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A carcaça peluda da memória 31 agosto, 2008

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Um clarão repentino: o céu rasgado pela cimitarra do anjo insurreto desaba-se em vultosos líquidos. Dedos delgados e tíbios acarinham a pelugem molhada de um cão extraviado, sentem o trepidar daquele corpo que não é senão corpo e instinto; medo agora, sobejo medo. Também ela (a senhora dos dedos delgados) sentia o medo percorrer-lhe as fatigadas artérias. O cãozinho era pobre de carne, mas fora recompensado – assim supunha a mulher – na demasia dos pêlos. A minha compensação, não consigo recordar, não consigo, deve ter morrido com o Zé Preto, sido enterrada com ele, sou uma cadela de pouca carne e nua, e nua e solitária e medrosa.

Era véspera de Páscoa, uma época alegre e gorda em tempos idos. O Zé Preto trazia sempre amigos que tocavam viola e acordeón, e todos cantarolavam com vozes embriagadas pela aguardente, depois narravam causos absurdos, riam, fumavam, tomavam um golinho de café. Sem o Zé Preto não havia festa: o murmúrio do vento, a água desabando e o paciente crepitar do fogo na lenha, isso era tudo. E há também esse cão misterioso, parece até que veio com a chuva. Parece até minha compensação, esse cão peludo. Viera com a chuva, mas não dos céus como imaginava a mulher, viera correndo e tremendo, como sucede aos cães medrosos.

Um portador do passado, o cão: a memória contrata serviçais; músicas, cheiros, lugares, mas também cães medrosos. O Zé Preto era quem chegava: atrasado como sempre, molhado como na última véspera, mas agora sem proferir as palavras habituais, sem a companhia dos amigos faceiros; portava apenas a existência nada ambiciosa de um cão, a sombra movente de um ser pulsante, o teimoso calor que inflama os vivos.

Ébrios, os dedos delgados e tíbios percorriam a carcaça peluda da memória. Isso era tudo, e era o bastante.

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Comentários»

1. Janete Cardoso - 31 agosto, 2008

“Viera com a chuva, mas não dos céus como imaginava a mulher, viera correndo e tremendo, como sucede aos cães medrosos.”

O que menos importa, é se veio ou não do céu. Sua presença é a maior compensação.

Meu carinho, querido!

2. Felipe Fanuel - 3 setembro, 2008

Cara,

Não sei por que pensei em cachorro…

Se você, sendo um digno funcionário público trabalhador, escreve desse jeito, vomitando a erudição literária que digeriu agora a pouco, imagina quando virar juiz! Ter um emprego do qual nunca se pode ser mandado embora. A vida tá feita. Aí sim entrará você de vez na tradição da literatura mineira — Guimarães (embaixador), Drummond (servidor público de peso).

Bom, não custa nada ir pensando nas provas, concursos, e o caramba.

Um abraço.

3. Alysson Amorim - 5 setembro, 2008

Felipe, meu amigo,

Sua bondade só não supera seu exagero.

Comparar-me com esses caras é insultá-los de um modo tal que hoje, ao transitar pela Praça da Liberdade, aqui em Belo Horizonte, cuidei para passar ao largo de um Carlos Drummond metalizado (tipo esse de Copacabana). Temi levar um chute da estátua do Drummond, o que seria a infâmia ao cubo. Um cara com aquele porte físico, com aqueles óculos, e não bastasse poeta, chutando-me em praça pública?!

4. Janete Cardoso - 11 setembro, 2008

Será que um dia teremos um Alysson metalizado? 🙂
beijo

5. Felipe Fanuel - 11 setembro, 2008

Rapaz,

É bom ter cuidado mesmo. Esses caras estão vivos… Semana passada, o Pessoa estava aqui na minha sala em carne e osso!

Um abraço.

Janet,
O Alysson já está metalizado, aqui no wordpress.


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