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Rebanho de tolos 25 dezembro, 2008

Posted by Alysson Amorim in Cristianismo, Sociedade, Teologia.
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A obediência que liberta finca suas raízes no interior do homem, é tecida com a voz pura do obediente; pura pois não deve haver nessa voz, para que o ato de obediência seja efetivamente libertador, nenhum fonema que não seja de estrita autoria daquele que obedece.

A resposta mecânica a estímulos exteriores não é obediência e sim tolice, pois tem sua raiz não no sujeito que responde – que é nesse caso nada mais que um espelho a refletir cenas exteriores – mas geralmente em estruturas de poder, que dependem invariavelmente desses espelhos indolentes para manter no palco o seu teatro surreal.

Suprimir a autonomia do maior número possível de homens é não apenas a forma mais eficaz para estender e manter um poder como também uma maneira de obstar a salvação, originada de uma resposta autêntica e livre do homem à proposta de Deus.

O problema com a Igreja é que ela tornou-se uma estrutura de poder e com isso fez-se não uma semeadora da mensagem salvífica, mas precisamente o contrário, um sério obstáculo à divulgação dessa boa nova, uma estrutura que reclama espelhos que reflitam seus caprichos.

A tolice, me ensina Bonhoeffer, “não é um defeito de nascença […] as pessoas são feitas tolas, isto é, deixam-se tornar tolas […] Talvez seja mais um problema sociológico que psicológico. Ela é uma forma particular de influência das circunstâncias históricas sobre a pessoa.” Mais adiante o teólogo alemão, que sofreu barbaramente com a tolice nacional-socialista, afirma: “Qualquer demonstração exterior mais forte de poder, seja ele político ou religioso, castiga boa parte das pessoas, tornando-as tolas.”

O rebanho está inundado de ovelhas tolas que são reproduzidas em toda sorte de divisão celular, em meioses e mitoses. Na conversa com um tolo, lamenta Bonhoeffer – descrevendo com felicidade ímpar a impressão que se tem ao tentar conversar com um crente convicto – “chega-se a se sentir que não é com ele mesmo que se está tratando, mas com chavões e com palavras de ordem que tomaram conta dele. Ele está fascinado, obcecado, foi maltratado e abusado em seu próprio ser.”

Por viver no tempo e espaço em que viveu, Bonhoeffer sabia que “somente um ato de libertação poderia vencer a tolice” e que “uma libertação interior autêntica, na maioria dos casos, somente será possível depois que tiver ocorrido a libertação exterior. Até que esta aconteça, temos de desistir de todas as tentativas de persuadir o tolo.”

O desconcertante é que se queremos espalhar a boa nova o primeiro passo é tirar de cena a Igreja.

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Comentários»

1. Roger - 26 dezembro, 2008

Infelizmente igrejas, muitas vezes, não passam de um grupo de aldultos se fingindo de criançonas comandados por uma criançona fingindo se de adulto.

2. Janete - 26 dezembro, 2008

Depois de vários anos de tolice, finalmente tenho conseguido ser obediente, sem me deixar violentar. Estão chamando de irreverência, mas eu chamo de liberdade.

3. Pr Julio Soder - 29 dezembro, 2008

Tirar a igreja de cena?…Essa é boa!!! É mais ou menos o mesmo que tirar a noiva do casamento.

4. tuco - 29 dezembro, 2008

A idéia é tirar a noiva da masmorra…

5. Cristina Coelho - 29 dezembro, 2008

Só se sente assim quem é religioso, eu já estive assim quando era católica, é terrível mesmo. Senta, levanta, amém…
Você não pode isso, não pode aquilo mas nem sabe o porquê?
Como extender a bênção de Abraão? É uma pergunta que vivo me fazendo, ninguém mais acredita em nada.
O Noivo não gosta disso também por isso teve comunhão pessoal e deu sua vida para que pudéssemos aprender com Ele, igreja é: quando dois ou mais estão reunidos no Nome dEle.
Aqui por exemplo.
bjuxx

6. Wilcomjc - 29 dezembro, 2008

Enfim, lamentavelmente, para pregarmos o “E”vangelho, precisamos, com urgência, atacar o “i”vangelho.

Forte abraço!

Um 2009 de “Libertações”!

7. Janete Cardoso - 30 dezembro, 2008

“A idéia é tirar a noiva da masmorra…”

A Igreja entende a ordem de Jesus, de apascentar, por tosquiar as ovelhas. 😉

8. Anderson - 30 dezembro, 2008

Muito embora tenhamos lutado para afastar a igreja do estado, aquela, como estrutura de poder, permanece um modelo demasiadamente parecida com este. A despeito de ainda acreditar na necessidade de uma estrutura para o estado, esse modelo não me conforta se aplicado à igreja. A idéia de igreja, como teria sido concebida na origem, parece-me próxima de algo que permeia e não algo que estrutura. O que estrutura contém, mas o que permeia compõe.

Meu amigo, perdi a oportunidade de desejar feliz natal. Então, desejo com entusiasmo um feliz novo ano. E será mais um ano na Libertadores! Aquela partida do Celeste, assistida do Buritis, ainda está de pé?

9. Alysson Amorim - 31 dezembro, 2008

Anderson, meu camarada,

Sua lucidez faz falta. Você tem razão: nos seus passos iniciais a Igreja – pelo menos a Igreja de Antioquia, talvez não a de Jerusalém – era menos uma instituição (menos uma estrutura) que um movimento, como nos ensina Niebuhr. A estrutura paralisa e conserva, o movimento flui e se adequa; a estrutura sucumbe a toda sorte de influências, o movimento influencia; a estrutura fere com espada outras culturas, transformando o impulso missionário em impulso colonizador, o movimento é encarnacional e assume em seu impulso missionário o “risco de uma certa reinterpretação” da mensagem.

Um feliz natal retroativo e um ótimo ano novo, meu amigo. E claro que a partida do Celeste está de pé; afinal, nem só de pão viverá o homem. Somos também homo ludens. E dessa vez, aposto, não haverá Boca que nos engula.

Um abraço.

10. Rondinelly Gomes Medeiros - 6 janeiro, 2009

Allysson, caro, lido o texto, deu uma coceira nas idéias. Fui escrever um comentário que, envergonhado, admito: parece com o que fizeram com certos textos bíblicos. O comentário saiu exageradamente grande e sem alcançar o texto comentado. Ei-lo:

Entre o judaísmo de Jesus e o cristianismo de Paulo há um intervalo considerável o bastante para modificar historicamente a configuração do modelo de organização dos futuros seguidores do Evangelho. Intervalo tanto no sentido espaço-temporal quanto no sentido semântico.
O jovem artesão da Galiléia viveu profundamente enraizado em seu mundo, encharcado por sua cultura, no bojo de sua época. Jesus não se esquivou da religião de seu povo nem tentou destruí-la: a maneira como escolheu vivenciá-la é que provocou uma ruptura irremediável para os que com ele mantinham contato. A boa notícia que Jesus anuncia refere-se à vivência da religião como a forma mais profunda de liberdade e de amor, experimentados para além dos parâmetros de um rito, de uma lei ou de uma história. A boa notícia é baseada na descoberta e no anúncio de que há um Deus que nos ama antes de mais nada, nos ama de forma despudorada e alegre, e nos ama de graça, por sua graça, sem que haja para ele alteração no seu amor em razão do que quer que tentemos fazer para ganhá-lo; um Deus que é como um Pai. (Por conta do revestimento viciado dessa terminologia durante dois milênios parece não nos causar tanto impacto que alguém se relacione com um deus chamando-o de papai, que é mais ou menos a tradução de Abba. Diríamos então que o anúncio do Deus Paizinho de Jesus soaria para nós como se um ex-presidiário saísse nas cidades do país anunciando que há uma Deusa, Mãe Paciente, que nos ama graciosamente; ela quer que espalhemos esse amor gratuito sendo todos como crianças de orfanato, ansiosas pelo amor da Mãe, e que seremos mais apaixonados pela Vida que ela nos dá quando tivermos a alegria de um travesti, a esperteza de um bêbado e a espontaneidade de um malandro.) O Reino de Deus é este tempo em que se descobre que a vida é uma graça, que a presença ausente de Deus envolve tudo em todo tempo e lugar e que, por isso mesmo, toda vida deve ser preservada, promovida, amada e vivida de modo pleno. A boa notícia de Jesus é que chegara a hora em que todos poderiam saber disso e viver conforme essa novidade. O Reino estava inaugurado.
“Viver conforme residentes do Reino” era toda a pregação de Jesus: converter-se. Viver conforme a descoberta do amor sem condicionamentos, do amor do Divino por nós e do nosso amor pela vida, com todas as fragilidades, com todos os defeitos, com todas as ambigüidades. A pregação de Jesus pressupõe a disposição de assumir a religião como uma ética e não como um código jurídico, assumir uma forma de vida e não um tratado dogmático. A salvação de quem aceita a realidade do Reino não é uma decisão jurídica baseada numa troca entre iguais: é um presente que se manifesta numa maneira de estar no mundo. E Jesus não impõe nenhum critério para que alguém acesse o Reino, senão o da aceitação total. A crise que essa mensagem provoca se instala justamente nos centros de poder que necessitam, para manterem-se e se reproduzirem, da criteriosa separação, da concessão de privilégios, da barganha de considerações. Esses centros de poder estão encravados nas relações inter-pessoais e, portanto, estão na própria tessitura da linguagem e da sociedade. Por isso que é provocante e assustadora, para qualquer um que a escute, a ternura louca do Evangelho que Jesus anuncia. Assumir aquele estilo de vida supõe a negação espontânea de todos os aparatos de poder a que o indivíduo é educado a desejar. Esses aparatos de poder e o desejo de possuir o poder como uma mercadoria carregam consigo a destruição da vida e das possibilidades infinitas de viver a vida e de desejar vivê-la, sendo, portanto, o desejo de poder o cerne da infidelidade à graça da vida. O poder, sendo uma categoria das relações da linguagem, passa a ser o alvo da crise que o Evangelho anunciado provoca, sem que pra isso haja deliberações e montagem de estratégias por parte de Jesus e de seu grupo de amigos. Jesus, pelo simples fato de viver o instante de modo pleno e por demonstrar serena e fortemente o gozo da vida e da aceitação do Amor Incondicional, instala o rasgão na forma de ver e de estar no mundo daqueles que com ele mantém o mínimo contato. A vitalidade da pregação e da vivência de Jesus queima a alma de quem o escuta como um chamado forte de retorno à vocação da vida que é a liberdade e a gratuidade. Assumir essa forma simples e livre de viver, para o entendimento de Jesus, era uma tarefa que só poderia ser levada a cabo por aqueles que se desembaraçassem de suas regras pesadas, do emaranhado das leis que regem cada centímetro do corpo e da vida; uma tarefa para os pequeninos, os analfabetos, os que não esperam mais nada da vida, os que perderam a oportunidade de vencer na vida, os que não gozam da reputação outorgada pelos outros, os viciados, os corrompidos, os desesperados, os abobalhados, os de quem todos esperam mancadas. Esses, por nada terem que resguardar, podem abrir-se escancaradamente, com seus erros e com suas feridas, ao amor incondicional da Vida e esses podem descobrir a abundante vida que surge de dentro da opressão. Esses entendem que o caminho para salvar a alma, segundo a Boa Notícia, começa por não pensar em salvar a alma.
Paulo, rasgado de paixão por essas novidades, arma-se de cuidados para que a mensagem seja levada ao máximo de pessoas no menor tempo possível e que a mensagem chegue carregada de testemunho a qualquer recanto de qualquer povo e qualquer religião. Paulo não admite barreiras para o anúncio da Boa Notícia do Reino. Por isso, toda a sua pregação baseia-se na universalidade do Cristo. A categoria Cristo para Paulo invoca a pessoa de carne e osso que foi Jesus de Nazaré e, para além, invoca o espírito da atuação de Jesus, que deve presentificar-se em quem quer que assuma a vivência do Reino. Cristo é Jesus em nós. Paulo preocupa-se com a eficiência da pregação do Evangelho e da vivência do Reino, por isso pressupõe que devam ser criadas comunidades estáveis, que se reúnam periodicamente e, para avivar a mensagem da salvação, celebrem, isto é, ritualizem. A preocupação de Paulo, óbvio, é válida e muito pertinente, mas não se pode deixar de ver que aqui se desenha a diferença entre a vivência da religião segundo Jesus e segundo Paulo. Os elementos da vida em comunidade – reuniões e rituais – são a célula do surgimento de uma institucionalização da mensagem, especialmente quando começa a se debater sobre a escolha de critérios para a admissão de pessoas. As pessoas para terem acesso à vida daquela comunidade precisam moldar-se ao seu estilo de vida, que, paulatinamente, vai se homogeneizando. O problema aqui não é o da pureza ou impureza das pessoas que fazem a instituição que está surgindo; este problema da separação entre puro e impuro já fora abolido por Jesus, vide a parábola do trigo e joio. O problema reside na formatação criteriosa para a admissão do postulante, que responde a um código de poder instalado no miolo da linguagem e que vai se consolidando de modo unívoco. Paulo consegue, sem dúvida, manter a vitalidade da mensagem do Evangelho ainda diante da nascente institucionalização, mas não conseguiu garantir que assim fosse na posteridade.
As comunidades posteriores, especialmente depois do terceiro século, no período de decadência do Império Romano, deslumbradas com a possibilidade de tornarem a Boa Notícia hegemônica urbi et orbi, inflaram a prudência sensata de Paulo e minimizaram a escandalosa insensatez de Jesus, achando melhor para os seus fins adotar um modo mais organizado e estruturado de resguardar a mensagem; a isso corresponde a escolha criteriosa dos textos a serem outorgados o sobrenome de Sagrados e o esforço em criar uma história de unificação triangular, ou melhor, piramidal, de códigos, costumes e, principalmente, de organismos. Mas, segundo uma leitura menos aparelhada dos escritos sobre o Evangelho de Jesus, pode-se perceber uma certa dose de voluntarismo dos escritores quando pretendem basear em Jesus a fundação de uma instituição que deveria tomar conta de sua mensagem. Os textos em que Jesus funda sua igreja apostólica estão dissonantes dos acontecimentos precedentes e da trajetória da pregação da Boa Notícia. Ainda assim estes textos não conseguem conter a voracidade com que o comportamento e as palavras de Jesus incendeiam tudo. A vivência de Jesus da religião não prescreve a estrita necessidade de uma instituição para resguardar a sua Boa Notícia. Pelo contrário, o estritamente necessário era a abolição de qualquer estrutura de poder que tomasse para si a posse do Divino e estabelecesse o mínimo de critério que fosse para o acesso à Liberdade e ao Amor. Nesse sentido, a Igreja de Jesus estava presente em qualquer mínima comunidade que mais se empenhasse em fazer como ele, em qualquer tempo e lugar, do que em preservar um possível mito. A Igreja de Jesus – ou seja, as pessoas e as comunidades que se empenhariam em propagar a Boa Notícia de que o Reino chegara – adota um método parecido com a fissão nuclear em que a explosão de um átomo é a causa da explosão dos dois átomos vizinhos e assim sucessivamente. Ou ainda, como uma sala repleta de ratoeiras armadas, se uma ratoeira desarma e cai em cima de outra, todas as ratoeiras da sala tendem a ser atingidas pela síndrome do desarmamento. Isto é, a Boa Notícia do Reino baseia-se em dois meios: o anúncio e a vivência. Viver conforme o Reino e anunciar a sua presença, sem mais. Quem ouvisse o anúncio e para si assumisse a residência no tempo do Reino, deveria viver conforme um residente do Reino e anunciá-lo a outros e assim por diante… É isso que dá sentido ao koan que Jesus aplica nos seus amigos quando eles reclamam que há pessoas fora do grupo originário que estão atuando em seu nome, isto é, estão anunciando e vivendo conforme o Reino. Jesus responde: “Aquietem-se! Quem não espalha o que ajunto, está ajuntando comigo.” Digamos que para nós soe assim: “Aprendam! Quem assumiu o tempo do Reino como seu tempo, e o anuncia, e vive conforme isso, não precisa estar babando de sentimentalismo aos meus pés, não precisa confinar-se entre as colunas de um templo majestoso, não precisa demonstrar que é meu amigo com palavras arrogantes e fartas de adjetivos laudatórios, não precisa participar de rituais que em nada lhe sublima o espírito, não precisa defender leis anacrônicas criadas em meu nome. Olhem para eles e vejam vocês o quanto é preciso livrar-se de um peso do qual eu lhes ajudei a se safar, e que vocês, por medo da liberdade, colocaram de novo em suas costas.”

11. A ternura louca do Evangelho « Amarelo Fosco - 14 janeiro, 2009

[…] Rondinelly Gomes, em comentário depositado neste blogue que superou em incontáveis milhas a postagem a que se […]

12. Alessandro Arbex Risarde - 11 agosto, 2009

Cansei…..

13. Paulo Cunha - 14 agosto, 2009

Não pretendo expor nenhum comentário sobre o texto, pois como o Alysson mesmo afirmou… “temos de desistir de todas as tentativas de persuadir o tolo”.

14. W.Wil - 9 março, 2012

No final dos anos 80 orávamos para que houvesse uma “igreja” em cada esquina. Não tínhamos noção da bobagem que estávamos pedindo. Hoje é guerra das logomarcas por clientes, põe McDonalds e Bob’s no chinelo. O texto bíblico só é usado pra chancelar o produto da próxima corrente e/ou legitimar os amuletos.
O pior, é que o líder daquele rebanho sabe que está errado; que não pode usar seu povo; que não pode usar o texto sagrado pro mal; que Jesus não agiria assim. Mas a descaramento chega ao ponto do “se colar, colou”.
No povo, uma herança católica mística tão enraizada que dificilmente será possível conhecer a Verdade e, por fim, se tornar livre de fato. Eu falei em liberdade? O “rebanho” ao sentir o faro disso, procura urgente por qualquer coisa que pareça um curral e acaba encontrando os tosquiadores.

15. Cartas de amor - 12 outubro, 2014

Article writing is also a fun, if you be acquainted with after that you
can write if not it is complicated to write.


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