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Mutismo 7 Novembro, 2009

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Gustavo Corção, em Lições de Abismo

(…) As pessoas vão a um defunto como a um juiz. Apresentam-se para serem julgadas neste estranho tribunal em que o magistrado fica imóvel e silencioso. Ele não precisa acusar; os vivos se acusam. Os vivos esbarram na evidência das omissões. Ainda ontem era possível uma palavra, um gesto, um sorriso. Hoje é tarde; o defunto está ali para lembrar o que poderíamos ter feito e não fizemos. E os vivos, que contam sempre com a indefinida oportunidade, ficam agora perplexos. Quereriam dizer qualquer coisa, mas esbarram no obstinado mutismo do defunto.

Paciência 27 Outubro, 2009

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Agulhas desalinhadas 25 Outubro, 2009

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Nasci no primeiro Shabat, não da argila de uma mulher ou da costela de um homem; nasci sem causa e sem destino, costurado com as agulhas desalinhadas do sonho. O primeiro homem, imaculado, coração no centro do peito, caiu sob a cólera de meu aço. Meu testemunho confiável é que no instante em que o sangue de Abel manchava a terra, já ali nada restava do homem projetado, da pedra zelosamente talhada.

Triunfou desde então o sonho absurdo, e multiplicou-se entre urros de dor e gemidos de prazer. Cá estamos.

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I. No sétimo dia
II. Agulhas desalinhadas

No sétimo dia 17 Outubro, 2009

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“O próprio Lutero chegou um dia a achar que o mundo só podia ter surgido por uma distração (…) de Deus.” F. Nietzsche em Segunda consideração intempestiva.

I

No sétimo dia ele dormiu o sono justo. Mas o sonho não se arrasta obediente em um trilho. No sétimo dia ele sonhou, e cá estamos.

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I. No sétimo dia

All The Wild Horses 14 Outubro, 2009

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Suspeito que dentre as tantas veias de que sou feito, alguma particularmente obscura me liga a um lugar que nunca cheirou a sola de meus pés, o sul dos Estados Unidos. Compadeço-me das personagens sombrias de Faulkner ao ponto de sentir suas lágrimas em meu rosto; mais do que Robison Crusoé ou Dona Benta, fascina-me o espirituoso Huckleberry Finn, deslizando com seu amigo negro no mitológico Mississipi.

Uma canção do músico norte-americano Ray LaMontagne (que embora nascido e residente na faixa norte do país carrega em si o mesmo espírito sulista que me atordoa) ajudou a tornar mais concreta essa suspeita. LaMontagne, com sua voz rouca e seu estilo soturno, canta sobre cavalos selvagens, amarrados, com lágrimas nos olhos. Não posso conceber imagem mais bela e mais terrível.

A vida de qualquer um é invariavelmente a degradação de uma potencialidade mais elevada, a traição de um plano superior, e nenhuma imagem me transmite mais brutalmente a tragicidade deste axioma que a destes cavalos selvagens e suas lágrimas, e suas cordas (que podem ser suficientemente rijas para sangrar os olhos, mas não para domar o ímpeto de ser).

Ouça e sinta All the wild horses:

All The Wild Horses

All the wild horses
All the wild horses
Tethered with tears in their eyes
May no man's touch ever tame
May no man's reigns ever chain you
And may no man's weight ever defrayed your soul
And as for the clouds
Just let them roll
Roll away
Roll away
As for the clouds
Just let them roll
Roll away
Roll away

Sem ilusões 1 Outubro, 2009

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Zygmunt Bauman, em Ética Pós Moderna

A verdade provável é que escolhas morais sejam de fato escolhas, e dilemas morais sejam de fato dilemas, e não os efeitos temporais e corrigíveis da fraqueza, ignorância ou estupidez humanas. Os temas não tem soluções predeterminadas nem as encruzilhadas direções intrinsecamente preferenciais. Não há princípios fixos que se possa aprender, memorizar e desenvolver para escapar de situações sem bom resultado e poupar-se do amargo gosto posterior (chame-o de escrúpulos, culpa ou pecado) que vêm sem pedir na esteira das decisões tomadas ou realizadas. A realidade humana é confusa e ambigua, e também as decisões morais, diversamente dos princípios éticos abstratos, são ambivalentes.

Saber que isso é verdade (ou apenas intuí-lo, ou continuar como se o soubesse) é ser pós-moderno. A pós-modernidade, pode-se dizer, é a modernidade sem ilusões (o oposto disto é que a modernidade é a pós-modernidade que recusa aceitar sua própria verdade). As ilusões em questão concentram-se na crença de que a “confusão” do mundo humano não passa de estado temporário e reparável, a ser substituído mais cedo ou mais tarde pelo domínio ordenado e sistemático da razão. A verdade em questão é que a “confusão” permanecerá, o que quer que façamos ou saibamos, que as pequenas ordens ou sistemas que cinzelamos no mundo são frágeis, temporários, e tão arbitrários e no fim tão contingentes como suas alternativas. (…) A aceitação da contingência e do respeito pela ambiguidade não são fáceis; não há razão para depreciar seus custos psicológicos.

***

Nenhum padrão universal, portanto. Nenhum olhar sobre os ombros das pessoas para ver o que fazem outras pessoas “como eu”. Nada de ouvir o que elas dizem que estão fazendo ou devem estar fazendo, seguindo depois seus exemplos, absolvendo-me por não fazer qualquer outra coisa, nada que os outros não fariam, e gozar de consciência limpa no fim do dia. De fato, olhamos e ouvimos, mas não adianta, pelo menos não adianta radicalmente. Apontando o dedo para fora de mim mesmo – “é isto que as pessoas fazem”, “é assim que as coisas são” – não me salva de noites indormidas e de dias cheios de autodepreciação. “Fiz me dever”, pode às vezes tirar os juízes de meu encalço, mas não põe em debandada o júri daquilo que eu, por não ter sido capaz de apontar meu dedo a ninguém, chamo de consciência. “O dever de todos nós”, que conheço, não parece ser a mesma coisa que “minha responsabilidade”, que sinto.

O pequeno barro de uma candeia 11 Setembro, 2009

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Cecília Meireles, na quarta capa de “Mohandas K. Gandhi: autobiografia, minha vida e minhas experiências com a verdade” Ed. Palas Athena

Conviver com os homens é mais terrível que com os deuses. E ninguém conhece epopéia mais dolorosa que a de moldar, dia a dia, clara e verdadeira, a fugitiva condição humana.

Não basta pregar: é necessário fazer, para que os homens se convençam. Não basta fazer entender: é necessário provar. No matrimônio do céu com a terra, se o céu pede à terra que suba, a terra exige que o céu baixe. Todos os mártires o sabem. E nenhum mártir se poupa.

Em fotografias pálidas, entre notícias frívolas, com o anúncio reiterado dos jejuns, Gandhi ia sendo um hábito superficial, na informação de cada dia. Os homens não viam naquele corpo sem roupa e sem carne o despojamento do mundo, das ilusões, do fortuito e alienável. Não viam que aquilo ia se reduzindo ao pequeno barro de uma candeia para a qual o importante é só a luz.

Os homens não se lembravam de que aquela figura, esquema sucinto do Homem em eterna vigília por uma humanidade melhor – era o que ensinara a Não-violência, a vitória da reflexão sobre o impulso, do espírito sobre a matéria, da vida sobre a máquina.

Como uma árvore nua 7 Setembro, 2009

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Encontrará aqui a letra no original catalão e sua tradução para o espanhol.

O rio 30 Agosto, 2009

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“Vibrante nas espadas e na paixão
e adormecida na hera
só a vida existe.”
Jorge Luís Borges, Fervor de Buenos Aires, La Recoleta

Tudo caminha para um mesmo lugar:
tudo vem do pó e tudo volta ao pó
Quem sabe se o alento do homem sobe para o alto
e se o alento do animal desce para baixo, para a terra?”
Eclesiastes, 3:20,21

“Aqui é um lugar de desamor
Tempo de antes e tempo de após
Numa luz mortiça: nem a luz do dia
Que reveste formas de lúcida quietude
Transfigurando sombras em beleza transitória
E cuja lenta rotação sugere permanência
Nem a escuridão que purifica a alma
Esvaziando o sensual com privação
Purgando de afeto o temporal.
Nem plenitude, nem vazio. Apenas um bruxuleio
Sobre faces tensas e repuxadas pelo tempo
Distraídas da distração pela distração
Cheias de fantasmagorias e ermas de sentido (…)
Desce mais fundo, desde apenas
ao mundo da perpétua solidão
Mundo não mundo, mas o que não é mundo
Escuridão interior, privação
E destituição de toda propriedade,
Ressecamento do mundo dos sentidos,
Evasão do mundo da fantasia
Inoperância do mundo do espírito;
Este é um dos caminhos, o outro
É o mesmo, não em movimento
Mas imóvel, enquanto o mundo se move,
Em apetência, sobre seus metálicos caminhos
De tempo passado e tempo futuro.”
T.S. Eliot, Quatro Quartetos, Burnt Norton, III

***

O inaceitável mundo da “perpétua solidão”, da vida “adormecida na hera”, o ultrajante universo onde o pó reencontra o pó constitui o pesadelo que os reinos etéreos e os sóis de ouro procuram enfrentar. Mas as espadas que enfrentam aquele pesadelo podem ser delirantes, a ilusão de um homo sapiens que descobriu o tempo futuro no gelo e no sal, na carne conservada para os dentes ávidos de amanhã, e pretende com o conhecimento do futuro tornar-se invulnerável não apenas à fome, mas também à morte.

Como um rio que tem seu curso invertido, a esperança penetra na história, pela revelação ou pelo delírio, mas sempre caudalosa. Miguel de Unamuno assim descreve esse rio singular: “Noturno, o rio das horas flui / de seu manancial, que é o amanhã / eterno…”.

A suspeição que lançamos em relação ao manancial da esperança também foi lançada pelo (e contra) o autor de Eclesiastes. Cabe a nós um destino mais elevado que o mármore frio e a indiferente hera? Também Hamlet vê-se acossado pela dúvida fundamental: “Morrer! Dormir; dormir. Dormir, sonhar talvez: mas aqui está o ponto de interrogação; porque no sono da morte, que sonhos podem assaltar-nos, uma vez fora da confusão da vida?”

O dique rompido da esperança é um bálsamo sobre a ansiedade da morte e do destino; arriscado é nadar naquelas águas sem a cautela de Hamlet e do Coelét. A dúvida sobre o manancial da esperança  – se as divinas mãos ou a loucura humana – quando mantida, pode nos desesperar – e, portanto, nos salvar.

Fundamentalismo 28 Agosto, 2009

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J. Moltmann [via Observatório Bíblico]

Os fundamentalistas não reagem às crises do mundo moderno, mas às crises que o mundo moderno provoca em sua comunidade de fé e em suas convicções básicas. A convição de fé se baseia na segurança da autoridade divina. Nas assim chamadas Religiões do Livro, é a autoridade divina do documento da revelação: a palavra de Deus é, como o próprio Deus, sem erro e infalível (…) As ciências históricas e empíricas do mundo moderno são reconhecidas enquanto concordarem com [o documento divino da revelação], mas são rejeitadas se questionarem esta autoridade intemporal (…) O documento divino da revelação não pode estar sujeito à interpretação humana mas, ao contrário, a interpretação humana deve estar sujeita ao documento divino da revelação. O fundamentalismo exclui todo juízo racional sobre a condicionalidade histórica de sua origem e sobre a diferença hermenêutica em relação às condições mudadas do presente. O conteúdo de verdade do documento da revelação é intemporal e não precisa ser constantemente explicado ou atualizado, mas apenas conservado intocável. O fundamentalismo baseado na revelação não argumenta, apenas afirma. Não pede compreensão, mas sujeição. Não se trata absolutamente de um problema hermenêutico mas de uma luta pelo poder: ou a palavra de Deus ou o ‘espírito da época’. O fundamentalismo também não é um fenômeno de retirada ou de defesa, mas de avanço sobre o mundo moderno para dominá-lo. Faz parte das várias estratégias teo-políticas atuais…