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A narrativa precisa avançar 9 janeiro, 2009

Posted by Alysson Amorim in Política, Sociedade, Teologia.
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Um mundo cravado pela violência e maculado pelo esparramar indiscriminado do sangue não encontra morada nos planos Daquele que inaugurou a história. Não é na morte de Abel que a narrativa deve terminar. Devemos e podemos dar curso a história: essa é a mensagem que o coração da Tanakh bombeia repetida e vertiginosamente, essa é a esperança que animou Jó em sua desgraça, esse é o convite levantado com paixão pelos profetas. A narrativa, contra toda evidência, continua.

Os profetas sonhavam com o capítulo em que órfãos, viúvas e estrangeiros finalmente seriam acolhidos. A felicidade então se ergueria como uma Torre de Babel invertida, se ergueria da única forma concebível: fruto de trabalho coletivo. Para a Tanakh não existe felicidade que não seja coletiva. As supostas vitórias individuais, as comemoradas felicidades privadas, não passam de doce embuste. O profeta sonha com o dia em que as nações se unirão, transformando as espadas em relhas, as lanças em podadeiras e a guerra em uma prática tão desnecessária quanto anacrônica (Isaías 2:4).

O sangue de Abel marcou Caim. Estamos todos irremediavelmente conectados, berrava fora de si o poeta inglês. A peçonha da peste, atingindo um, a todos afeta. O sangue derramado pela espada colérica de Caim é sangue de Caim.

Jorge Luís Borges disse em algum lugar da sua obra que “teia de homens” foi a melhor metáfora da guerra que a literatura jamais concebeu. A força desta metáfora, hoje entendo, está justamente na idéia de que a guerra a todos indistintamente macula com sangue e ódio. A guerra é um jogo em que todos desgraçadamente perdem.

A tentação do apocalipsismo surgirá no judaísmo tardio, quase como um grito de covardia, uma estratégia para abafar a responsabilidade inegociável que o Talmud requeria: “os justos não têm descanso, não neste mundo nem no próximo”.

Então entra em cena um Nazareno pobre cuja missão era resgatar o que se havia perdido: “o Reino de Deus está no meio de vós”, ele declara.

A narrativa precisa avançar.

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Comentários»

1. Lou - 11 janeiro, 2009

Dr. John Stott em sua primeira passagem por São Paulo, disse que era necessário o Deus de Abraão, Deus de toda a humanidade e não só dos descendentes de Abraão e deveríamos alargar nossas estacas para fora da Igreja.

2. rubens osorio - 11 janeiro, 2009

A narrativa deve continuar… mas os sangues derramados inutilmente doem.

3. Rondinelly Gomes Medeiros - 20 janeiro, 2009

Parece que o perigoso da vida é a travessia do ser personagem que se conta por alheia voz e do ser contador da própria história pelas estórias alheias… A narrativa continua, de qualquer forma…


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