Nova Poética 7 abril, 2009
Posted by Alysson Amorim in Citações, Literatura, Poesia.Tags: Literatura, Poesia
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Um idioma, mesmo o mais arcaico, traz sempre no punho a possibilidade do melhor poema, como as cores dispersas na floresta são a incansável potência da melhor pintura.
Não é necessário ler a insuperável poesia inglesa para ser agredido pelo belo. Ele me fere no momento mais improvável, no cutucar despretensioso de um link que coloca-me inteiro ante a voz de Bandeira e seu anúncio de uma Nova Poética – a poética da vida; daqueles que nada podem contra a sujeira e contra a dor. A poesia, como a vida, não foi imunizada: está manchada com uma “nódoa de lama” – e não há recurso.
Nova Poética
Manuel Bandeira
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma
nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas,
as virgens cem por cento e as amadas que
envelheceram sem maldade.
Assim deveria ser tb a prédica. Como a nódoa no brim. Fazer o ouvinte satisfeito de si dar o desespero.
Por isso gosto do amarelo fosco… me leva ao desespero
.
Valeu.
Perfeito, príncipe!
“É a vida”
O Tuco se atreveu a roubar o comentário que eu pensei em fazer quando cliquei em “comments” – tenho arrepios com essas tenebrosas coincidências desse quarto-biblioteca de luminosidade amarelo-fosca bruxuleante…
Já que é assim, digo coisa diversa da que me propusera antes: faz um tempo, já, que considero tirania neurotizante a demanda que nos é imposta para interpretar ou entender de um modo possivelmente adequado à cada coisa; vivo num mundo textual, cujos parágrafos se propõem como enigmática verdade, disposta a se entregar à esperteza de um vencedor que, certamente, não sou eu. Não me apetece me esforçar para compreender profundamente qualquer coisa, na verdade me aborrece a branquidão tétrica dos linhos engomados: preciso da minha dose tripla diária de manchas acidentais, preciso que as nódoas me mostrem o mistério que é o diverso haver das coisas. Preciso ver com os olhos, não com o pensamento. Por isso, volto a esse quarto parecido com qualquer quarto de um conto qualquer de E. A. Poe: me desespera da brancura.
[...] para alienar as pessoas ou para fazê-las prestar mais atenção ao mundo que as rodeia, como o poeta da nódoa do Manuel Bandeira. Um artista pode servir a um grupo apenas ou à coletividade. São muitos os retratos que podemos [...]