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O sonho de Coleridge 6 setembro, 2008

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Após ler, em uma rara hora de folga, “O sonho de Coleridge”, um extraordinário conto publicado por Borges em “Outras Inquisições”, acabei topando, casualmente, via Google, com uma tradução do conto saída da pena do nosso Paulo Brabo.

Curiosamente, na primeira leitura do texto, lembrei-me que o Brabo, como o italiano Tartini, em algum lugar da Bacia “quis imitar na vigília a música de um sonho.”

Convido-os a ler “O sonho de Coleridge” , na tradução do Paulo, e ao som de uma sonata executada ao violino pelo próprio Diabo.

***

O sonho de Coleridge

O fragmento lírico Kubla Khan (cinqüenta e tantos versos rimados e irregulares, de refinada prosódia) foi sonhado pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge num dos dias do verão de 1797. Coleridge escreve que se retirara para uma chácara nos confins de Exmoor; uma indisposição obrigou-o a tomar um hipnótico; foi vencido pelo sono momentos depois de ler uma passagem de Purchas que descreve a edificação de um palácio por Kublai Khan, imperador cuja fama ocidental foi obra de Marco Polo. No sonho de Coleridge o texto lido ao acaso principiou a germinar e a multiplicar-se; o homem que dormia intuiu uma série de imagens visuais e, simplesmente, de palavras que as manifestavam; ao cabo de algumas horas despertou com a certeza de ter composto, ou recebido, um poema de uns trezentos versos. Recordava-os com singular clareza e pôde transcrever o fragmento que perdura em suas obras. Uma visita inesperada interrompeu-o e foi-lhe impossível, depois, recordar o restante. “Descobri, não com pequena surpresa e mortificação”, conta Coleridge, “que embora retivesse de um modo vago a estrutura geral da visão, todo o restante, salvo umas oito ou dez linhas soltas, havia desaparecido como as imagens na superfície de um rio em que se joga uma pedra, porém, ai de mim, sem a posterior restauração dessas últimas”. Swinburne sentiu que o trecho resgatado era o mais elevado exemplo da música do inglês, e que o homem capaz de analisá-lo poderia (a metáfora é de John Keats) desentretecer um arco-íris. As traduções ou resumos de poemas são vãs e podem ser prejudiciais; bastará que retenhamos, por agora, que a Coleridge foi concedida num sonho uma página de inquestionado esplendor.

Da sonata del Diavolo in G minor: [Largo]
Giuseppe Tartini
Se não conseguir ouvir, tente atualizar a página no seu navegador (F5)
http://www17.flyupload.com/dl?fid=738712796&x=XHZRa1DaSK5NeMgwPsiR-g..

O caso, embora extraordinário, não é único. No estudo psicológico The world of dreams, Havelock Ellis comparou-o ao do violinista e compositor Giuseppe Tartini, que sonhou que o Diabo (seu escravo) executava ao violino uma prodigiosa sonata; o sonhador, ao despertar, deduziu de sua imperfeita lembrança o Trio do Diabo. Outro clássico exemplo da elaboração inconsciente é o de Robert Louis Stevenson, a quem um sonho (segundo narrado por ele mesmo em seu Chapter on dreams) concedeu o argumento de Ollala e outro, em 1884, o de Jekyll e Hyde. Tartini quis imitar na vigília a música de um sonho; Stevenson recebeu do sonho argumentos, quer dizer, formas gerais; mais afim à inspiração verbal de Coleridge é a que Beda, o venerável, atribui a Caedmon (Historia eclesiastica gentis Anglorum, IV, 24). O caso ocorreu ao final do século VII, na Inglaterra missionária e guerreira dos reinos saxões. Caedmon era um pastor rude e já não era jovem; certa noite evadiu-se de uma festa porque previu que lhe passariam a harpa, e sabia-se incapaz de cantar. Pôs-se a dormir no estábulo, entre os cavalos, e no sonho alguém lhe chamou pelo nome e ordenou que cantasse. Caedmon contestou que não sabia, mas o outro lhe disse: “Cante o princípio das coisas criadas”. Caedmon, então, proferiu versos que jamais havia ouvido. Não os esqueceu, ao despertar, e foi capaz de repeti-los diante dos monges do monastério próximo, de Hild. Não aprendeu a ler, porém os monges lhe explicavam passagens da história sagrada e ele “as ruminava como um limpo animal e as convertia em versos dulcíssimos, e dessa maneira cantou a criação do mundo e do homem e toda a história do Gênesis e o êxodo dos filhos de Israel e sua entrada na terra prometida, e muitas outras coisas da Escritura, e a encarnação, paixão e ressurreição e ascensão do Senhor, e a vinda do Espirito Santo e o ensino dos apóstolos, e também o terror do Juízo Final, o horror das penas infernais, as doçuras do céu e as misericórdias e os juízos de Deus”. Foi o primeiro poeta sagrado da nação inglesa; “ninguém igualou-se a ele, – disse Beda – porque não aprendeu dos homens, mas de Deus.” Anos depois profetizou a hora em que iria morrer e aguardou-a dormindo. Podemos esperar que tenha voltado a encontrar-se com seu anjo.

À primeira vista o sonho de Coleridge corre o risco de parecer menos assombroso que o de seu precursor. Kubla Khan é uma composição admirável e as nove linhas sonhadas por Caedmon quase não apresentam outra virtude que sua origem onírica, mas Coleridge já era poeta e a Caedmon foi revelada uma vocação. Há, no entanto, um fato posterior que magnifica até o insondável a maravilha do sonho em que foi engendrado o Kubla Khan. Se este fato é verdadeiro, a história do sonho de Coleridge antecede em muitos séculos a Coleridge e não alcançou ainda seu fim.

O poeta sonhou em 1797 (outros entendem que em 1798) e publicou seu relato do sonho em 1816, à maneira de glosa ou justificação do poema inconcluso. Vinte anos depois apareceu em Paris, fragmentariamente, a primeira versão ocidental de uma dessas histórias universais em que a literatura persa é tão rica, o Compêndio de histórias de Rashid el-Din, que data do século XIV. Numa página se lê: “A leste de Shang-tu, Kublai Khan ergueu um palácio, segundo um plano que havia visto num sonho e que guardava na memória.” Quem escreveu isto foi o vizir de Ghazan Mahmud, que descendia de Kublai.

Um imperador mongol, no século XIII, sonha um palácio e edifica-o conforme a visão; no século XVIII um poeta inglês, que não tinha como saber que essa construção derivou-se de um sonho, sonha um poema sobre o palácio. Confrontadas com essa simetria, que trabalha com almas de homens que dormem e abarca continentes e séculos, nada ou pouco são, me parece, as levitações, ressuscitações e aparições dos livros piedosos.

Que explicação preferiremos? Quem de antemão rechaça o sobrenatural (trato, sempre, de pertencer a este grupo) julgarão que a história dos dois sonhos é uma coincidência, um desenho traçado pelo azar, como as formas de leões ou cavalos que às vezes configuram as nuvens. Outros argüirão que o poeta soube de algum modo que o imperador havia sonhado o palácio e disse haver sonhado o poema a fim de criar uma esplêndida ficção que do mesmo modo aliviaria ou justificaria o truncado e rapsódico dos versos1 . Essa conjectura é verossímil, porém nos obriga a postular, arbritariamente, um texto não identificado pelos sinólogos no qual Coleridge pudesse ter lido, antes de 1816, o sonho de Kublai2 . Mais encantadoras são as hipóteses que transcendem o racional. Por exemplo, cabe supor que a alma do imperador, destruído o palácio, penetrou a alma de Coleridge para que este o reconstruísse em palavras, mais duradouras do que os mármores ou os metais.

O primeiro sonho agregou à realidade um palácio; o segundo, que se produziu cinco séculos depois, um poema (ou um princípio de poema) sugerido pelo palácio; a similitude de sonhos deixa entrever um plano; o período enorme revela um executor sobrehumano. Indagar o propósito desse ser imortal ou longevo seria talvez não menos atrevido que inútil, porém é licito suspeitar que ele não tenha logrado êxito. Em 1961 o padre Gerbillon, da Companhia de Jesus, comprovou que do palácio de Kublai Khan só restavam ruínas; do poema nos consta que se resgataram apenas cinqüenta versos. Tais fatos permitem conjecturar que a série de sonhos e de trabalhos não alcançou o seu fim. Ao primeiro sonhador foi oferecida na noite a visão do palácio, e ele o construiu; ao segundo, que não sabia do sonho do anterior, o poema sobre o palácio. Se não falhar o esquema, algum leitor de Kubla Khan sonhará, numa noite da qual nos separam os séculos, um mármore ou uma música. Esse homem não saberá que outros dois sonharam; talvez a série de sonhos não tenha fim, talvez a chave esteja no último.

Já escrito o anterior, entrevejo ou creio entrever outra explicação. Talvez um arquétipo ainda não revelado aos homens, um objeto eterno (para usar a nomenclatura de Whitehead), esteja ingressando paulatinamente no mundo: sua primeira manifestação foi o palácio; a segunda o poema. Quem os tivesse comparado teria visto que eram essencialmente iguais.

Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones, 1952

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Comentários»

1. Felipe Fanuel - 11 setembro, 2008

Alysson,

Aceitei o seu convite.

A sonata, no entanto, não pude ouvir… Deve ser coisa do Coisa Ruim! (Já isolei aqui na madeira 3x) Falou o nome do bicho ele aparece.

Ainda bem que a Arte é feita de ambivalência. Bem e mal se misturam. Do jeito que é a vida.

Ontem mesmo conversava com minha mãe pelo telefone sobre sonhos. Ela estava revoltada por ter tido um sonho ruim, onde fazia coisas que jamais faria “acordada”. Eu disse: “Que bom que só fez em sonho!”

Quando estava no Seminário, devorei as obras de Freud sobre Religião. Quando cheguei em “A Interpretação dos Sonhos”, parei de lê-lo. Não sei por que. O inconsciente é trem esquisito. Guarda coisas em seus vagões que a gente colhe nos trilhos da vida. Quando sonhamos, descarregamos parte da carga. Nem sempre sai tudo. Às vezes ficam restícios, outras, sequer saem dali. Pode ser um processo terapêutico, mas pode também levar a neuroses.

Não vejo saída melhor senão deixar os sonhos acontecerem. Porque viver com a cabeça no travesseiro ainda é vida. E a vida acontece. Deixa a vida ser vida!

Um abraço.

2. Janete Cardoso - 12 setembro, 2008

Acredito que os sonhos, na maioria das vezes, não são mais que uma “faxina” que o inconsciênte faz, enquanto o corpo repousa. Destes, ao acordar, elimino automaticamente qualquer vestígio de lembrança, não sei por que.
Mas tem alguns, que conservam sua nitidez e mensagem. Estes, mesmo que eu queira, não consigo esquecer, até porque, os presságios se confirmam depois.

3. Janete Cardoso - 12 setembro, 2008

A música não pude ouvir.

Um beijo, meu anjo!

4. José Expedito dos Santos - 5 julho, 2009

Desta noite, ainda apavorado, ficou a impressão que sempre sonhei um mesmo sonho. Sequer lembro o momento em que acordei, e não quero tampouco lembrar; não sei quais foram as consequências, não sei se estava tão somente dormindo em minha cama, ou se a polícia chegou; qualquer hipótese faz o jogo de uma moeda para cima e o que der, realmente não me interessa nem um pouco.
Eu conversava com meu filho sobre a sensação quase etílica de sonhar com as pessoas que desejamos. Ele dizia: Ah, sim, mas depende em qual categoria brota o desejo. Leve e rápido, ele busca logo uma estruturação; talvez porisso sempre vejo olheiras fundas após debates demorados sobre idéias profundas. É comum, jamais espero tanto para saber se uma pessoa já terminou seu raciocínio. Continuei a dizer que, após certa idade, ao atingir certo acúmulo de experiências, pode-se libertar plenamente os desejos em categorias mais obscuras; não há quem entenda por que aparece desejos, conforme havia ocorrido no dia anterior, antes desta noite do sonho, durante o bater do martelo; eu sou juiz da vara criminal.
O leitor vai verificar que estou certo quanto as olheiras do meu filho. Vi olheiras iguais nele antes somente quando dormiu com a minha amiga Sofia, com a Lida Apetitosa, apelido oficial para todas diarista que contrato, e a minha secretária adjunta Marcia, as três juntas.
Então ele me perguntou em qual categoria se encaixa o martelo do juiz, obviamente com declarado sarcasmo; imerecido, pois tenho apenas quarenta e nove anos. Não soube responder, fui evasivo, disse que talvez estivesse quebrando castanhas.
Deste momento depois estava na cozinha, fazia meu lanche normal, com todas as proteínas e carbohidratos que encontrava. Quando voltei ao quarto, só foi possível ver os pés dele, por fração de segundo, sumindo dentro do monitor do computador.
Peço desculpas de ante mão, pois o que vou contar, o que aconteceu à seguir…
E agora estou aqui, entrei neste, neste – não espero que alguém concorde comigo, mas este nome significa tudo ou algo mais que qualquer significado – Amarelo Fosco; seja perseverante em visitar blogs, só assim vai encontrar o que importa, independente das formas.
Quando entrei, seguindo o rasto de Borges, para justificar certa infâmia, depois de ler este conto magistral sobre portas e passagens atemporais; por onde mormente, devido à sutilezas extraordinárias, a pessoa é capaz de se perder de si, sem ao menos perceber o motivo, claro, após se achar novamente. Percebe? Ainda bem que foi rápido. Quando entrei aqui, depois de ler o post e olhar o espaço para comentar, de repente caracteres apareceram, acompanhei-os atentamente, formou-se uma frase para mim, dizia: “… não se esqueça, então, isto é um sonho.
Depois que pensei se tratar tão somente de brincadeira do meu filho, ficar traquilo como sempre feito jacaré insidioso ao sol, a boca enorme porem incapaz de latir. E, este instante se passou a tres minutos apenas, ele entrou no quarto, disse-me, ao ver minha cara de espanto, que foi no banheiro. Esta é a razão do meu desespero, não há amenor dúvida.

5. Jorge Barroso - 27 novembro, 2010

Os sonhos,desejos e aspiraçóes profundas do ser “humanus”,mergulhados no inconsciente,transitam para o consciente e vice-versa,o sonho…a antecâmera da morte,como dizia Fernando Pessoa envolto no seu misticismo e devoto absoluto do esoterismo,os sonhos…efémeros ou não,são sublimes e capazes de criar uma bela obra de Arte.

6. Leonardo T. Oliveira - 28 janeiro, 2011

A música do Tartini, uma sonata em quatro movimentos (lento-rápido-lento-rápido), foi dividida em dois vídeos no YouTube. No primeiro, os três primeiros movimentos. E no segundo, o último. Os dois vídeos e os respectivos tempos de cada movimento:

http://www.youtube.com/watch?v=YonqEbar8cM

1. Larghetto affettuoso (0’00”-3’27”)
2. Allegro moderato (3’27”-6’14”)
3. Andante (6’15”-7’15”)

http://www.youtube.com/watch?v=V5SwrXt6Mk8

4. Allegro assai – Andante – Allegro assai

É no quarto movimento que acontece a famosa passagem do “trilo do diabo”, em 3’56”, depois de uma passagem que já vinha virtuosística. São trinados que o violinista tem que tocar ao mesmo tempo em que sustenta a melodia em voz paralela.

Detalhes da história como Tartini a relata, aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Devil%27s_Trill_Sonata

7. em xanadu… « bloco de notas - 24 fevereiro, 2011

[…] kubla  khan de samuel taylor coleridge […]

8. LILIAN EVERTON LIMA - 12 maio, 2011

O lado esquerdo do cérebro humano jamais se encontra com o lado direito,na civilização ocidental-judaico-cristã,embora se encarem,de tempos em tempos.Eis a origem de nosso pensamento altamente fragmentário.O casamento místico e alquímico dos antigos filósofos se tornou impossível,na essência.É apenas ritual e formalidades.Será que teremos de reanimar Lilith,com os mais incríveis encantamentos? Jung tinha razão,mais do Freud,com relação a certos fatos…

9. Leonardo - 12 maio, 2011

Acho que um comentário que eu escrevi aqui sobre a Sonata do Tartini, com alguns links, sumiu…


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