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Manancial da sombra 28 setembro, 2008

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Mesmo o réptil da espécie mais infame tem seus momentos de claridade. Com sua voz ligeiramente rouca nosso animal segredou-me algo sobre o que chamou “manancial da sombra”.

O primeiro fato de relevo é que o abominável manancial, longe de ser apenas um, geograficamente situado em determinada latitude, são tantos quantos são os corações humanos.

“Não há quem possa estancar o trevoso líquido sem primeiro deixar o caminho trilhado por toda a sorte de botas. É preciso desafiar o indevassado, e a razão para isso é simples: ninguém, a não ser você, tem acesso aos seus escarpados relevos interiores. Todo caminho pisoteado leva a alguma espécie de ilusão.” Ao concluir seu discurso, o animal serpenteou, desaparecendo tão abruptamente como surgiu.

Com duas lágrimas: a primeira nostálgica, a segunda melancólica, começava a atinar que ao herói não cabe muito. Um feito heróico só o é realmente em sua irreparável modicidade, em sua silenciosa sugestão. O herói é aquele capaz de descerrar aos homens a cortina que cobre o sufocante vazio. Não há espetáculo para além da cortina; apenas um dantesco protagonista: o palco. Era esse protagonista hercúleo e silencioso quem me aguardava.

Aprendi mais tarde que ele se desfaz tão logo alguém o toque. Adversário mais temível não se encontra.

[continua]

Fragmentos anteriores

1. Bold as love
2. Um convite lávico
3. A trilha
4. A bifurcação do Limiar
5. A única causa de mim mesmo

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Comentários»

1. Janete Cardoso - 28 setembro, 2008

“são tantos quantos são os corações humanos”

Estamos todos na mesma condição. 😦

“Não há quem possa estancar o trevoso líquido sem primeiro deixar o caminho trilhado por toda a sorte de botas”

Verdade, as experiências são componentes do aprendizado.

“Com duas lágrimas: a primeira nostálgica, a segunda melancólica, começava a atinar que ao herói não cabe muito”

Outra verdade. Cabe à cada um, achar seu próprio caminho.

Beijo, meu anjo.

2. Edson Marques - 28 setembro, 2008

.

A Luz não se contém.

Belíssimo texto!

Abraços, flores, estrelas..

3. tucoegg - 29 setembro, 2008

“Todo caminho pisoteado leva a alguma espécie de ilusão”.
Abandonar o caminho pisoteado, no entanto, exige a mais doce, serena e irresponsável loucura. Não é mole.

4. Rondinelly Gomes Medeiros - 29 setembro, 2008

Transbordante!

5. rubens osorio - 29 setembro, 2008

Tuco, não é necessário só loucura. Creio que a ilusão ao fim de um caminho pisoteado é a de que seja possível trilhar um caminho pisoteado. Todo caminho é inédito e todo caminhante é pioneiro, porque não se passa duas vezes pelo mesmo lugar, nem duas pessoas trilham o mesmo caminho. Como o Alyssom disse, ao herói não cabe muito… apenas descerrar a cortina e o cenário que se descortina, por mais “igual” que seja, será sempre um novo palco.
Salvo engano.

6. Janete Cardoso - 29 setembro, 2008

Começamos a trilhar o caminho, sem conhecê-lo. Na bagagem, apenas a ilusão criada. O mesmo caminho, traz experiências diferentes para cada par de botas.

“É preciso desafiar o indevassado”

Ninguém fará isso por nós…

7. Felipe Fanuel - 2 outubro, 2008

Caro Alysson,

Desculpe-me a sinceridade. Este seu herói não passa de um “bundão”. Tão certo quanto a caca que faz, ele só quer se deixar levar por uma onda que ele acredita nascer dentro de si. Ele quer muito pouco… É o preço por ser tão niilista, tão cético, tão frágil, tão “tímido” — para lembrar de Chesterton.

Talvez eu esteja longe de assumir tamanha condição líquida. Por enquanto estou na crise das ruínas sólidas. O dilúvio ainda não chegou por aqui. Em litoral isso costuma significar catástrofes como a Tsunami.

Um abraço.

8. Alysson Amorim - 4 outubro, 2008

Penso que as coisas seriam mais fáceis para nosso herói se a ele fosse dado lidar com o cavalo e com a espada de Quixote, coisas sensatas e sólidas. Acontece que seu niilismo o impede de montar em cavalos e de forjar espadas; não o impede, entretanto, de perambular. E ele perambula, e perambula corajosamente nu.

9. Felipe Fanuel - 4 outubro, 2008

Resta-lhe, então, apenas a condição perambuladora? Hã… Quem sabe ele não passe de mais alguém a colocar o pé on the road. O problema é que não há mais ditadura da qual fugir (se ele for sub-humano) ou dólares para bancar sua perambulagem (se ele for sobre-humano). Sem tiranos e sem dinheiro, resta-lhe um sombrio destino para quem quer pôr o pé na estrada. A pergunta que seu herói faz e eu também de vez em quando, confesso é a seguinte. Ora, se não há aurora nem crepúsculo, por que deixar a inércia?


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