jump to navigation

Não para sempre 14 março, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos, Poesia.
Tags:
trackback

Um das formas do egoísmo está em olhar para si de modo distorcido, se contemplar aprisionado no espelho da água e ali permanecer paralisado qual Narciso. Nosso reflexo deve ser bebido na concha das mãos; a água deve nos levar adiante, não nos paralisar.

Ninguém deve sacrificar a contemplação e a vida interior e ninguém deve sacrificar ninguém por nenhuma dessas coisas. Quando o poeta verte sua intuição em metáfora ele bebe da água e avança alguns passos, ele grava sua mitologia na pedra e liberta seus monstros em praça pública. Narciso não pode escrever poemas.

É uma figura inarredavelmente pública, o poeta. Drummond é um homem mais público que Vargas. Em um poema de Carlos é possível divisar uma sua lágrima e quiçá um pedaço de sua orelha: ele está todo ali, público como uma lua cheia.

Só depois de constatar que seu coração era “maior que o mundo”, depois de se ver trepidando na água do rio, o poeta pôde dar um passo adiante e desdizer-se: “Não, meu coração não é maior que o mundo / É muito menor. / Nele não cabem nem as minhas dores. / Por isso gosto tanto de me contar. / Por isso me dispo. / Por isso me grito. / Por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias. / Preciso de todos.”

Olhando pra si o poeta acaba por descobrir o outro, o rosto que não é dele e que o afronta: “Sim, meu coração é muito pequeno. / Só agora vejo que nele não cabem os homens. / Os homens estão cá fora, estão na rua.”

Quando morre Clarice Lispector nasce um poema de Ferreira Gullar: “Enquanto te enterravam no cemitério judeu do Caju (e o clarão do seu olhar soterrado resistindo ainda) / o táxi corria comigo à borda da Lagoa na direção de Botafogo / e as pedras, e as nuvens, e as árvores / no vento / mostravam alegremente / que não dependem de nós.”

A morte, ao contrário do sonho interrompido, não extingue o universo. O poeta, acostumado à vida interior, estranha esse fato aparentemente comezinho – e o transforma em poesia. No sonho, tudo existe como extensão quase mística do nosso ser. O fim de um sonho é o fim de um universo. Mas quando Clarice morre, as pedras permanecem tão duras quanto sempre foram, e o poeta encontra aí seu próprio destino. Não é a mera presença em um velório que nos dará a consciência do “ter de morrer”; é preciso antes ter estado presente em si mesmo.

Se quero ver no outro um rosto, preciso primeiro contemplar o meu – mas não para sempre.

Anúncios

Comentários»

1. Janete Cardoso - 15 março, 2009

A água tem também a função de nos revelar e cada um tem seu tempo pra se contemplar.
Alguns precisam se demorar mais e só depois, se abrir para o outro, não vejo necessariamente como narcisismo.
Drummond passou por um processo, para se reconhecer e isso implica perder um universo. Nem todo mundo tira de letra.
Acho que cheguei nesta etapa. Falta me expor num jornal! 😀

te amo.

2. Lou Mello - 15 março, 2009

Não quero nada comigo, a não ser lembar de não me atrapalhar ou fazer o possível para tanto. Quanto aos outros, podemos contemplá-los, se conseguirmos vislumbrá-los.

3. Rondinelly Gomes Medeiros - 16 março, 2009

Quero, ao me ver, que meu rosto seja uma transparência escandalosa, dexando aparecer as silhuetas de tudo que atravessei e do que por mim atravessou. Isso é quando o fim? Por ora, tento me safar da minha presunção de opacidade.

4. Conta Gotas - 18 março, 2009

Interromper o sonho é como morrer, mas sem ter o descanso da morte.

5. bete pereira da silva - 19 março, 2009

Menino do céu, bebi de um trago!

E vejo você finalmente largando as amarras (que foram necessárias), dos teus modelos inspiradores. Parabéns por isso também.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: