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Dependência 20 setembro, 2008

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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J. Krishnamurti em Sobre o Amor e a Solidão (Cultrix)

Psicologicamente, no íntimo, somos dependentes de rituais, de idéias, de pessoas, de coisas, das posses – ou não somos? Somos dependentes e queremos nos libertar dessa dependência porque ela nos faz sofrer. Enquanto essa dependência é satisfatória, enquanto encontro felicidade nela, não quero ser livre. Mas quando a dependência me faz sofrer, quando a coisa de que dependo foge de mim, fenece, murcha, olha para outra pessoa, desejo libertar-me.

Mas será que quero me libertar por inteiro de todas as dependências psicológicas ou somente daquelas que me fazem sofrer? Obviamente, das dependências e lembranças que me fazem sofrer. Não quero me libertar por completo de todas as dependências; quero apenas me ver livre de alguma dependência particular. Assim, busco meios de me libertar ou peço a outras pessoas que me ajudem a ficar livre de uma dependência específica que me traz dor. Não quero ficar livre do processo total de dependência.

Pode alguém me ajudar a ficar livre, tanto da dependência específica como da total? Será que posso mostrar a vocês o caminho – sendo o caminho a explicação, a palavra, a técnica? Se eu lhes mostrar o caminho, a técnica, se eu lhes der uma explicação, vocês vão ficar livres? Vocês ainda terão um problema, ainda vão ter a dor da dependência, não? Nenhuma demonstração minha, nenhuma discussão sua comigo vai libertá-los da dependência. E o que se deve fazer?

Percebam, por favor, a importância disso. Vocês pedem um método que os liberte de uma dependência particular ou total. O método é uma explicação que vocês vão praticar e viver a fim de se libertarem, não é? Assim, o método se torna uma nova dependência. Tentando se libertar de uma dependência específica, vocês introduzem outra forma de dependência.

Mas se estiverem de fato preocupados com a liberdade total de todas as dependências psicológicas, se realmente estiverem voltados para isso, vocês não vão me pedir um método, o caminho. Nesse caso vocês vão fazer uma pergunta bem diferente, não? Vocês vão perguntar se têm capacidade para lidar com isso, a possibilidade de fazer algo a respeito dessa dependência. Logo, a pergunta não é como se libertar de uma dependência, mas “Posso ter a capacidade de tratar do problema como um todo?” Se tenho a capacidade, não dependo de ninguém. É só quando digo que não tenho a capacidade que peço: “Ajude-me, por favor; mostre-me o caminho.” Mas se tenho a capacidade para tratar do problema da dependência, não peço a ninguém que me ajude a dissolvê-lo.

Espero estar sendo claro. Julgo muito importante não perguntar “Como?” mas “Posso ter a capacidade de tratar do problema?” Porque, se sei lidar com ele, estou livre do problema; não procuro mais um método, o caminho. Posso ter a capacidade de tratar do problema da dependência?

Ora, em termos psicológicos, quando vocês fazem essa pergunta a si mesmos, o que acontece? Quando fazem conscientemente a pergunta: “Posso ter a capacidade de me libertar dessa dependência?” o que acontece psicologicamente. Vocês já não estão livres dela? Vocês eram dependentes em termos psicológicos e agora perguntam: “Tenho a capacidade de me libertar?” Está claro que, no momento em que fazem essa pergunta com vigor a si mesmos, já há liberdade com relação a essa dependência (…)

Quando sei que tenho essa capacidade, o problema deixa de existir. Mas como não a tenho, quero alguém que me mostre. Assim, crio o Mestre, o guru, o Salvador, alguém que vai me salvar, que vai me ajudar. Logo, torno-me dependente deles. Mas se tiver a capacidade de resolver, de compreender a questão, tudo fica muito mais simples e deixo de ser dependente.

Isso não quer dizer que eu esteja cheio de autoconfiança. A confiança que vem a existir através do eu, do “si mesmo”, não leva a lugar algum, visto fechar-se em si mesma. Mas a própria pergunta “Posso ter a capacidade de descobrir a realidade?” dá uma introvisão e uma força fora do comum. A pergunta não é se tenho a capacidade – eu não a tenho – mas “Posso ter a capacidade?” Então saberei abrir a porta que a mente sempre vem fechando com suas próprias dúvidas, com suas próprias ansiedades, seus medos, suas experiências, seu conhecimento.

Portanto, quando todo o processo é percebido, a capacidade está presente. Mas essa capacidade não há de ser encontrada mediante nenhum padrão particular de ação (…) Dispondo dessa capacidade, posso tratar de todos os problemas que surgirem. Sempre haverá problemas, incidentes, reações; isso é a vida. Como não sei o que fazer com eles, procuro outras pessoas a fim de descobrir, para perguntar qual a maneira de tratar desses problemas. Mas quando faço a pergunta “Posso ter a capacidade?” isso já é o começo daquela confiança que não é a do “si mesmo”, do eu, que não é a confiança que vem à existência por meio da acumulação, mas a confiança que se renova constantemente a si mesma, não através de alguma experiência ou incidente particular, mas da compreensão, da liberdade, de modo que a mente possa descobrir aquilo que é real.

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Comentários»

1. rubens osorio - 20 setembro, 2008

Bla, bla bla…
Confesso que cansei desse discurso. O cara diz e se contradiz pra depois dizer novamente, com outras palavras, e chega uma hora que vc já não sabe bem o que diabos ele está dizendo.
Vamos ser claros: somos dependentes, sim! Há dependências patológicas e dependências lógicas. Mas, dependências são um fato da vida!
E quem não sabe lidar com elas, e deseja se livrar, vai cair nas mãos de caras como esse aí. E acaba se tornando independente de tudo e de todos, de si, dos outros e de Deus. E deixa de ser “humano”.
Ora, bolas!

2. Janete Cardoso - 20 setembro, 2008

Regra geral, a idade e as experiências da vida ajudam-nos a vencer o medo do “que vão dizer de nós?” Percebemos pouco a pouco que os respeitos humanos reduzem a nossa liberdade e são sintomas de imaturidade. Além disso, por vezes as decepções fazem-nos ver que não vale a pena depender da opinião alheia: que temos de saber por nós mesmos o que valemos.

Há pessoas que, para adquirirem essa maturidade, viram as costas aos outros porque pensam que só conseguem vencer essas dependências à força de desamor. No fundo, não se tornam verdadeiramente independentes, mas indiferentes.

É freqüente confundir a independência com a frieza do arrogante. Mas é errado. A verdadeira independência procede da liberdade interior e da capacidade de amar de modo desprendido, não da frieza.

Não se trata de virar as costas aos outros, mas de aprender a não depender da estima alheia. O homem ideal desenvolve ao mesmo tempo uma grande personalidade, que o faz ser independente, e uma grande capacidade afetiva, que o faz ser dependente.

beijos

3. Tamara Queiroz - 21 setembro, 2008

Eu costumo dizer que há poucas pessoas capazes. Mas há um número muito maior de pessoas habilidosas.

Que seja! Cada qual com suas habilidades.

B-joletas

PS: Alterei a url do meu blog.

4. Roger - 22 setembro, 2008

Obrigado Rubinho,
esse texto me pegou como um redemoinho. Agora sei porque.
Também penso assim.
O importante é que as duas partes estejam em acordo na independência ou dependência entre ambos, ai não existirá mal algum.
Mas o caminho natural é a interdependência cordial.
Abrçs,
Roger

5. Roger - 22 setembro, 2008

Ah… mais uma coisa.
Mas o cara tá certo numa coisa:
Quem seria eu se não fosse minha dependência afetiva, do sorriso da minha filha, do amor da minha esposa, da voz doce dos meus pais, do brilho dos olhos dos meus irmãos, do tilintar de taças dos meus amigos…
O problema é que nossa “grandeza” de personalidade e caráter está sempre a colocar essas dependências acima da ética, como os amigos médicos do Rubinho. Não que dependamos da estima alheia, mas ela (vinda de pessoas chaves) é um dos melhores indicadores para sabermos se agimos certo ou errado.

6. Janete Cardoso - 22 setembro, 2008

“Não que dependamos da estima alheia, mas ela (vinda de pessoas chaves) é um dos melhores indicadores para sabermos se agimos certo ou errado.”

Quem está de fora, vai ver a situação conforme a pessoa é, não segundo o que somos. Quem além de Deus, pode sondar meu coração? Atitudes podem ser mal interpretadas, julgadas erroneamente, por isso eu digo que, desde que consiga ter liberdade interior e capacidade de amar de modo desprendido, meu melhor indicador é minha própria consciência.

7. tucoegg - 22 setembro, 2008

Eu gostei do Krishna. Qualquer dependência só pode ser saudável a partir da possibilidade da liberdade. A pergunta é muito boa.

8. Roger - 24 setembro, 2008

Janete, concordo contigo, mas…
sim nossa consciência é o melhor, senão o único indicador que temos.
Acho que já foi feito um longo debate no antigo Blog do Alyssom sobre esse tema.
A questão é como nossa consciência se forma ou deforma?
Como você bem disse, só Deus vê o interior. Em última instância só Ele é o juiz.
Mas como ninguém é uma ilha, e somos irremediavelmente falhos, precisavos de vez em sempre bons amigos para nos confrontar, em amor com nossos vícios e nos ajudar na formação de uma boa consciência. Mais do que bons amigos precisamos estar atento às consciências (muitas vezes fracas) ao nosso redor, para não ferirmos ninguém gratuitamente.
Quanto aos juízes de plantão, precisamos ter certamente essa liberdade interior que você diz e uma capacidade de amar para fundamentarmos bem nossas ações e sermos coerentes. Para não parecermos auto suficentes que não devem satisfação a ninguém.

9. Janete Cardoso - 24 setembro, 2008

Tô aprendendo, Roger! 🙂
beijo

10. Felipe Fanuel - 26 setembro, 2008

A minha pergunta é apenas uma: por que pisar em ovos?

Toda discussão moral deste nível termina em: “E agora?” ou “É assim, mas…”

Já passou da hora de superarmos esse medo do debate moral. Vamos enfrentar o tema. Pra que ficar preocupado se o chão vai ruir, se as estruturas vão se abalar? Será que os protestantes aqui esqueceram de que o homem não vale nada?

Alysson,

Sugiro fazer uma síntese final de tudo isso, seja em comentário ou em algum futuro post, para ampliar a interpretação do tema. Essas coisas não podem terminar em ponto final. Precisam de reticências.

Um abraço.

11. Felipe Fanuel - 26 setembro, 2008

Comece postando coisas como: “A humanidade está perdida.”

12. Janete Cardoso - 26 setembro, 2008

Mas ainda não aprendi…rsrsrsrs
Não devo mesmo satisfações à ninguém.

“Toda discussão moral deste nível termina em: “E agora?” ou “É assim, mas…”

Felipe,

Não se trata de pisar em ovos, mas você me ensinou que não existe verdade, lembra? Essa é “a minha verdade”. Cada um que tenha a sua própria.

13. Felipe Fanuel - 26 setembro, 2008

Janete,

Não falei “pisar em ovos” pensando em você. A minha crítica diz respeito ao tom das reações em geral. Li com carinho sua contribuição e considero bastante pertinente. Mas estou preocupado com a pressa em descartar a profundidade desse tipo de discussão. Um excesso de medo em falar sobre moral, presente no texto e no comentário. Parece que tá todo mundo pisando em ovos.

Bjs.

14. Janete Cardoso - 27 setembro, 2008

Esse tema é delicadíssimo. como você disse, nosso próprio chão.

Para mim, é uma ilusão achar que podemos ser o que quisermos, sem os olhos acusadores nos sondando.

Quem vive em sociedade, quem decide congregar, quem tem família, enfim, cedo ou tarde vai deparar com a ditadura infeliz da moral.

Duas opções: Me submeto às regras, gostando ou não delas, ou fico excluída, aprendendo dia a dia como ir me esquivando dos dedos acusadores.

Tenho escolhido a segunda opção. Tenho uma grande dificuldade de me encaixar nos padrões “normais”, mas sendo autêntica, pelo menos comigo eu fico bem.

beijos

15. v.carlos - 27 setembro, 2008

O PAVA está montando 1 Newsletter só para blogueiros. Por favor, me envie um e-mail para que eu possa colocar seu e-mail na lista.

vitorferolla@gmail.com

Obrigado!

16. Felipe Fanuel - 27 setembro, 2008

A vida humana é uma navegação em fluxos de água de direções opostas. Navegar é vacilar por aí.

17. Felipe Fanuel - 27 setembro, 2008

Não gostaria de esterilizar a profundidade dessas águas com um ponto final…

18. Alysson - 27 setembro, 2008

Fiquem tranquilos.

Assumir o compromisso de escrever em um blog é assumir um compromisso sério com as reticências…

19. Roger - 27 setembro, 2008

Felipe,

como disse certa feita a irmã piscóloga de um amigo saudoso, a qual tentava tirá-lo de uma crise depressiva e existencial: Todo mundo é louco, não esquenta, mas se você sair pelado na rua, a polícia te prende.

Cabe a cada um de nós decidir por si só o momento certo para sair pelado na rua, seja quando a polícia não está por perto, seja quando a causa valha a pena. Isso não é pisar em ovos para cada questão moral terá o tempo e o lugar certo.

20. Janete Cardoso - 28 setembro, 2008

“tentava tirá-lo de uma crise depressiva e existencial”

Esse é um dos problemas de viver debaixo da lei. A pressão é muito grande e a maioria não aguenta. O medo da reprovação, o desejo por reconhecimento… precisamos ser livres dessas amarras e prestar mais atenção nas nossas escolhas.

Sou da seguinte opinião: Nem sair por aí peladão, inconsequentemente, nem se deixar empacotar. Escolhendo a roupa de acordo com a ocasião e com o desejo daquele momento específico, aí sim, ninguém precisará nos trazer numa camisa de força. No máximo vão dizer que temos mal gosto.

21. Roger - 29 setembro, 2008

Como não sou nenhum ativista só achei conveniente sair pelado na rua até os 4 anos de idade. : )


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