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Sobre o egoísmo e o amor próprio 28 outubro, 2008

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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ERICH FROMM em Análise do Homem

A doutrina de que o egoísmo é o mal supremo e de que amar a si mesmo exclui amar os outros não se restringe de maneira alguma apenas à Teologia e à Filosofia, tendo se tornado uma das idéias correntes proclamadas no lar, na escola, no cinema e nos livros; com efeito, em todos os meios de sugestão social. “Não seja egoísta” é uma frase que foi usada para impressionar milhões de crianças, em gerações sucessivas. Seu significado é um tanto impreciso; a maioria das pessoas diria que significa que não se deve ser egotista, sem consideração ou preocupação com os outros. Na verdade, geralmente quer dizer mais do que isso. Não ser egoísta implica não se fazer o que se quer, desistir de suas próprias vontades em benefício dos que detêm autoridade. “Não seja egoísta”, em última análise, tem a mesma ambigüidade que possui no calvinismo. Além de seu sentido óbvio, quer dizer “não ame a si mesmo”, mas submeta-se a algo mais importante do que você, a um poder exterior ou a sua interiorização, o “dever”. “Não seja egoísta” se transforma em uma das mais poderosas ferramentas ideológicas para suprimir a espontaneidade e o livre desenvolvimento da personalidade. Sob a pressão desse slogan, pede-se à gente todo sacrifício e submissão completa; somente são “desinteressados” os atos que não atendem ao indivíduo, mas a alguém ou a algo a ele estranho.

Esse quadro, devo repetir, é de certa forma unilateral. Assim como ocorre com a doutrina de que não se deve ser egoísta, também há muita propaganda da tese oposta na sociedade moderna: tenha em mente suas vantagens, aja de acordo com o que for melhor para si; fazendo assim você também estará agindo para o maior proveito de todos. Com efeito, a idéia de que o egoísmo é a base do bem-estar geral constitui o princípio sobre o qual se ergueu a sociedade competitiva. É de estarrecer como dois princípios aparentemente tão contraditórios puderam ser ensinados lado a lado na mesma cultura; quanto ao fato, porém, não há dúvida. Uma conseqüência dessa contradição é a confusão do indivíduo. Dividido entre essas duas doutrinas, ele fica seriamente inibido para integrar sua personalidade. Essa confusão é uma das fontes mais expressivas da perplexidade e atarantamento do homem moderno.

A doutrina de que o amor a si mesmo é idêntico a “egoísmo” e uma alternativa para o amor a outros invadiu a Teologia, a Filosofia e o ideário popular (…) Acodem as seguintes perguntas: (…) será o amor a si próprio o mesmo fenômeno que o egoísmo, ou serão eles opostos entre si? Outrossim, será o egoísmo do homem moderno uma preocupação consigo mesmo como indivíduo com todas as suas potencialidades intelectuais, emocionais e sensuais? Não terá ele se convertido em um apêndice de seu papel sócio-econômico? Será o egoísmo idêntico ao amor-próprio ou não será ele causado pela própria falta deste? (…)

Egoísmo e amor-próprio, longe de serem idênticos, são de fato opostos. A pessoa egoísta não ama a si mesma demasiadamente, mas muito pouco; com efeito, ela se detesta. Essa falta de ternura e desvelo por si mesma, que é apenas uma expressão de sua falta de produtividade, deixa-a oca. Ela forçosamente se sente infeliz e ansiosamente preocupada em agarrar com avidez as satisfações da vida que ela se impede a si mesma de conseguir. Parece inquietar-se por demais consigo, mas na verdade o que faz é tão só uma malograda tentativa de disfarçar e compensar sua deficiência para cuidar de seu verdadeiro eu. Freud alega que a pessoa egoísta é narcisista, como se tivesse retirado seu amor dos outros e o tivesse voltado para a própria pessoa. É fato que os egoístas são incapazes de amar a outros, mas não são tampouco capazes de amar a si mesmos.

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Comentários»

1. Janete Cardoso - 28 outubro, 2008

Em determinados momentos, é natural buscar o próprio bem. Nos esforçar para sobressair nos estudos, buscar um bom emprego, crescer numa empresa. Isso não é nocivo.
Nocivo, é o comportamento do indivíduo que só aceita o próprio prazer, bem estar, opinião, direito e atropela quem quer que seja em seu benefício.
O egoísta ama o interesse próprio, e passa por cima do interesse alheio. Isso não implica necessariamente em amar-se.

2. Roger - 29 outubro, 2008

Oh enganoso coração humano! Quem o compreenderá?

3. Felipe Fanuel - 29 outubro, 2008

Então, eu certamente sou egoísta demais para amar a mim mesmo.

4. Sobre o egoísmo e o amor próprio « Laion Monteiro - 30 outubro, 2008

[…] Fonte: Amarelo Fosco […]

5. Lou - 30 outubro, 2008

Na próxima encarnação me amarei mais. Nessa eu coloquei tudo a perder, me anulei, não amei ao próximo e busquei satisfazer meu ego, na maioria das vezes. Só agora dei inicio a um pequeno esforço de não começar minha minhas frases com o pronome pessoal da primeira pessoa do singular e nem sempre consigo. Além disso, não serei capaz de descontinuar meu blog.

6. Tamara Queiroz - 1 novembro, 2008

Equilíbrio, eis a resposta.

7. Janete Cardoso - 13 novembro, 2008

Não há nada oculto, que não venha a revelar-se. Nem sabia que sou tão egoista. Nesse momento meu ego tá ofendidíssimo, porque meu interesse não venceu!

8. Carolina - 20 julho, 2009

¡Qué buena entrada! Pareciera que es “fácil” llegar a las conclusiones que llegas. ¡Y no lo es!. Supongo que para llegar a escribir esto ocurrió mucho dentro y fuera de tí, como escritor que piensa, siente, vive.

Me llama la atención cómo Freud nos puede ayudar a distinguir los “egoísmos”, sus orígenes… y a hacer sobresalir sobre todo, el terreno de los afectos.

Un saludo

9. Belém, Márcio Messias - 11 dezembro, 2012

– Qual a linha tênue que separa egoísmo de amor-próprio?

– VOLTAIRE, em seu Dicionário Filosófico e também Cartas Inglesas, dá a entender que ambos são a mesma coisa e aponta o “amor-próprio” (egoísmo?) como responsável pelas convenções que nos governam e que estabeleceram as bases da sociedade.

\o/

10. La' Zerra - 20 dezembro, 2013

Amar a si mesmo e egoísmo pode não ser exatamente a mesma coisa, mas uma é ligada a outra de tal forma a quase ser idênticas. Você pode se amar e amar o outro, mas vai haver uma competição de espaço e exclusividade entre amar você mesmo ou o próximo e sempre, sempre, o amor próprio vence, porque todo ser humano tem o egoísmo em si, graças a sua grande capacidade de raciocinar. Quando o amor próprio vence, quando você não ama mais ninguém além de si mesmo( talvez por causa de algumas decepções ou sei lá o que) ele se alia ao egoísmo e é aí que afirmo a ultima frase do texto “Os egoístas são incapazes de amar a outros, mas não são tampouco capazes de amar a si mesmos.”


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