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A fera de olhos inexistentes 15 fevereiro, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos, Teologia.
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Com treinamento certo e instrumento adequado posso apunhalar um tigre rajado e anular a ameaça de seus dentes. Mas não é toda criatura selvagem que exibe a mandíbula tenaz de um felino ou o marfim plácido de um elefante; e nem toda fera selvática passou pela caneta de Adão. Quando o adversário tem um nome e uma mandíbula, confiar na destreza do nosso braço nem sempre implica em imprudência.

É perfeitamente possível vencer o medo com uma flecha, como faz o pequeno índio que dá os primeiros passos na imemorial arte da caça. Mas nem o maior dos índios, nem o mais colorido e experiente é capaz de desafiar e vencer o trovão que ruge. É que na aldeia o trovão é uma ameaça sem rosto, e quando a fera nos fita com olhos inexistentes então nenhum metal e nenhum cavalo pode nos salvar. Estamos nus.

Moisés com seus olhos de carne não pôde encarar a sarça ardente; e depois, quando moeu o bezerro de ouro, o fez em respeito à sarça que não fitou. O bezerro podia ser encarado e até estilhaçado: era um ídolo. O homem forja ídolos para costurar um rosto na sarça ardente, para expulsar dela a ardência e torná-la um objeto ao alcance de sua espada e de seus lábios. O ídolo anula o assombro e garante a manipulação; é a perfeita proteção contra a ameaça do não-ser.

Nos encastelamos em ídolos monumentais, erguidos com verbo e concreto e bytes, o que – seja dito! – não nos protege completamente contra o bote daquela terrível fera que Adão não nominou.

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Comentários»

1. Felipe Fanuel - 16 fevereiro, 2009

Cara,

Nada mais, digamos, tillichiano que falar em “ameaça do não-ser”. Você deve ter lido A coragem de ser e sabe bem disso. O problema é que isso é sempre algo a ser superado, algo a ser vencido. Não se assume a ambiguidade como uma característica inerente ao cotidiano. Logo, há sempre uma realidade melhor que essa realidade, aonde poderíamos chegar de alguma maneira. Creio que a idolatria nasce aqui. Tillich denunciava com unhas e dentes a capacidade humana de produzir ídolos, mas ele não percebia que ao falar de superar a ameaça do não-ser ele estava pisando em ovos. Isto porque é neste lugar que os ídolos são produzidos. Toda vontade de superar uma condição é em si uma tentativa de se “elevar”. Ora, se Newton já nos ensinou que é impossível a elevação sem os efeitos da gravidade, por que insistimos em produzir artifícios capazes de nos mandar para outro mundo que não esse? Entenda-me não estou negando o “espírito”, a dimensão última da realidade. Ela existe, ou melhor, ela é, ela está aí. Só que ninguém pode afirmar onde ela “irrompe”. Trata-se de uma surpresa, mais acidental possível. Jamais poderemos garantir que temos a fórmula para tal supremo acontecimento. Por que? Porque somos humanos, demasiadamente humanos. Você problematizou bem esse assunto.

Um abraço.

2. Janete Cardoso - 16 fevereiro, 2009

Interessante e é verdade. Tendemos não só a costurar rostos no sagrado, como também nos demônios… o que não é concreto a gente inventa.

3. Rondinelly Gomes Medeiros - 17 fevereiro, 2009

Mas. e o fato de que “tudo é real, porque tudo é inventado”?

4. Janete Cardoso - 17 fevereiro, 2009

Esse assunto, borbulhou em mim o dia inteiro…
A idolatria nasce, da tentativa de não encarar a ameaça do “não ser”. Amenizar o assombro de encarar “Aquele que é”.
Ao passo que costurar um rosto no mal, constitui a tentativa de ser como Deus (não foi esta a pretensão de Adão?), ou usurpar o lugar do juíz. Porém, tudo o que o homem consegue, é se tornar semelhante ao acusador: “foi a mulher que me deste!”

5. A fera de olhos inexistentes « Laion Monteiro - 18 fevereiro, 2009

[…] Alysson Amorim, no blog Amarelo Fosco […]


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