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A terceira filiação 20 janeiro, 2009

Posted by Alysson Amorim in Fragmentos, Teologia.
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Mateus inaugura seu Evangelho com um curioso paradoxo. O princípio é que um homem ou mulher tenha dupla filiação; o protagonista de Mateus tem tripla. Quando Ezequiel nasce sabe-se que é filho de Capitu e de mais alguém. A filiação é dupla, malgrado uma delas seja duvidosa: furo que a pena de Machado deliberadamente não fechou. Na origem de Ezequiel pode existir uma incógnita literária mas não existe nenhum elemento fantástico.

O primeiro evangelista coloca seu protagonista na linhagem de um homem e no ventre de uma mulher, para em seguida, e tudo na mais desavergonhada naturalidade, atribuí-lo uma terceira filiação.

A formulação de Calcedônia, que concebe Cristo em termos puramente fantásticos (aquele que é “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”) decorre descaradamente dessa tripla filiação. A teologia moderna procurará ora explicar em termos racionais e ora rejeitar por inadequação lógica a fórmula calcedonense. Mas cá está ela a nos espreitar com todo seu mistério, não em Calcedônia, senão nas linhas inaugurais da narrativa de Mateus.

O erro é querer interpretar o fantástico como real, é parir o mito e não assumi-lo. O nascimento virginal – a terceira filiação – é um elemento fantástico da narrativa e deve permanecer como tal. O contrário implica em violar seriamente a linguagem mitológica e sua magnífica capacidade de sugestão.

O que logo será narrado exige dos ouvintes a ingenuidade sagaz de um primitivo.

[Continua]

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Comentários»

1. Rondinelly Gomes Medeiros - 5 fevereiro, 2009

Parece que espantava ao(s) escritor(es) de ‘Mateus’ o fato – realmente espantoso – de o Pregador ter se desvencilhado violenta e integralmente do discurso de poder estabelecido, das massificações que a língua impõe ao indivíduo – o que é oportunamente identificado com a herança parental, com a filiação, propriamente dita. Se há algo que determina na construção de um indivíduo, é muito provável que sejam os códigos subjacentes ao idioma, que, não por acaso, talvez, chamamos de “língua materna”. Ieshua, por ter emergido para uma existência construída pela força de seu desejo, uma existência algo como sem-passado, por ter se tecido de uma forma diferente forma=espírito) com os mesmos materiais dos demais (matéria=língua) foi interpretado como tendo adquirido uma nova filiação, uma ascendência própria, um outro espírito, o seu Espírito, ou melhor, dele e de seu Pai. Do nada caótico que é o sujeito desconstruído, surge a edificação cosmética do indivíduo.
O mito é o nada que é tudo, advertiu alguém em Fernando Pessoa. E Alysson, vai ser provocador assim lá no Vaticano, rapá!


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