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Selvagem 4 fevereiro, 2010

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O retorno do punhal 26 janeiro, 2010

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“Vi então um céu novo e uma nova terra – pois o primeiro céu e a primeira terra se foram, e o mar já não existe. (Ap. 21:1)

Sentiremos aproximar-se o hálito frio do punhal ao recordarmos o rumor noturno do mar; conheceremos mais uma vez o gosto das lágrimas ao encontrarmos fragmentos narrando glórias e infortúnios que o extenso salgadio acolheu. Choraremos por Homero, exilado no Limbo, e nos consolaremos no generoso ombro de Camões.


A lua nasce no mar, 1822. Caspar David Friedrich

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Na precariedade de sua carne 20 janeiro, 2010

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A boa difusão de uma mensagem requer arautos fiéis aos seus termos. A difusão de uma mensagem específica, a do evangelho, sempre exigiu mais. O ato de disseminar o evangelho em nada se compara ao árduo labor de copistas medievais, dobrados com fidelidade canina aos seus manuscritos; não se trata, em termos menos sinuosos, de ser fiel à letra, ao que foi gravado acerca das boas novas em tinta prudentemente estável.

O que perdemos de vista foi o escândalo da encarnação e o que dele decorre: o evangelho só pode avançar pela mesma via ardente em que trafega o sangue humano. O reino, que está potencialmente entre nós, é instaurado pelo afeto, não pela pregação expositiva; pela compaixão, não pela defesa ensandecida de sublimados sistemas.

Desbastando os helenismos que foram se acumulando em camadas rígidas sobre o evento encarnacional, chegaremos ao elementar princípio de que não fomos comissionados ao patronato de ideias abstratas; é dizer, não nos foi dada carta branca para amalhoar todas as culturas nas cercanias de nossos castelos conceituais.

Ninguém pode, com o plano de salvação no bolso do casaco, fazer o evangelho avançar meia légua que seja, pela boa razão de que plano de salvação, assim universalmente estabelecido, é delirante ilusão e doce segurança contra as exigências vertiginosas da contingência e da liberdade. É o já denunciado devaneio de que a salvação virá pela difusão das crenças corretas.

Não é demasiado lembrar que o Filho do Homem tecia para cada circunstância um gesto próprio, que de ninguém se aproximava com planos inflexíveis e respostas prontas, e que chavões não frequentavam sua boca indomável. Antes, acercava-se da gente com penetrante respeito e assombro, como quem se aproxima de universos ainda indevassados.

Em seu exemplo apreendemos que a mensagem do evangelho é de tal natureza que para ser expandida depende fundamentalmente não de nossa voz e de nossa lógica, mas de nossa coragem e de nosso sangue. Não depende tanto de uma especial aptidão em expor conceitos, suplica antes a disposição em sentar-se generosamente com adúlteras e banquetear sem recato com publicanos.

Ao arauto cumpre abandonar as solenes proclamações e tornar-se, na precariedade de sua carne, a própria mensagem.

Poema sobre o desastre de Lisboa 14 janeiro, 2010

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Excerto do Poema sobre o desastre de Lisboa [Poème sur le désastre de Lisbonne], de Voltaire (1755).

(…) Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
Exercício eterno que inúteis dores mantém!
Filósofos iludos que bradais «Tudo está bem»;
Acorrei, contemplai estas ruínas malfadas,
Estes escombros, estes despojos, estas cinzas desgraçadas,
Estas mulheres, estes infantes uns nos outros amontoados
Estes membros dispersos sob estes mármores quebrados
Cem mil desafortunados que a terra devora,
Os quais, sangrando, despedaçados, e palpitantes embora,
Enterrados com seus tetos terminam sem assistência
No horror dos tormentos sua lamentosa existência!
Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes,
Ao espectáculo medonhos de suas cinzas fumegantes,
Direis vós: «Eis das eternas leis o cumprimento,
Que de um Deus livre e bom requer o discernimento?»
Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
«Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes?»
Que crime, que falta cometeram estes infantes
Sobre o seio materno esmagados e sangrantes?
Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios
Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias?
Lisboa está arruinada, e dança-se em Paris.(…)

O nariz 6 janeiro, 2010

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Um indeterminado poeta inglês observou que “é mais extraordinário ter um nariz do que ter um nariz extraordinário”, e se ao bom saxão coube a infelicidade de conhecer nosso tempo é completamente improvável que não tenha sofrido assédios da cirurgia plástica. Tivesse o bardo nariz exemplar, helenisticamente harmônico, dificilmente louvaria o órgão em sua bruta essência; antes, estaria cego e inebriado com a glorificação das qualidades ímpares de sua pirâmide nasal.

Nossa obsessão em realizar obras justas, e ostentá-las, obter títulos excelentes, e ostentá-los (ainda que a única vítima do ritual macabro da ostentação sejamos nós mesmos) representa o modo mais primitivo e vastamente utilizado para escaparmos da suprema vocação de ser. Alguém pergunta por nosso ser, pela substância, pelo substantivo, e o que temos para apresentar são adjetivos, são as qualidades externas que tornam nosso nariz tão admirável.

Feliz o que foi presenteado com um nariz tosco, que obra alguma fez que mereça um pedestal, que título algum possua para levar como medalha. Este, que não coseu escudos, não pode conter o bravio avanço das feras que em suas insubmissas crinas hasteiam o édito da liberdade. Este, por absoluta incompetência, não pode se espremer entre as prudentes balizas da lei, e por isso está incontornavelmente salvo.

Véspera de Natal 24 dezembro, 2009

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Gustavo Corção em Lições de Abismo

Estamos em véspera de Natal. O movimento das ruas dobrou; triplicou.  Os automóveis buzinam, imobilizados nas esquinas entupidas; as lojas regurgitam; os vendedores não têm mãos a medir; e as pessoas, os clientes, entram, saem, escolhem, regateiam, comprimem-se, acotovelam-se, mas sorriem, sim, sorriem – porque parece que todo o mundo está muito contente.

Todo o mundo, menos o velho Scrooge. O amargo e triste usurário só pensa em si mesmo, e não lhe sobram ouvidos para as vozes cordiais que cruzam os ares com votos de Natal venturoso. Christmas! Merru, merry Christmas!

Passa o funcionário letra O, o funcionário letra N, o funcionário letra M; e passam as esposas, as virtuosíssimas esposas dos funcionários, cada uma com sua alegria embrulhada num papel sarapintado de sinos e velas. Boas festas! Boas festas! Todo o mundo está alegre.  Todo o mundo parece ter na alma hinos e luzes.

Todo o mundo, menos o velho Scrooge, que vê com olho mau e oblíquo essa inconveniente profusão de gastos inúteis.

As mães se cruzam com as mães; tias esbarram em tias.  Anda no ar um milhão de cálculos secretos envolvendo bonecas, espingardas e triciclos. E o cálculo mitiga o júbilo. As mães do padrão M param pensativas nas portas das casas de brinquedos; e ali na porta fazem-se mais densos cálculos, as cifras, as suputações, as somas, as subtrações.  A espingarda então encolhe e vira revólver de rolha; ou diminui ainda mais e se reduz a um engenhoso brinquedo de matéria plástica, que só funciona bem, como ficará provado mais tarde, nas mãos habilidosas dos vendedores. Os sonhos, tratados com o reagente das cifras, dão um precipitado cor de cinza.  Os vendedores embrulham em papéis sarapintados a espingarda que virou matéria plástica.  Embrulham decepções. Caixa! Caixa! Caixa! O triciclo fica para o ano que vem, quando vier o aumento.  Aliás, Toninho ainda é pequeno para o triciclo. E o vendedor embrulha aquilo em que se transformou o triciclo. Caixa! Caixa! Mamãe, olha ali, que amor de boneca! E a mãe puxa a menina padrão M que deseja a boneca padrão O.  Caixa!

O brinquedo resultante da judiciosa combinação entre um sonho e um orçamento vai agora escondido no embrulho; e a mãe M, longe dos outros brinquedos da loja, que doem pela comparação, reata o fio do sonho.  Raciocina para reconquistar a pureza do sonho. Toninho vai gostar, Toninho vai ficar radiante.

Passam embrulhos; embrulhos levando pessoas pelo dedo. Vejam! Apareceu no sangue da cidade essa acúmulo de células imaturas.  Onde está a espingarda?  onde está o tricilo?  Viraram mieloblastos, detritos de sonhos, jovens, bastões, segmentados.  Façam o exame de sangue da cidade!! E eu quero ver o jogo fisionômico do dr. Aquiles quando abrir o papel.

Boas festas, dr. Aquiles!  Merry, merry Christmas! Todo o mundo está contente.  A mãe de Toninho, a múltipla mãe do coletivo Toninho, que mora em Copacabana, em Itapiru, em Jacarepaguá, divide-se, ramifica-se, decompõe-se numa densa multidão de dorsos femininos. Os bondes passam cheios de pernas, pernas letra M, pernas letra N, e os festivos mieloblastos embrulhados com sinos e velas entram a circular pela cidade. Todo o mundo está contente, menos o velho Scrooge.

Mas será mesmo verdade, ó amável Dickens, que todo o mundo esteja contente?  E a espingarda que virou celulóide? E o triciclo que ficou para o ano que vem? Embora antipático, quem tem razão é o velho Scrooge. Embora mesquinho, ele ao menos compreende uma coisa de capital importância: que é muito difícil dar.  É a última coisa que se aprende; e é a primeira que se exige para um mundo habitável. E é por isso que eu vejo com melancolia essa procissão de equívocos embrulhados.  Quem terá o coração tão duro que dê uma pedra ao filho que pediu um peixe? Mas a dificuldade se resolve desde que se embrulhe a pedra em papéis festivos; e as mães letras L, M, N, conseguem convencer-se de que a pedra é uma nova espécie de peixe.  E é isso que dói, e como dói! A alegria falsificada, a alegria que virou matéria plástica.

Não digo que seja impossível uma alegria verdadeira, uma alegria de criança, com um brinquedo truncado e pobre. Não. É claro que uma alegria de criança pode nascer à toa; é claro que um pedaço desconjuntado de celulóide pode fazer feliz uma criança; é claríssimo que ainda não conseguiram secar, por mais que o tentem, as fontes vivas da infância, as riquezas de um coração menino que com pouco se contenta.  Não.  Continuem assim, por séculos e séculos, a enganar as crianças e os pobres.  Sempre haverá pobres; sempre haverá crianças. Mas não é isso que mais me aflige. É também evidente que escolheram o dia do nascimento de Jesus para infligir uma festiva humilhação à pobreza. Basta pensar no Natal dos Pobres.  As ruas se enchem de miseráveis em filas nos portões dos palácios.  Se chove, fica ainda mais perfeito o espetáculo. Mas não é isso, ó Dickens, que mais me dói.

O que me dói é a falsificação, é o espírito de praxe que preside as tristes festividades dos homens. É dia de dar.  A folhinha marcou o dia de comprar presentes. A vizinha da direita comprou, a vizinha da esquerda comprou. Eu preciso comprar. É praxe. É uso. É costume. E todo o mundo fica contente de entrar na equação de um uso, de um costume. Da praxe.  Todo o mundo, menos o antipático Scrooge.

Que Natal é esse que acentua as injustiças, que exaspera as paixões, que alarga os equívocos? Admitamos a festa da cidade, do país, do gênero humano.  Admitamos a celebração de algum feito que a todos interesse.  Admitamos que depois de amanhã o mundo se lembre da natividade do Salvador, que nasce de uma Virgem, na gruta de Belém, porque não havia lugar para eles nas hospedarias. Mas nesta hipótese, meu caro Dickens, eu exijo, em nome da mesma lógica que me mata, que a alegria seja de uma outra ordem, e que não dependa assim, em primeira linha, dos cálculos e dos orçamentos.  Há alegria e alegria; há graus de alegria; espécies de alegria: desde a cócega no pé da criança até a paz que nasce de uma concórdia perfeita; desde a estrepitosa bomba cabeça-de-negro até a gratidão silenciosa que desabrocha na quietude das almas.

Exijo uma outra alegria, apoiada sem dúvida nas coisas visíveis, no celulóide se quiserem, porque os homens vivem de sinais visíveis.  Mas apoiada de leve, como convém às coisas do puro amor.  Não é assim que fazem os namorados quando guardam pequeninas lembranças?  Não seria melhor dar de presente pétalas de rosas, leves pétalas, levíssimos hóstias de amizade perfeita?


Chamou-me a atenção o diálogo travado à porta de uma casa de brinquedos. A dama de azul, majestosa e autoritária, discutia com o vendedor obsequioso, que já dava mostras de impaciência.  Passando de um para outro, ora nas mãos profissionais do vendedor, ora nas mãos finas e cheias de anéis da abastada freguesa, uma bonequinha preta de olho arregalado, e com uma cestinha de bananas na cabeça, parecia alheia à discussão:

- É muito cara.

- Foi remarcada, madame. A senhora não encontrará uma boneca destas por menos de cem cruzeiros…  Mas se a senhora quiser temos outras bonecas mais baratas.  Qual é o seu orçamento, madame?

A dama de azul franziu ligeiramente os sobrolhos.

- É para uma menina pobre. A filha da empregada.

Ela não podia, evidentemente, marcar em cem cruzeiros o limite de “seu orçamento” como queria o desajeitado vendedor; assim, dizendo que era para uma menina pobre, explicava-se melhor. Não era para ela; para filha dela, para sobrinha dela, para alguma criança de sua espécie, dela; de sua qualidade, de sua classe, de sua condição: era para a filha da criada.

O vendedor compreendeu logo que o problema se deslocava para um novo sistema de micro-unidades. Ninguém, evidentemente, mede em quilômetros o diâmetro de um glóbulo de sangue, nem mede em milímetros a distância de Sírius.  Há o mícron para o glóbulo e o ano-luz para os astros.  Tudo tem suas dimensões, suas escalas adequadas, neste harmonioso universo.

Enquanto o novo sistema de unidades se estabelecia entre o vendedor e a majestosa senhora, eu olhava na vitrina um urso de astracã que comigo jogava o sério com seus olhos parados de contas azuis.

- Urso, amigo urso, diga-me, por favor, onde é que esconderam o menino Jesus?

O menino Jesus estava na esquina de Assembléia com Quitanda, no colo de uma mendiga. Ninguém desconfiava. As pessoas que passavam (Merry, merry Christmas) não viam o menino Jesus instalado no seu nicho de miséria. E tinham razão.  O menino Jesus escondia-se no pobre.  Amarelado, encardido, manchado, dir-se-ia que a mendiga o tirara de uma lata de despejo.

Quando eu passei, ele tentava pegar a chupeta caída nos trapos sujos da mãe. Levava-a à boca, sem jeito, metendo os dedinhos nos lábios, de onde corria uma saliva clara e inocente. A mãe, de braço estendido, pedia uma esmola pelo amor de Deus. Seria mãe de verdade?  Dizem que se alugam crianças para mendigar. A mendiga é falsa. A criança é falsa. A mãe é falsa. E dessa falsidade todo o mundo desconfia.

A chupeta caía de novo e perdia-se no seio miserável.  Nesse momento, quando eu já me afastava, o menino olhou para mim. Seus olhos pousaram em meus olhos. Sim, lá dos abismos de sua inocência seus olhos subiram. E o menino sorriu. Para mim!

Inscrição em qualquer sepulcro 24 dezembro, 2009

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Do condenado por mim à imortalidade, Jorge L. Borges, em Fervor de Buenos Aires

Não arrisque o mármore temerário
gárrulas transgressões à onipotência do esquecimento,
enumerando com meticulosidade
o nome, a opinião, os acontecimentos, a pátria.
Tanto avelório bem atribuído está às trevas
E o mármore não fale o que calam os homens.
O essencial da vida fenecida
- a trêmula esperança,
o milagre implacável da dor e o assombro do gozo -
sempre perdurará.
Cegamente reclama duração a alma arbitrária
quando a tem assegurada em vidas alheias,
quando tu mesmo és o espelho e a réplica
daqueles que não alcançaram teu tempo
e outros serão (e são) tua imortalidade na terra.

Yeshua e o cristianismo 16 dezembro, 2009

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Veio Yeshua a fim de salvar-nos para este mundo (o hebraico yasha). Não demorou o cristianismo com sua conversa quem sabe mais ponderada de salvar-nos deste mundo (o grego soteria), e portanto, dos disparates de Yeshua.

Não se mate 14 dezembro, 2009

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Carlos Drummond de Andrade

Não se mate
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate.

Livro jorrante 27 novembro, 2009

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Não há olho humano que tenha penetrado toda a insondável vastidão do livro jorrante, e inexiste coração pulsante que não o tenha desejado. Quem pode produzir um ponto final que dê conta de estancar a paixão com que Werther se entregou a Charlotte e quem achará uma quarta capa que demarque um limite aos sonhos alucinados de Quixote?

É vastamente conhecida a tentação de ignorar a vertigem do livro jorrante, encontrando-lhe um suposto ponto final e encaixotando-lhe entre os farpados arames de um dado sistema. Tudo em nome da segurança, do poder, e quiçá do orgulho.

Por olímpica ironia, as assim chamadas religiões do livro prodigalizam parte considerável de suas forças represando o livro. O primeiro passo é considerar inspirado e digno da sagrada reverência um único livro ou um único conjunto de livros, negando a sacralidade ou inspiração de qualquer palavra, dita ou escrita, que se ache fora deste cânon. Eis o livro que, por aval humano, concentra tudo o que Deus tem a dizer.

Não é o bastante. Impostas as prudentes limitações, o livro insiste em jorrar. Isso faz com que os olhos de um sem-terra descubram neste livro, assistidos pelo titubeante facho de uma lamparina, a urgência e a beleza da justiça, e faz com que um sisudo advogado passe a admirar os lírios do campo.

O segundo passo, dirigido aos leitores, consiste em convencê-los dos perigos que assombram as leituras desgarradas, perpetradas na solidão do quarto, entre os uivos do vento e da memória.

É certo que todo esforço inglório em represar o livro só obtêm vitórias bastante pontuais, embora profundamente destrutivas. Os sonhos de Quixote não cessam de contagiar; a paixão de Werther por Charlotte teima em comover. Caim encontra detratores e patronos.

O livro, caudaloso e eterno, jorra.