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Deus no graveto dos poetas 22 julho, 2008

Posted by Alysson Amorim in Uncategorized.
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Que Deus graciosamente se deixa navegar na textura das palavras é algo que nossa milenar civilização do livro dá testemunho vivo. Que Ele navega de tal modo que todos os seus misteriosos aspectos podem ser encerrados em um sistema racional e objetivo é algo a que a arrogância moderna se apegará insensatamente.

Arquitetaram uma faustosa nau onde Deus navegaria e se ofereceria integralmente a todos os homens que acatassem de bom grado a suficiência da embarcação. Desde então surgiram tantas embarcações quantas são as vaidades humanas. Desde então confundem Deus com os ofuscantes ídolos que trafegam na frota de engenhocas.

O Poeta Maior, no mesmo vertiginoso instante em que se recusa a ingressar em imponentes navios aceita abrigar-se em frágeis gravetos trançados artesanalmente por poetas menores. A linguagem da poesia é suficientemente leve para conter Deus e suficientemente despretensiosa para não contê-lo inteiramente.

Borges esclarece que na fantástica Tlön é reduzidíssimo o espaço dos substantivos. Seu lugar é ocupado ora por “verbos impessoais qualificados por sufixos (ou prefixos) monossilábicos de valor adverbial” ora por adjetivos monossilábicos. Em alguma esquina daquele reino poético batizaram o rio de “duradouro-fluir”. É evidente que o termo – de um vigor literário manifesto – é duradouro apenas em nossa memória, jamais em Tlön, onde a linguagem é tão perene quanto o rio que ela pretende nomear.

Se o poeta pode se permitir uma lasca de arrogância, como fazia o italiano Tasso ao afirmar “Non merita nome di creatore, se non Iddio ed il Poeta.” [Ninguém merece ser chamado criador, senão Deus e o poeta.”] sua poesia jamais poderá invocar legitimamente o vaidoso estado de derradeira criação. Também aqui a poesia se torna um lugar ideal para que o Misterioso se revele: não de uma única e definitiva vez, mas em vagaroso e admirável processo. Menos uma perpétua revelação substantiva – como a que nos oferece determinado teólogo – que uma inacabada revelação adjetiva-verbal – como a ofertada pela confraria dos poetas, espalhados no tempo e no espaço.

O Mistério desliza no duradouro-fluir da revelação, em um graveto leve e despretensioso, democrático e inacabado: a poesia.

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Comentários»

1. rubens osorio - 23 julho, 2008

Pra mim, o segredo está no “graciosamente” da tua primeira frase, que corresponde ao misericórdia do antigo testamento.
Não só é a razão de não sermos consumidos, como também é a base do graveto.

2. Janete Cardoso - 23 julho, 2008

“O Poeta Maior, no mesmo vertiginoso instante em que se recusa a ingressar em imponentes navios aceita abrigar-se em frágeis gravetos trançados artesanalmente por poetas menores.”

Ah, meu querido! Dia desses no fórum onde tenho buscado aprender mais alguma coisa, duas pessoas conhecedoras de Gn à Ap, discutiam sobre a trindade. Um afirmou algo que o outro considerou heresia e replicou, o chamando de modalista. E passaram à mencionar os termos: monoteísta, triteísta, etc e tal.

Daí, eu daqui com minhas teclas hereges, perguntei à eles: Por que temos que definir Deus? Não deveríamos apenas amá-lo e recebê-lo? 🙂 Eles sabem que sou analfabeta em teologia, mas não podem negar que conheço a Deus.

Considerando que um homem não cabe na definição de outro, não é loucura tentar definir Deus?
Não se lê em Rom1:19, que Deus já revelou o que se pode conhecer Dele?

Cá com minha insignificância, eu dizia à Deus: Pai, ou sou mesmo uma louca pretenciosa, ou estou diante de Mt 11:25. Pois pra mim, o Senhor é tão claro! Então Ele me abraçou, com Jr 9:23 e 24. 🙂

Pedi pra ser “cega e surda”, o Senhor não me concedeu… agora tô pedindo pra ficar “muda”, antes que eu seja banida! rsrsrs

beijos

3. Felipe Fanuel - 24 julho, 2008

Alysson,

Hoje eu inaugurei um arquivo em meu computador chamado “Frases Geniais”. O motivo? Li: “A linguagem da poesia é suficientemente leve para conter Deus e suficientemente despretensiosa para não contê-lo inteiramente.”

Comecei a ler este seu texto lembrando de Pessoa, o poeta que, ouso dizer, está muito próximo do Poeta Maior como poucos mortais podem estar: “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ‘Navegar é preciso; viver não é preciso’. Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e minha alma a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.”

Estas palavras pessoanas são metapoesia pura. O mesmo digo do seu texto. Falar do ofício de poetar é falar para além da própria poesia. Lembro que uma vez postei algo assim: “Tá cada dia mais difícil escrever…/Difícil o quê?/Difícil escrever.” Entitulei-o de “Um metapoema”. Cada vez que a gente se insere na crítica ao próprio umbigo, a gente metapoetiza, mesmo que o seja, como você prefere, “[meta]poesia de segunda”. Ainda sonho com o dia em que todos os pintores queimarão seus pincéis, todos os escritores destruirão suas penas, todos os cantores arrancarão suas gargantas, porque sentem que, por si só, não são capazes de pintar, escrever e cantar. Este será o apocalipse da arte. Inaugurará um novo céu e uma nova terra chamado Meta-Arte.

Um abraço.

P.s.: O meu devocional de hoje foi com Mestre Eckhart, lendo “A partir de nada e de ninguém”.


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