jump to navigation

A única causa de mim mesmo 1 agosto, 2008

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
Tags:
trackback

Curiosa sensação fisgou-me no exato instante em que toquei a virgindade com minhas botas barrentas. Tudo era absolutamente admirável e absolutamente assustador. Duas forças contrárias e idênticas me impeliam, uma para dentro, outra para fora. Devassar a virgindade, percebi, é tão fascinante quanto temerário.

Mas o primeiro passo estava dado, meus dois pés estavam já firmados no solo virgem e esse era o extraordinário divisor de águas. Intuí, pela primeira vez, a existência de um estado anterior a todos os seres, anterior ao próprio Deus. O Deus de que tanto falavam era um Deus criado pelo tanto falar, cheio de ira e amor, portador de espada e lágrima. Quando falamos de Deus, estamos criando um Deus. Naquele estado, porém, Deus não é criatura nem criador, simplesmente não é, como nós também não somos. O nada é tudo, e Deus e homens e planetas e sóis, o mesmo inusitado mistério.

Intuí ainda, e isso foi determinante para que eu superasse a força que me impelia para fora, que apenas me diluindo naquela delirante comunhão eu poderia encontrar-me tal como sempre desejei: despojado de tudo que me é alheio. Ali nem sequer Deus poderia me tocar, embora eu estivesse inteiramente imerso Nele.

Ali eu era a única causa de mim mesmo.

[Continua]

Fragmentos anteriores (publicados em meu finado blog):
1. Bold as love
2. Um convite lávico
3. A trilha
4. A bifurcação do Limiar

Anúncios

Comentários»

1. Janete Cardoso - 1 agosto, 2008

rsrsrs finado blog…
A gente começa à ler e já acaba! 😦
Que bom que continua! 🙂
beijos

2. Felipe Fanuel - 1 agosto, 2008

Alysson,

Dizem que os pintores renascentistas pintavam se baseando em uma “certa idéia”, que não está presente de maneira concreta em lugar algum do universo, só ali, naquilo que prefiro chamar de “intuição”.

O capítulo # 5 de seu livro caminha numa direção meio arrebatadora. Parece que Rafael trocou os pincéis pelo teclado e resolveu baixar no bairro Palmeiras.

Eu sou daquela teoria que acredita que nada substitui o palavrão. Não adianta trocar uma palavra feia por outra mais polida. Porque a vontade é expressar o feio mesmo. Queria dizer um baita dum palavrão como reação àquilo que você propôs como leitura. Eu não quero ler mais fragmento, cara! Eu exijo, como leitor assíduo, que se apresente logo o final dessa ópera. Parece que estou assistindo Lost, Heroes, ou um seriado qualquer. Eu quero é ler o seu livro que já tá aí dentro de você ou em um “certo lugar” ao qual só você tem o acesso. Desabrocha logo! Ou vai querer eternizar a tradição literária mineira de chegar perto do abismo e não pular, ofício esse que o senhor Carlos Drummond de Andrade entendia muito bem. (Tudo o que a gente mais queria era que ele se suicidassse no mar de Copacabana! Desgraçado! Morreu iludindo o leitor!)

Você vive dizendo que vai chutar isso, chutar aquilo. Chuta logo o balde por favor. Não é saindo da blogsfera. Mas é fazendo como Guimarães Rosa, que começou a escrever e não parou mais. O final dessa catarse se chama “Grandes sertão: veredas”. E a sua? Qual vai ser?

Um abraço.

3. Janete Cardoso - 2 agosto, 2008

Yes! Por que me apaixonei por vocês dois? 🙂
Um é a sensibilidade e o outro a ousadia!
Amorim e Fanuel se completam e eu que me delicio!
Também tô esperando o livro, aliás há bem mais de um ano, te disse que estaria na fila de autógrafos…

beijos

4. Tamara Queiroz - 3 agosto, 2008

Por isso me agrada o silencio!

Sussurrar silabicamente: “Silent”. Faz-me aproximar de mim mesma, nao da invencao de Tamara.

….
Belissimo! Tocante texto!

O nada e tudo. O tudo e nada.

5. Janete Cardoso - 4 agosto, 2008

Feliz aniversário!
Que eu possa te dizer isso muitas vezes!
Abraço sincero e forte.

6. Juber Donizete Gonçalves - 4 agosto, 2008

Reflexão maravilhosa. Pois muitas vezes se vê pessoas construindo um “deus” que nada tem a ver com o Deus revelado no Evangelho de Cristo.Parabéns pelo blog.www.juberdonizete.blogspot.com/

7. Bárbara - 15 agosto, 2008

Acho que a guitarra de Hendrix está
o levando para outra direção.
Estou gostando…

Não pare!

8. Manancial da sombra « Amarelo Fosco - 28 setembro, 2008

[…] 1. Bold as love 2. Um convite lávico 3. A trilha 4. A bifurcação do Limiar 5. A única causa de mim mesmo […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: