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O voto pragmático 8 novembro, 2008

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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O Barack Obama eleito acendeu as esperanças da comunidade internacional, e não há quem festeje sem razão – o fato só de existir vida após Bush já é merecedor da melhor champanhe. Quem, entretanto, tem as melhores razões para comemorar é o… norte-americano.

A unipolaridade dos Estados Unidos é um fato que desde a queda do muro a estatística não questiona – muito embora gente bem intencionada (confundido o ser com o dever-ser) fale em multipolaridade ou mesmo em pós-polaridade.

Ressentidos europeus se valem de uma “inflação teórica”, conferindo a América o epíteto de hiperpotência, o que garante a França e a Grã-Bretanha, pelo menos no plano da teoria, a manutenção do estatuto de grandes potências militares. Outros, embriagados pelo desenvolvimento de organizações internacionais e pela relevância que vem adquirindo o direito internacional na solução de controvérsias, discursam sobre um mundo pós-polar, em que o desequilíbrio de poder é um monstro sepultado em um passado bárbaro.

A unipolaridade dos americanos não é apenas inqüestionável como também possui uma extraordinária vocação para durar. É que a liderança militar e ideológica dos norte-americanos é sentida por todos os seus potenciais rivais (mesmo pela China), pelo menos no quadro atual e até onde é possível prever sem correr o risco de estar profetizando, como garantia da segurança e paz mundiais e do bom funcionamento da economia. Trocando em miúdos, a unipolaridade é pragmática e cumpre uma função econômica: manter o bom funcionamento do atual sistema de produção e distribuição de riquezas.

Ninguém, entretanto, manchou em um espaço tão curto de tempo o principal ativo dos Estados Unidos — sua credibilidade e liderança internacional — tanto quanto George W. Bush e sua má companhia, e aparentemente ninguém há melhor para limpá-lo que Barack Obama.

Mais do que um voto ideológico o americano depositou nas urnas um voto pragmático.

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Comentários»

1. Roger - 8 novembro, 2008

E isso aí.

2. Janete Cardoso - 8 novembro, 2008

Espero que ele limpe a sujeira de seu antecessor, que tenha êxito nessa “faxina” na imundície que o aristocrata sulista deixou.

3. Felipe Fanuel - 10 novembro, 2008

Alysson,

Como sempre, o pragmatismo é uma marca característica dos americanos. A circunstância os leva a serem pragmáticos, pois não se colocam em um eixo apenas, mas se posicionam conforme a estratégia em curso — ou, o que deve ser o mesmo, dançam conforme a música.

Isso não deixa de ter suas raízes na fé protestante que, por ser tão iconoclasta, precisa resistir a seu ímpeto de autodestruição. O protestantismo luta contra si mesmo. O fiel, para sobreviver, deve ser pragmático, pois crê que precisa decidir. No entanto, tem na sua consciência o único ambiente possível de decisão. Ele não tem o sentimento participativo, tão característico das culturas européias e que acabou desembocando no Brasil via catolicismo. Participar é ser levado pela onda, decidir é lutar contra a onda.

Ser pragmático nada mais é do que tentar participar por meio da decisão. Afinal, ser humano algum é capaz de fazer da constante luta contra si mesmo um sinônimo de vida. O americano vota pragmaticamente porque precisa viver. Mas dentro de si está convencido de que fez uma decisão, e não participou. Por esta razão, os movimentos sociais minguam em terras ianques se não trilharem o viés do pragmatismo.

Obama é inteligente. Ele convenceu os americanos de que a mudança é deles. “Yes, we can” é a chave-hermenêutica de todo o movimento em torno de sua vitória. Ao mesmo tempo em que o eleitor participa da mudança, afirmando um “sim” ao movimento, ele decide, porque acredita que ele próprio pode desencadear alguma coisa nova.

O obamismo nada mais será que um diálogo tenso entre decisão e participação. Reinará, sem dúvida, o pragmatismo, porque presidente nenhum consegue se manter em cima de uma fronteira por quatro anos. Este é o único caminho possível para uma cultura que se acostumou em ser dualista, crendo piamente na literalidade das palavras jesuânicas de “sim, sim e não, não”.

Aquele abraço.

4. rubens osorio - 10 novembro, 2008

Unipolaridade, quem viver verá, é o que a China estabelecerá em breve, com a ingenuidade, complacência e cumplicidade burra dos EUA, que continuam a olhar pro umbigo e não percebem que o umbigo não é o deles…

5. Alysson - 10 novembro, 2008

Rubens,

Nâo é correta sua interpretação (a mesma difundida na opinião pública) de que a China ameaça a unipolaridade americana. Tudo é um mal entendido em relação ao que significa unipolaridade. Ela não significa a existência de uma única metrópole que governa com mão de ferro o resto do mundo; nem significa apenas poderio bélico ou força econômica: é antes a conjugação destes dois fatores, um tabuleiro de xadrez tridimensional onde as forças das potências são medidas relativamente umas as outras. Nesse tabuleiro, os Estados Unidos ainda são unipolares, e o serão ainda por muito tempo, malgrado todos erros grassos cometidos pelo governo que deixa a Casa Branca em 20 de janeiro próximo.

Talvez seja já possĩvel falar em multipolaridade econômica (mas jamais em unipolaridade econômica chinesa) em parte pela atual ascenção da Ásia Oriental, sobretudo da China, e em parte pela força reunida por uma União Européia – é bastante provável, aliás, que essa multipolaridade econômica exista desde o pós-segunda guerra, e por interesse de ninguém menos que EUA, que investiu vultosas somas de capital para recuperar as economias da Europa e da Ásia, nomeadamente de Alemanha e Japão. Mas isso não significa que a unipolaridade americana esteja ameaçada – pode significar, a contrariu sensu, e para o espanto de muita gente, exatamente o inverso disso.

Militarmente – e esse é o fator que mais interessa na definição de unipolaridade – os Estados Unidos são incomparáveis: se todas as economias mundiais somadas investem 2x em defesa e segurança, os Estados Unidos, sozinhos, investem x. Se a China tem um gasto global com segurança na ordem de y, os Estados Unidos, apenas em desenvolvimento e inteligência militar gastam 2y. No mundo há dezoito marinhas com frota de alto mar; o poder bélico da marinha americana é superior a de todas as outras dezessete marinhas somadas – comparativamente, a meta da Inglaterra imperialista do Dezenove era ter uma marinha que sozinha fosse superior belicamente as duas outras mais poderesas somadas.

Claro, a China não é o lacaio que o Japão é; a China cresce com taxas astronômicas, etc. etc. Mas isso tudo ainda não nos permite dizer que a hegemonia americana está ameaçada. Talvez meu neto, ele sim, terá o prazer de profetizar a queda da unipolaridade americana sem estar delirando.

6. Felipe Fanuel - 12 novembro, 2008

O fato importante é o seguinte: a China ocupa uma posição tão estratégica quanto a dos EUA, pelo menos no campo econômico. Isso pode ser bastante ameaçador ao domínio americano amplo para além da força militar. Mas se souber jogar o jogo da multipolaridade, i.e., trabalhar em parceria com nações estratégicas como a chinesa e brasileira, Barack Obama proporcionará uma nova noção de liderança global. Acredito que será mais eficaz que aquela baseada no investimento bélico. Países como o Brasil e a China podem nunca terem um exército como o dos EUA, porém crescem indiscutivelmente como líderes locais e até parcialmente mundiais, com influência econômica, social e cultural.

7. Alysson - 12 novembro, 2008

Felipe,

A “influência econômica, social e cultural” dos emergentes, inobstante ser um evento relevante no cenário pós-Guerra Fria, não tem o condão de colocar em xeque a unipolaridade norte-americana, ainda inquestionável naquele tabuleiro tridimensional a que me referia.

O grande erro de Bush talvez tenha sido sua incapacidade polivalente de utilizar o poder que tinha em mãos: por um lado, o mal direcionamento que deu a seu hard power (a Guerra contra o terror, vale dizer, só acentuou aquilo que pretendia combater – um país como os EUA brandindo suas armas para todos os lados, cria um desconforto que só é mais ou menos amainado com programas nucleares – o Irã que o diga); por outro lado, Bush também não soube liderar a comunidade internacional, nâo tinha voz nem respeito para tal; perdeu assim a oportunidade de utilizar o respeitável soft power norte-americano. Penso que você tenha razão, Felipe; é provável que a força de Obama se revele aqui, como uma liderança global que, ao fim e ao cabo, se tudo correr bem, só fortalecerá a unipolaridade americana.

8. Alysson - 12 novembro, 2008

Se tudo correr bem para eles, é claro.

9. Bárbara - 14 novembro, 2008

Não ouso me aprofundar na polêmica, mas…
Dizem as más linguas que é o próprio anticristo.

E agora? (rs)

¬¬

10. Volney Faustini - 15 novembro, 2008

Concordo que há razão para se vibrar, apesar de cedo para de fato vir a acontecer o que esperamos de Obama. E ainda é cedo – para uma mais clara e profunda análise do desastre da Era GWB de dois mandatos presidenciais.

Em sintonia a vc Alysson creio que a hegemonia americana permanece (talvez pelas nossas quatro gerações pois seu neto será o meu bis). Este é um lado e são vários os argumentos para se perceber que os alicerces deles estão bem selados: Educação, Poder Econômico e Belico, Ciência e Pesquisa, e um jogo democrático que permeia toda a Sociedade.

Para nós – vivendo num presente quase interminável, não entendíamos bem a estupidez Bush – e nem a sua recondução. E ainda agora estamos atordoados com as mazelas do liberalismo.

A esperança permanece. Talvez tenhamos uma nova Ética Protestante, pois aquela está entrando água. Terem levado-a às últimas conseqüências criou o monstro da Globalização e o mundo Corporativo mandando e manipulando. As redes sociais podem ser um antídoto, tal qual o esquema da Campanha de Obama. Esperemos. A Revolução deve vir …

Não sem antes temer pelo recrudescimento de nossos hermanos fundamentalistas (o voto evangélico branco foi 75% MCain). Até no modelo exportador do Evangelho eles foram ‘campeões’!

11. rubens osorio - 19 novembro, 2008

Só acrescentando um parâmetro que parece não estar sendo levado em consideração: a população de China. Que peso terão 2 bilhões de pessoas na balança? Por enquanto são “peasants”, mas com o crescimento acelerado da economia chinesa, é possível termos, logo, algo como Americas + Europa só de chineses “ascendentes”. Não creio que as coisa ficarão como estão… salvo engano!


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