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A foice e as mãos 17 dezembro, 2008

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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UM passo além e o piedoso – com a mesma estranhíssima expressão piedosa, já empunha a espada da traição irônica. Para trair uma causa basta abraçá-la com fervor excessivo; para saquear a boa nova basta bradá-la uma centena de vezes, usando sempre e energicamente e universalmente a mesma fórmula, e ela se tornará tão velha quanto terrível.

Ceifar os campos brancos reclama menos uma foice afiada e inflexível que duas mãos dinâmicas e sensíveis. Em um lance de supina ironia e a foice pode matar fervorosamente aqueles que pretendia resgatar. Na absurda história dessas latitudes austrais a cruz se afiou até cortar como uma espada colonial. Os campos brancos deram lugar a um veludo carmesim.

Pensei na metáfora das duas mãos dinâmicas e sensíveis quando ouvi a preocupação demonstrada por Faustino Teixeira no artigo Inculturação da fé e pluralismo religioso, publicado na íntegra aqui. Seguem trechos do mencionado trabalho:

A expressão inculturação refere-se a um neologismo específico da linguagem cristã. Trata-se de um termo típico do linguajar teológico e de recente utilização no discurso missiológico. Embora tenha uma conotação antropológico-cultural, este termo distingue-se de outros típicos do léxico antropológico, como é o caso de aculturação, enculturação e transculturação (…) A inculturação é a encarnação da vida e da mensagem cristãs em uma área cultural concreta, de modo que não somente esta experiência se exprima com os elementos próprios da cultura em questão (o que ainda não seria senão uma adaptação), mas que esta mesma experiência se transforme em um princípio de inspiração, a um tempo norma e força de unificação, que transforma e recria esta cultura, encontrando-se assim na origem de uma “nova criação”.

Sob o influxo da reflexão antropológica, percebe-se hoje com clareza que cada sistema cultural tem sua lógica própria e articulada. Está superada aquela visão evolucionista e etnocêntrica que enquadrava os sistemas como sucessivos e não simultâneos, ocasionando graves distorções de enfoque (…) É igualmente verdade que as culturas são dinâmicas e não estáticas, estando em contínuo processo de modificação. “Toda cultura é uma totalidade sensata, mas não uma grandeza fechada e intocável. A mudança de contexto com seus desafios ou o contato com outras culturas podem levá-la a transformações, acarretando aprofundamento ou enriquecimento de suas características próprias”. Mediante o processo ativo da inculturação ocorre um contato que suscita mudança, mas sempre a partir de dentro da própria cultura.

A inculturação não constitui uma mera adaptação, nem se resume a uma tradução da mensagem evangelizadora. Ela implica sempre uma reinterpretação criadora, o choque de um encontro criador. De acordo com um dos estudiosos mais originais sobre o tema, o teólogo Claude Geffré, “é necessário reagir contra a linguagem e a idéia de uma simples adaptação. Crer que se possa traduzir um mesmo conteúdo de fé numa outra língua sem proceder a uma reinterpretação do conteúdo, é permanecer no nível de uma adaptação e de uma concepção superficial e instrumental da linguagem”.

Todo processo de inculturação pressupõe o “risco de uma certa reinterpretação”. A verdade de qualquer religião, incluindo também o cristianismo, não pode ser identificada com um corpo estático de proposições imutáveis, mas está aberta a novos e inusitados dinamismos hermenêuticos. “A religião não é uma simples mensagem à qual se deve crer, mas uma experiência de fé reproposta  como mensagem”. A inculturação do cristianismo pressupõe e exige a reatualização da experiência cristã fundamental no novo contexto histórico e cultural  onde é convocada a atuar. Desta reatualização resulta uma “nova figura histórica do cristianismo”.

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Comentários»

1. Roger - 18 dezembro, 2008

Reflexão muito interessante e necessária, hoje e aqui (em qualquer lugar onde estivermos).

2. Janete Cardoso - 18 dezembro, 2008

Cristo não se dirigia à grupos de pessoas, mas tratava com indivíduos. Não defendia causa alguma, ia direto na necessidade daqueles que buscavam nele. Onde tinha uma multidão, curava um. Onde dois na mesma condição, transformava apenas o que se abria.
Precisamos andar como ele andou, inclusive na forma de proclamar o evangelho. Individualmente, de acordo com a necessidade do ouvinte. A mensagem imutável, tem ene formas de ser entregue.

Um beijo com saudades.

3. Felipe Fanuel - 18 dezembro, 2008

Lendo este texto, a que já pude ter acesso em outra ocasião, me lembrei da Comunidade Humana de Base (CHB), sobre a qual fala Aloysius Pieris. Não se trata de um grupo que se encontra para o diálogo inter-religioso, tampouco há qualquer preocupação com a identidade religiosa de alguém, mas a origem o desenvolvimento e a culminação das atividades da CHB é, idealmente, a libertação total das não-pessoas e dos não-povos. É dentro do processo desta prática contínua e libertadora que cada membro da CHB descobre a unicidade de sua religião. Afinal, de acordo com Pieris, a identidade religiosa é algo que outras pessoas de fé nos concedem. Como aconteceu com um marxista vindo de um ambiente budista, que não aceitava a idéia de Deus: “Se eu jamais tiver que acreditar em um Deus, este é o único em que vale acreditar”, confessou Sarath Mallika, que, nove meses depois, morreu como mártir pela mão de um extremista cingalês.

Nas CHB’s, os cristãos recebem a sua identidade e são levados a descobrir o que é singular sobre Jesus, pelos não-cristãos, e isso também no contexto de uma preocupação comum com a libertação. Daí se pode perceber por que uma teologia asiática da libertação proclama Deus como o Único que é alcançado somente através da mediação dos pobres (majoritariamente) não-cristãos, e igualmente proclama que Jesus é esta mediação. Este “querigma” não entra em confronto com outras religiões e não compete com elas, mas entra em confronto com a catequese oficial da Igreja.

Um grande abraço.


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