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A última utopia 29 janeiro, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos.
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Deixando atônitas as barbas da tradição, um imperador derrete sinos para forjar espadas. O metal que badalava com zelo e piedade é o mesmo que agora tilinta colericamente no campo de batalha.

Entre os padres reunidos na saleta um se destaca pela estatura mitológica e pela ausência do olho esquerdo. Com os dois braços estendidos na mesa, Aragão de batina e em tempos de guerra é percebido mesmo pelos companheiros como um desperdício de testosterona.

Os religiosos dividem-se em dois grupos e um homem. O primeiro grupo é enérgico na defesa do imperador e sustenta entre argumentos e gestos que os sinos não existem sem as espadas. “A paz é um fruto de sensível pele cuja semente é a guerra. Os sinos só podem dobrar ao meio-dia de hoje se ao meio-dia de ontem as espadas se chocaram”, sustentava Laio envolto pela fumaça de seu cachimbo.

Guido, que compunha o segundo grupo, discordava com veemência, embora sua voz serena tornasse difícil a identificação desse ardor: “Os sinos devem permanecer sinos; se o metal algum dia serviu ao fabrico de espadas é porque um mau coração lhe imprimiu esse uso nefasto; e não será repetindo esse gesto que curaremos o mundo.”

Alguém do primeiro grupo observou que se o sinos e mesmo as cruzes não se convertessem já em espadas cristãs, amanhã tomariam inexoravelmente a forma de espadas estrangeiras e bezerros de metal. Essa alerta foi o gatilho de uma vigorosa migração para o grupo de Laio.

Aragão permanecia calado em sua pose de herói desperdiçado. Havia participado de demasiadas guerras para aderir ao primeiro grupo e de demasiadas discussões para aderir a algum. O que ele teria para dizer e não disse é que na guerra os sinos não deveriam colaborar com a matança, mas tampouco deveriam badalar.

Nas antigas batalhas qualquer soldado ligeiramente prudente temia a espada e o furor de Aragão: um de seus olhos foi comido pelo homem que logo depois perdeu os dois para os dentes impossivelmente brancos do guerreiro. Não trouxe consigo das guerras culpa ou medalha; trouxe desalento. Tornou-se padre não para expiar seus pecados, mas por acreditar que poderia achar na batina o que não achou na espada. Estava errado, e isso era o que mais o perturbava.

Em algum momento caloroso da discussão o homem mitológico se ergueu. Todos se calaram. Era indubitavelmente um guerreiro não fosse pelo olho remanescente, um assombroso depósito de ceticismo.

Marchou para a guerra e ali deixou-se morrer com as unhas tingidas pelo carmesim da chaga que abraçou deliberadamente como sua última utopia.

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Comentários»

1. loumello - 30 janeiro, 2009

Onde fica essa guerra?

2. bete - 30 janeiro, 2009

Fálico não?

3. Paulo Brabo - 31 janeiro, 2009

E sobre o túmulo do herói tombado observadores arrependidos ergueram o templo de uma nova e bem-intencionada religião, o caminho da terceira via. A última utopia de um é a primeira bandeira de outros.

4. Janete Cardoso - 31 janeiro, 2009

“na guerra os sinos não deveriam colaborar com a matança, mas tampouco deveriam badalar.”

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa, ou como o sino que tine.”


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