg - 21 abril, 2009

“a maioridade, um tempo em que a dor será amenizada pela carícia da fina mão de uma moça, não por mirabolantes operações celestiais, em que ela se tornará suportável depois do abraço suado e ordinário de um camarada, ao invés de desvanecer ao toque fantasmagórico de pululantes milagres”

E “ainda que Deus não existisse” seria possível vê-lo ou imaginá-lo nessas coisas.

Acho que o exercício de pensar “se Deus não existisse” é saudável para os cristãos, acostumados a muitas certezas paralisantes.

5. rubens osorio - 22 abril, 2009

Ainda que Deus não existisse, existiria a figura de Jesus, inescapável e incomensurável.

6. Ainda que Deus não existisse « Laion Monteiro - 24 abril, 2009

[…] fonte: Amarelo Fosco […]

7. Leonardo - 2 junho, 2009

“Deus não cobra nada do homem que não tenha cobrado de si mesmo. Ele se submeteu a toda experiência humana, desde as triviais irritações da vida familiar, as duras condições de trabalho e a falta de dinheiro, até os piores horrores da dor e humilhação, derrota, desespero e morte” (Dorothy Sayers)

…E por haver sofrido na carne, sentido na pele, ele é empatico ao sofrimento humano. É ele quem participa das nossas dores. Cada lágrima que derramamos é uma lágrima dele. Aquele que abriu mão da glória celeste para estar entre os maltrapilhos deste mundo, ainda é empático ao sofrimento humano. “Eis que estou convosco todos os dias” disse Jesus.

Estamos partidos? Ele foi partido, como pão, por nós. Somos desprezados? Ele foi desprezado e rejeitado pelos homens. Bradamos que não agüentamos mais? Ele foi homem de dores e experimentado no sofrimento. As pessoas nos traem? Ele mesmo foi vendido pelo traidor. Nossos relacionamentos mais caros estão partidos? Ele também amou e foi rejeitado. As pessoas se afastam de nós? Esconderam o rosto dele, como [se ele fosse] um leproso. Desceria a todos os nossos infernos? Sim, ele o fez. Das profundezas de um campo de concentração nazista, Corrie Ten Boom escreveu: “Não importa quão profundas sejam as nossas trevas, ele é ainda mais profundo”. Ele foi morto a gás em Auschwitz. Escarnecido em Soweto. Injuriado na Irlanda do Norte. Escravizado no Sudão. É aquele que gostamos de odiar e que escolheu nos devolver amor. Ainda há um ponto de interrogação contra o sofrimento humano, mas em cima dele podemos estampar outra marca, a cruz, que simboliza o sofrimento divino. “A cruz de Cristo […] é a única autojustificação de Deus em um mundo como o nosso” (Peter J. Kreeft).

Paz e bem!

Leonardo Gonçalves


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