Esse punhado de ossos 31 julho, 2009
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Ivan Junqueira
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ai, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos choram.
O puritanismo ou a orgia 14 junho, 2009
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Jorge Luís Borges, sobre certo jovem “nem louro nem moreno”.
Sua idade era essa em que o homem não sabe ainda quem é e está disposto a se entregar ao que lhe propõe a sorte: a mística do persa ou a desconhecida origem do húngaro, as aventuras da guerra ou da álgebra, o puritanismo ou a orgia.
Visceralmente nacional 8 abril, 2009
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T.S. Eliot, excerto de “De Poesia e Poetas”
Observa-se que a poesia difere de qualquer outra arte por ter um valor para o povo da mesma raça e língua do poeta, que não pode ter para nenhum outro. É verdade que até a música e a pintura têm um caráter local e racial; mas decerto as dificuldades de apreciação dessas artes, para um estrangeiro, são muito menores. É verdade, por outro lado, que os textos em prosa têm um significado em suas próprias línguas que se perde na tradução; mas todos sentimos que perdemos muito menos ao lermos uma novela traduzida do que um poema vertido de outro idioma; e na tradução de alguns gêneros de obra científica a perda pode ser virtualmente nula.
NENHUMA ARTE É MAIS VISCERALMENTE NACIONAL DO QUE A POESIA
O fato de que a poesia é muito mais local do que a prosa pode ser comprovado na história das línguas européias. Ao longo de toda a Idade Média e no curso dos cinco séculos seguintes, o latim permaneceu como a língua da filosofia, da teologia e da ciência. O impulso concernente ao uso literário das linguagens dos povos começa com a poesia. E isso parece absolutamente natural quando percebemos que a poesia tem a ver fundamentalmente com a expressão do sentimento e da emoção; e esse sentimento e emoção são particulares, ao passo que o pensamento é geral. É mais fácil pensar do que sentir numa língua estrangeira. Por isso, nenhuma arte é mais visceralmente nacional do que a poesia.
Um povo pode ter sua língua trasladada para longe de si, abolida, e uma outra língua imposta nas escolas; mas a menos que alguém ensine esse povo a sentir numa nova língua, ninguém conseguirá erradicar o idioma antigo, e ele reaparecerá na poesia, que é o veículo do sentimento. Eu disse precisamente “sentir numa nova língua”, e pretendi dizer algo mais do que apenas “expressar seus sentimentos numa nova língua”. Um pensamento expresso numa língua diversa pode ser praticamente o mesmo pensamento, mas um sentimento ou uma emoção expressos numa língua diferente não são o mesmo sentimento nem a mesma emoção. Uma das razões para que aprendamos bem pelo menos uma língua estrangeira é que isso nos permite adquirir uma espécie de personalidade suplementar; uma das razões para não adquirirmos uma nova língua em lugar de nossa própria é que a maioria de nós não deseja tornar-se uma pessoa diferente.
Nova Poética 7 abril, 2009
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Um idioma, mesmo o mais arcaico, traz sempre no punho a possibilidade do melhor poema, como as cores dispersas na floresta são a incansável potência da melhor pintura.
Não é necessário ler a insuperável poesia inglesa para ser agredido pelo belo. Ele me fere no momento mais improvável, no cutucar despretensioso de um link que coloca-me inteiro ante a voz de Bandeira e seu anúncio de uma Nova Poética – a poética da vida; daqueles que nada podem contra a sujeira e contra a dor. A poesia, como a vida, não foi imunizada: está manchada com uma “nódoa de lama” – e não há recurso.
Nova Poética
Manuel Bandeira
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma
nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas,
as virgens cem por cento e as amadas que
envelheceram sem maldade.
Conhecer é desobedecer 30 março, 2009
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De Alberto Caeeiro, a face franciscana de Fernando Pessoa
Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou…
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!…
Não há vaga para os que choram 28 fevereiro, 2009
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Daquele irresistível conservador, Gustavo Corção
Dedicado a Carlos Drummond de Andrade.
O moço que se matou, dizendo por escrito que era um “desajustado social”, na verdade matou-se porque se deixou convencer de que não existe na vida e no mundo lugar para a dor. Matou-se porque lhe disseram, com aquele vocábulo, e com a filosofia maldita que por trás dele se esconde, que o mundo não concede matrícula aos que choram. Insinuaram-lhe que tudo se reajusta, e acrescentaram que só depois dessa reajustagem pode uma alma se inserir. Ora, o moço viu que a primeira parte da história era falsa, porque nem tudo se reajusta, mas continuou a crer na segunda; e então, suicidou-se. Suicidou-se porque era um desajustado. Suicidou-se porque era uma excrescência na criação. Uma verruga no universo.
Ah! como eu quereria gritar aos ouvidos dos moços que há no mundo e na vida lugar para a dor!
É claro que existe o problema da inserção. Ninguém nega que o dinamismo iníquo da sociedade tende a deixar à margem os fracos, os tímidos, os perturbados. Ninguém nega que o homem deva aprender a se inserir na efervescente convivência e deva lutar pela defesa de seu lugar. Tudo isso existe, e já é bastante trágico para que ainda venham dilatar o campo do problema com essa idéia infernal de que só os felizes estão inseridos e que todas as mágoas, todas as feridas, todas as tristezas são sinais de excomunhão.
Moços! há na vida e no mundo um lugar, um enorme lugar para a dor. Há lugar para o pobre; para o doente; para o obscuro; para o aleijado; para o perseguido.
Eu li o comovente artigo de Carlos Drummond sobre o outro menino, apaixonado que um dia, que teve pressa de matar-se. Li, e creio ter compreendido a pungente aflição daquela enorme alma de poeta quando lhe passa pela mente que o menino poderia salvar-se se alguém, naquelas poucas horas de um prelúdio de dor, o tomasse pela mão, o levasse à praia, e risse com ele nas espumas do mar. Raramente senti tamanha afinidade, tamanha simpatia, como nesse artigo escrito ele todo com um nó na garganta; e lido, ele todo, no outro lado da cidade, em outra situação, em outros sentimentos, mas com o mesmo fundamental nó na garganta.
Mas discordo do poeta no remédio. Talvez desse bom resultado o mergulho na onda fria que lhe desatasse no peito as molas da infância. Mas cá fora, ali mesmo na praia, esta a Teoria à espera do menino. A teoria de que não há no mundo e na vida lugar para a dor. Muito mais do que a mocinha do bloco, sem culpa maior do que alguma faceirice, quem deseja imolar os moços de vinte anos é essa Teoria de implacável otimismo que exige para a vida, para o ingresso na vida, condições higiênicas e psicotécnicas mais rigorosas do que as que se exigem para os aviadores. A Teoria diz ao moço que vá tratar-se e volte depois se quer emprego no mundo. A Teoria dá um prazo para que o candidato se torne decentemente feliz. Feliz no padrão, de G para cima. Feliz no sexo. Feliz nos nervos. Feliz em tudo. Decentemente feliz.
Bem sei que há os desesperos precoces que ignoram as coisas boas de que a vida é farta. Será bom dizer-lhes que existem muitos amores, que haverá muitos outros blocos e muitas, muitíssimas outras mocinhas amáveis. Que o céu é azul, que há prados cheios de flores, e que é bom mergulhar na onda fria, com os olhos abertos, para ver um mundo novo fundido em esmeralda. Que é bom deitar na grama, que é bom meter o pé no estribo, em manhãzinha brumosa, manhã de roça, sentindo o cheiro do couro e o cheiro forte do cavalo; que é bom andar de mãos dadas em rua de bairro antigo ao cair da noite confidencial e casamenteira; que é bom pisar um tombadilho molhado e sonhar com cidades de lenda; e que é bom ficar à toa, numa varanda domingueira, seguindo os passos de um inseto de rubis e safiras, que passeia num velho muro a sua microscópica riqueza; que é bom respirar; que é bom viver.
Mas não basta, ó poeta, mostrar às almas aflitas a doçura das relvas, a frescura das ondas, e a ternura dos regaços de amor. Porque isto não é toda a verdade da vida. E é preciso ser verdadeiro. É preciso, sempre, ser verdadeiro. Em toda a extensão. Em toda a profundidade. Nos dois hemisférios de luz e sombras da verdade.
O que é preciso dizer, a esses moços que por tão pouco desesperam, é que existe uma dignidade no centro mesmo da dor; que a dor não excomunga; que a dor já foi santificada para que possa santificar. O que é preciso, ó poeta de alma grande, é abrir velas ao mar, e descobrir a verdadeira extensão do mundo e da vida.
Ah! essa história maravilhosa, que a mim me contaram, como eu gostaria de lhe contar, longamente! longamente!
Último dos homens 3 fevereiro, 2009
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O injustamente esquecido Lúcio Cardoso em seu “Diário Completo”
*
Lembro-me de ter dito, não sei mais onde, que não condizia comigo uma religião que não me permitisse sentar ao lado do último dos homens.
***
A pureza é uma virtude, mas a inocência é uma doença. Não há santos inocentes. Todos os santos são reintegração do homem na sua consciência máxima.
***
Aquela mesma angústia fria, aquela dor sem doer que se espalha pelo corpo inteiro. Arrumo, desarrumo, faço e refaço. Ah, como é difícil ser calmo. Encho-me de remédios, vou à janela: é a noite, a noite dos homens, a minha noite. Ruídos de carros que passam na escuridão. Rádios abertos. Vultos que transitam em apartamentos acesos. E eu, e eu? Onde vou, que faço? Ouço a voz de Cornélio Pena – naquele tempo – “o seu sofrimento é um sofrimento bom, de permanecer à margem.” Não há, Cornélio, pior sofrimento do que permanecer à margem. Não tenho temperamento para isto. Quero amar, viajar, esquecer – quero terrivelmente a vida, porque não creio que exista nada de mais belo e nem de mais terrível do que a vida. E aqui estou: tudo o que amo não me ouve mais, e eu passo com a minha lenda, forte sem o ser, príncipe, mas esfarrapado.
Muito além da anedota 24 janeiro, 2009
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Henry James em “A arte da ficção”
O romance precisa se levar a sério para que o público o leve a sério também. A velha superstição sobre a ficção ser “iníqua” sem dúvida morreu na Inglaterra; mas seu espírito subsiste num certo olhar oblíquo que se dirige a qualquer história que não admita, mais ou menos, ser apenas uma anedota. Mesmo o romance mais anedótico sente de algum modo o peso da proscrição que antes se dirigia contra a leviandade literária: a anedota nem sempre consegue se passar por ortodoxia. Ainda se espera, embora as pessoas talvez tenham vergonha de dizer, que uma produção que, afinal, é apenas uma “simulação” (pois o que mais é uma história?) deva ser de algum modo apologética – deva renunciar à pretensão de tentar realmente representar a vida. Isso, claro, qualquer história sensata, consciente, rejeita fazer, pois logo percebe que a tolerância que lhe é emprestada sob essa condição é apenas uma tentativa de sufocá-la, disfarçada na forma de generosidade.
A velha hostilidade evangélica ao romance, que era tão explícita quanto estreita, e que o considerava tão pouco favorável ao nosso ser imortal quanto a peça de teatro, era na verdade bem menos insultuosa. A única razão para a existência do romance é que ele tenta de fato representar a vida. Quando ele desdenha dessa tentativa, a mesma tentativa que se vê na tela do pintor, terá chegado a uma situação muito estranha. Não se espera de uma pintura que seja tão humilde que possa ser esquecida; e a analogia entre a arte do pintor e a arte do romancista é, até onde posso ver, completa [...].
A história também se permite representar a vida; não se espera dela, não mais do que da pintura, que faça apologias. O tema da ficção está arquivado, como em documentos e registros, e para que seja explorado é preciso falar dele com segurança, com a tonalidade do historiador. Alguns romancistas de renome têm o costume de entregar-se que deve com frequência levar às lágrimas pessoas que tomam sua ficção a sério. Recentemente me espantei, ao ler muitas páginas de Anthony Trollope, com sua falta de discrição quanto a isso. Numa digressão, num parêntese ou aposto, ele concede ao leitor que ele e esse amigo confiante estão apenas “simulando acreditar” [...].
Tal traição de um ofício sagrado me parece, confesso, um crime terrível [...] Implica que o romancista está menos ocupado em procurar a verdade (quero dizer, claro, a verdade que ele assume, as premissas que lhe garantimos, quaisquer que sejam) do que o historiador, e ao fazê-lo está se privando de uma pincelada do quarto em que está. Representar e ilustrar o passado, as ações do homem, é a tarefa de qualquer escritor, e a única diferença que posso ver é a favor do romancista, se bem sucedido, porque ele tem bem mais dificuldade de coletar suas provas, que estão longe de ser puramente literárias. Parece-me que lhe dá um grande caráter o fato de ele ter em comum tanto com o filósofo como com o pintor; essa dupla analogia é uma herança magnífica.